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Trânsito já "rouba" o tempo e bauruense fica muito dentro de carro

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 11 min

Há alguns anos, milhares de bauruenses não conseguem mais ir de um ponto a outro da cidade em poucos minutos. Se o compromisso for em horário de pico, muito pior. Aquela ideia de atravessar a região central em poucos minutos e chegar “logo ali” com sobra de tempo é passado. Para aferir o tempo consumido nos deslocamentos urbanos e discutir alternativas, o JC problematizou os trechos principais com técnicos e gestores do trânsito e sistema viário da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb).

 

 

O resultado, esperado por autoridades e especialistas do segmento, é de que para ir, por exemplo, da Câmara Municipal de Bauru, na região central, na praça Dom Pedro I, até a alça de entrada para o acesso ao Núcleo Mary Dota, o motorista vai precisar de sorte e, ainda assim, de pelo menos 15 minutos para completar o percurso.

 

O detalhe é que o trecho acima tem apenas 3,2 quilômetros de distância. Na aferição realizada pelo JC, com carro de passeio, só foi possível completar o trecho em 10 minutos e 35 segundos antes das 18h, horário de pico. 

 

Na segunda aferição, realizada na última quarta-feira, ao final da tarde, o mesmo percurso (Centro-alça para o Mary Dota) foi completado em 17 minutos e 38 segundos. 

 

Mas, conforme motoristas encontrados ao final do trecho, é comum o engarrafamento por mais de 10 minutos na ponta do percurso: para cruzar a alça da Rondon na saída da Avenida Nuno de Assis e avançar apenas 400 metros à frente até a outra alça, que dá acesso à avenida Rosa Malandrino Mondelli. O trânsito trava neste pequeno espaço, entre as duas alças, sobretudo no retorno pra casa, após as 18h.

 

Este trecho do deslocamento urbano aparece no topo da lista da menor velocidade média em pesquisa realizada pela Emdurb no início deste ano. O gerente de transporte coletivo, João Felipe Lança, que realizou o levantamento no serviço de modelagem urbana para redimensionar as linhas dos coletivos, conta que a “velocidade média para os coletivos cai para apenas 8 quilômetros por hora neste trecho exatamente em razão do gargalo no horário de pico nas proximidades da alças da Rondon. É o pior trecho urbano em horário de pico da cidade hoje’.

 

Segundo o gerente, tão lento quanto o trecho das alças da Rondon, na ligação com a Nuno de Assis, a pesquisa mostra apenas um trecho da rua 13 de Maio, na região central. “Para atravessar o Centro pela 13 de Maio em pico, a velocidade chega a ficar em 6 quilômetros por hora para os coletivos em um ponto. É muito lento e isso dificulta o planejamento para fazer fluir o trânsito em condições ideais em razão do acúmulo de carros”, menciona Lança.

 

Mas não é somente o trajeto do Centro para a Nuno que entope. Para realizar o percurso, o JC aferiu 10 minutos e 52 segundos para cumprir apenas outros 2,1 quilômetros, da garagem na redação do jornal, na quadra 9 da rua Benjamin Constant, no Jardim Higienópolis, até o cruzamento da Rodrigues Alves com a rua Azarias Leite, no Centro. Portanto, para apenas “cortar” a cidade de um lado para o outro, nos dois sentidos, é necessário em torno de 12 minutos tanto pela Duque de Caxias quanto pela Rodrigues Alves.

 

Entupido

 

O terceiro trajeto apontado como mais lento em horário de pico pelos gestores de trânsito da Emdurb é a travessia do viaduto Antonio Eufrásio de Toledo. Para realizar a aferição, em todos os trajetos, a reportagem foi aconselhada a optar por percursos possíveis de serem realizados de bicicleta e mesmo a pé.

 

Ou seja, em todos os deslocamentos aferidos, a distância ficou entre 2 e 3 quilômetros apenas, percurso adequado para caminhadas curtas. Para tanto, o odômetro do carro da reportagem registrou 3,5 quilômetros somente para ir do Higienópolis até a praça Chujiro Otaki, na “porta de acesso” para a Vila Falcão, na baixada da avenida Alfredo Maia.

 

A saída da redação foi às 18h27 da última quinta-feira. Mesmo em período de férias, o que reduz substancialmente o trânsito em direção à vila Falcão peal ausência maciça de estudantes, foram necessários seis minutos e 20 segundos apenas para ir do Higienópolis até o cruzamento com a rua Maria José.

 

O volume de veículos é tanto que o carro só consegue percorrer uma quadra de cada vez, parando no sinal vermelho a cada quadra. O “para e anda” prossegue parecendo sem fim até o cruzamento da avenida Duque de Caxias com a rua Quintino Bocaiúva, já na região do Hospital de Base. Da redação somente até este ponto, foram necessários 17 minutos e 50 segundos.

