Tribuna do Leitor

A Copa e a cultura nas instituções públicas


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Sociedades democráticas se caracterizam, entre outras coisas, pela autonomia dos três poderes do Estado, realização de eleições diretas, e liberdade de comunicação e expressão. Se o Brasil tem hoje, de fato, instituições de um Estado Democrático, por outro lado a maneira de agir dos ocupantes dos cargos mais elevados na hierarquia das instituições públicas brasileiras indica que a cultura, o modo de pensar, destas pessoas, ainda está ligada ao passado colonial e oligárquico do Brasil. Na Copa do Mundo realizada no Brasil em 2014 houve grandes jogos, mas também uma demonstração de cultura institucional diferente da que se vê no Brasil. Refiro-me à atitude do treinador da seleção italiana, Cesare Prandelli, e do presidente da federação italiana de futebol, Giancarlo Abete.


Eles demonstraram como nas instituições públicas deve ser entendida a correspondência entre posição hierárquica e o nível de cobrança. Bem diferente do Brasil, onde ocupar os cargos mais elevados não é considerado sinônimo de assumir, de fato, o ônus da posição, haja visto como se comportaram o presidente da CBF e o técnico da seleção brasileira depois da derrota para a Alemanha. Ao leitor que discorda de mim sobre o caráter público da CBF, defendo o meu argumento com uma afirmação do jurista Yves Gandra: "Não se trata, a CBF, de entidade civil típica, subordinada que é, em parte, ao Ministério dos Esportes."

Logo depois do jogo em que a Itália foi eliminada da competição pelo Uruguai, na entrevista coletiva o técnico da equipe italiana entregou o seu cargo. Além dele, também o presidente da Federação Italiana de Futebol, ou seja, o chefe do treinador, também entregou o cargo. Detalhe: na entrevista em que anunciou sua decisão, o presidente da federação italiana disse que não aceitaria o pedido de demissão do treinador. Por que o dirigente e o técnico da seleção italiana comportaram-se de modo diferente dos seus similares da CBF? Parece que em países como a Itália aqueles que ocupam os cargos mais elevados nas instituições não cobiçam esses postos para se protegerem do trabalho mais árduo e da necessidade de terem de tomar iniciativa diante dos problemas.


Em geral, os ocupantes dos cargos mais elevados numa instituição têm salários maiores do que os dos funcionários de baixo escalão. Isso já indica que o trabalho e a responsabilidade maior estão em suas mãos, por conseguinte, a remuneração maior justifica-se pela necessidade de dar a essas pessoas totais condições de exercerem sua função em alto nível de excelência. Além disso, e também por uma questão lógica, os efeitos e impactos das ações inerentes ao cargo de cada membro de uma instituição são proporcionalmente maiores à medida que os meios e condições para alterar o estado das coisas encontram-se à disposição daqueles que usufruem de maior poder, portanto, daqueles que se encontram nos cargos mais altos. É exatamente por todos esses fatores que os ocupantes dos principais cargos na hierarquia de uma instituição não podem dizer que se algo está errado os maiores culpados são os membros dos escalões abaixo, inclusive porque as condições para o desenvolvimento do potencial produtivo de cada funcionário são estabelecidas pelos superiores hierárquicos que gerenciam a instituição.

O técnico italiano e o presidente da federação italiana de futebol foram os primeiros a sair porque eles falharam mais do que qualquer outro dentro da instituição, porque eles tinham nas mãos um poder de interferência no andamento geral do trabalho muito maior do que o dos indivíduos que estavam abaixo deles na escala hierárquica.


Isso ficou evidente num trecho da entrevista coletiva do treinador Prandelli depois do jogo contra o Uruguai. Eis a declaração: "No final do jogo conversei com Albertini e Valentini (auxiliaries técnicos), e visto que o projeto técnico é de minha responsabilidade, apresentei a minha demissão. Antes de renovar o contrato existia a vontade de continuar nesse processo. Nos sentimos como pessoas que devem aos contribuintes."

Alexandre Prado Gasparotti Nunes é professor de Geografia

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