Para atender a demanda por qualificação e necessidades políticas, as universidades públicas sofrem forte pressão dos governos por mais vagas e cursos. É preciso esclarecer, no entanto, que é errado entender como universidade pública aquela que pertence e deve favores ao Estado. É errado entender que o compromisso da universidade pública com a sociedade é o de criar mecanismos que permitam o ingresso de jovens independentemente da qualificação que tenham.
A universidade é pública quando ela se insere na sociedade através do estabelecimento de políticas de interesse coletivo; ela não pode, portanto, deixar de refletir e propor ações voltadas para os grandes temas de interesse nacional. Ela é pública quando prepara seu aluno para cumprir, antes de tudo, uma função social. A universidade pública é uma instituição formadora de mentalidades. Esta, nenhuma outra, é a sua grande missão. A formação profissional ladeia este objetivo e de nenhum modo está acima dele.
É preciso esclarecer também que a expansão do ensino superior gratuito não é uma questão meramente quantitativa, pois isoladamente a quantidade não garante equidade. Equidade significa não apenas oportunidades iguais de acesso ao ensino superior, mas oportunidades iguais na obtenção de formação superior com equivalência de qualidade.
Na verdade, com seu ritmo mais lento por carregar uma estrutura que visa a qualidade, o crescimento do setor público depende de aporte crescente de recursos para acompanhar e desenvolver conhecimento e, principalmente, orientar-se para atender demandas não supridas pelo setor privado.
A universidade pública é padrão de referência por sua tradição e por sua natureza. Representa, na organização da educação nacional, o horizonte maior de possibilidades qualitativas para a aspiração de um país independente, desenvolvido e democrático. Sem um amplo acesso ao ensino superior público e aos níveis de qualificação que ele proporciona, deve-se perguntar, seriamente, quais serão as chances de milhões de brasileiros que, de algum modo, terão de competir nesse mercado internacionalizado. Este país não terá futuro sem uma inflexão na atual política de educação e sem universidades públicas fortalecidas e esse fortalecimento implica na consagração do dever do Estado sobre o ensino público, gratuito e de qualidade.
Permitam-me uma reflexão: João Batista, à beira da morte, pede a dois de seus discípulos chegarem até Jesus para perguntar: "És tu aquele que estavas para vir ou haveremos de esperar outro?".
Naquela mesma hora, Jesus curou a muitos de moléstias e de flagelos. Então, Jesus lhes respondeu: "Ide e anunciai a João o que vistes e ouvistes. Os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e aos pobres está sendo pregado o Evangelho".
A resposta de Jesus não foi uma resposta de palavras, foi uma resposta de ação. Então, de que maneira devemos responder a pergunta: "És tu a universidade que há de vir ou ainda esperaremos outra?".
Já que o sentido da universidade está na produção e na reprodução do conhecimento e como ele tem sempre uma intencionalidade, esse conhecimento precisa, necessariamente, estar disponível aos milhares que clamam por dignidade de vida, por saúde, por segurança, por justiça e por ética. Para isso a universidade pública precisa, cada vez mais, transformar esse conhecimento em ação e que se possa responder a quem perguntar sobre a universidade pública: "Ide e dizei o que tem visto e ouvido".
O autor é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - Bauru