 

E o que pareceu ruim ficou ainda pior. Como é sabido dos que utilizam esse trecho, atravessar o viaduto Antonio Eufrásio de Toledo para acessar a baixada da Alfredo Maia exige bem mais paciência. O trânsito entope.

 

Ao final deste deslocamento urbano, foram utilizados 25 minutos e 40 segundos para que o carro cumprisse apenas 3,5 quilômetros, o que significa apenas percorrer a Duque de Caxias da altura do viaduto com a Nações Unidas até a praça Chujiro Otaki.                

 

Além desses três trechos eminentemente urbanos, em pontos centrais, a Emdurb também cita como bastante lento o percurso da saída dos condomínios Villagio até a rotatória de acesso para a avenida Getúlio Vargas, na zona Sul. Pela manhã, os motoristas têm muita dificuldade em percorrer não mais que 1.500 metros nesta região, pela avenida Afonso José Aiello.  

 

Trecho Duque – do Higienópolis até Alfredo Maia 

 

Com apenas 3,5 km de distância, este deslocamento exige, pelo menos, 25 minutos em horário de pico, após as 18h, em dia de semana; tempo médio é ainda maior no período de aulas.

 

Trecho Centro-alça para Mary Dota

 

Saindo do cruzamento da Rodrigues Alves com a Azarias Leite antes das 18h, pela Nuno de Assis, o trecho de 3,2 km é completado em pouco mais de 10 minutos; mas, depois das 18h, o mesmo trajeto exige mais de 17 minutos.

 

Trecho Higienópolis-Câmara

 

Saindo da quadra 9 da rua Benjamin Constant, no pátio do JC, e percorrendo a Rodrigues Alves, são necessários, pelo menos, 11 minutos para completar apenas 2,1 km de deslocamento.

 

Alternativas

 

Para cada um dos trechos apontados como os “deslocamentos urbanos” mais lentos e com maior tráfego pelos técnicos da Emdurb foi discutido uma rota alternativa para os motoristas. Mas, na prática, elas também enfrentam lentidão.

 

Para o percurso do Centro até a alça de acesso ao Núcleo Mary Dota, ao invés de ir pela Nuno de Assis, a gerência de trânsito da Emdurb sugere que o motorista vá pela avenida Rodrigues Alves e acesse, após cruzar sobre a Marechal Rondon, a alça para a rodovia. “A vantagem é que no trecho final, pela Rondon, a velocidade permitida é de 80 quilômetros por hora. Além de ser mais rápido nessa parte do percurso, o motorista foge da espera longa, com fila, exatamente na alça de acesso ao Mary Dota, para quem faz o trecho pela Nuno de Assis”, pondera o engenheiro Aníbal Ramalho.

 

Para quem for sair da região dos condomínios Villagio, em direção à parte central, a alternativa é ou sair pela Rondon, entrando na cidade pela Nações Unidas – quando o endereço final for compatível – ou “fugir” do engarrafamento na altura da alça da Getúlio Vargas – para quem vai pela zona sul, pelas ruas internas próximas à loja da Marathon Class, em direção à avenida Nossa Senhora de Fátima. “Ali, você entra por ruas por dentro do bairro e sai lá na Nossa Senhora de Fátima, fugindo da alça”.

 

Para quem vai para a Vila Falcão, a “fuga” possível do engarrafamento no viaduto Antonio Eufrásio de Toledo é deixar a Duque de Caxias, na altura da rua Célio Daiben, caindo para a região do Viaduto Mauá. Mas cuidado, após as 18h, a alternativa também não compensa.  

 

É preciso romper ‘ditadura’ do carro

 

Sem possibilidade de curto e médio prazo de resolver os problemas de deslocamentos urbanos, mesmo para pequenos percursos, a única saída para o bauruense é abandonar o carro e se valer da prática de caminhada ou do uso de bicicletas. Mas, para os especialistas, aqui se repete uma questão comportamental dos brasileiros, a da dependência e vício pela “cultura do carro”.

 

Para o engenheiro e doutor em engenharia de transportes pela Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), Archimedes Azevedo Raia Júnior, sem possibilidade de ver a junção de plano de mobilidade urbana com obras viárias executada rapidamente, a única saída é combater o uso de carros. “É preciso romper com a cultura do carro. Muitas dessas viagens, desses deslocamentos urbanos, poderiam ser realizados a pé ou de bicicleta, mesmo nos bairros. Essa situação se repete em inúmeros trechos por toda a cidade. Mas nós estamos amarrados na cultura do carro e, assim, não tem jeito”, avalia.

 

Já vivemos no inferno urbano, critica o engenheiro. “Nos horários de pico já é o inferno urbano o trânsito para milhares de pessoas em Bauru. E vai ficar cada vez pior. Para nossa mentalidade urbana ocidental, deixar o carro na garagem parece estranho, mas não é”. 

 

Pelo poder público, as soluções deveriam vir em mais de uma direção, opina. “Tem de ter planejamento viário e o plano de mobilidade urbana funcionar para privilegiar o transporte coletivo e não os carros. Não tem jeito. Isso é uma saída mundial e não somente para Bauru. Mas isso já está sendo feito lá fora há muito tempo e, no Brasil, é o inverso”, lembra.

 

Archimedes reforça um conceito básico, que não é levado em conta pelas pessoas. “E o pior é que quanto mais se insiste na cultura do uso do carro nas ruas mais aperta a resistência contra a solução e fica ainda pior. Quanto mais resiste ao óbvio, que é combater o carro, pior fica e o remédio é cada vez mais amargo. Não tem jeito, as pessoas vão ficar cada vez mais tempo paradas dentro de seus carros”, insiste.

 

Para o doutor em engenharia de transporte, distâncias de dois a cinco quilômetros são perfeitamente realizáveis a pé. “Não é distante, é pouco a ser percorrido. Mas estamos tão viciados com o carro que não fazemos, porque não estamos acostumados. Mas é claro que dá para fazer e isso faria muito bem inclusive à saúde, caminhar, caminhar”, diz. 

 

Poder público

 

Antes de atender à reportagem, o engenheiro havia se deslocado do Jardim Estoril até um endereço na altura do Hospital da Beneficência Portuguesa a pé. “É perto e já fiz minha caminhada aqui no retorno para casa e resolvi uma pendência”, conta. 

 

Para que a cultura do carro possa ser rompida, o poder público é quem tem as “chaves nas mãos”, pondera Archimedes. “O poder público tem de fazer sua parte com as calçadas, que estão ruins, tem de melhorar e muito a arborização porque a cidade é muito quente e ninguém vai andar com sol escaldante sem sombra e precisa ter políticas que privilegiem o coletivo em detrimento do carro. Mas tem de fazer”, elenca. 

 

Ele não deixa de citar que as ciclovias precisam ser práticas. “Precisa ligar um lugar ao outro para onde existem pontos de demanda. Não adianta fazer ciclovia na Comendador Martha se ninguém usa lá na direção do Recinto Mello Moraes pela região do Estoril. Existem pontos de demanda conhecidos de quem atua no meio e é para esses deslocamentos que as ciclovias precisam estar concentradas. Do contrário, fica como na Comendador Martha, a avenida fica com a faixa lateral, da ciclovia, ociosa o tempo todo”, sintetiza.

 

Vício de horários

 

Além da cultura do uso de carros de passeio, em detrimento a outras formas de deslocamento, os engenheiros da Emdurb Aníbal Ramalho, gerente de planejamento e sinalização viária, Gustavo Cardoso, gerente de infrações de trânsito, e João Felipe Lança, gerente de transporte coletivo, apontam o hábito com horários repetidos e vícios ao volante como “colaboradores” da piora na volta para casa ou saída para o trabalho.

 

Do ponto de vista prático, os horários das 7h às 9h, pela manhã, e das 18h às 19h, à noite, são os piores para serem utilizados pelos motoristas em quaisquer dos pontos levantados. Os gestores apontam que não tem mágica. Com o volume intenso de carros nesses horários, se o motorista não conseguir evitar o pico, ele sabe que vai demorar mais tempo para cumprir o trajeto. Uma forma de ajudar nisso é antecipar ou retardar a saída, o que minimiza.

 

Do ponto de vista de sinalização, Aníbal Ramalho pontua que será realizada modificação da velocidade no percurso da avenida Nuno de Assis. Atualmente, no trecho percorrido, a via conta com placas de 30, 40, 50 e 60 quilômetros por hora. A Emdurb reconhece a deficiência e promete adequar. A medida, porém, torna equalizada apenas a velocidade máxima possível do percurso. “As placas de 30 quilômetros por hora cumprem norma para redução nos obstáculos que existem nas vias. Nos demais trechos, vamos unificar uma só velocidade de acordo com a característica do trecho”, cita Aníbal.

 

Para a Duque de Caxias, entretanto, o engenheiro da Emdurb descarta a utilização de semáforos sequenciais, a chamada onda verde. Atualmente, os semáforos abrem todos de uma vez no trecho urbano. “Para o volume de carros da avenida Duque de Caxias, não funciona a zona verde, porque a abertura sequencial travaria o trânsito nas transversais ou entre os sentidos, não tem jeito de inserir essa opção na avenida”, conclui.

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