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Bauru e as cidades invisíveis

Profa. dra Márcia Lopes Reis
| Tempo de leitura: 3 min

Há menos de seis meses, mudamos para Bauru. Em função do trabalho, fizemos a opção e deixar São Paulo e, como muitas pessoas aqui e em outros países, voltamos a viver no Interior. Tudo isso parecia no início simples de ser feito e, até mesmo, muito previsível em termos de cotidiano. Precisaríamos descobrir alguns percursos em uma cidade até então desconhecida para nós. Por isso, algumas perguntamos nos acompanharam: como seria nossa nova rotina? Qual seriam os mercados que frequentaríamos? Quais são os dias de feira livre? Qual é o melhor cinema para ver bons filmes? E o teatro, onde seria? Qual a igreja estaria próxima de casa? Onde poderíamos correr e praticar exercícios ao ar livre, diariamente, bem cedinho, antes do trabalho? O ambiente e os colegas de trabalho, quem e como seriam? Como seria a interação com a comunidade, de modo geral: no trânsito, na rua, nas praças, na fila do pão, nos caixas de supermercado...

Na busca das respostas a essas perguntas é que nos surpreendemos com a cidade de Bauru, de um modo parecido ao personagem Marco Polo, na obra ?As Cidades Invisíveis?, de Ítalo Calvino (1972), que relata, em detalhes, ao imperador Kublai Khan as cidades que visitou: foram um total de 55 cidades visitadas durante 30 meses... Ainda que não tenhamos viajado por 55 cidades, como Marco Polo, nem estejamos no século XIII, chama a atenção que a máxima daquele relato, parece muito real para nós pois, nos vemos como no relato dele pela " a surpresa daquilo que você deixou de ser ou deixou de possuir revela-se nos lugares estranhos, e não nos conhecidos". Por isso, se tivéssemos que relatar tudo o que já descobrimos nessa e dessa ?cidade sem limites?, Bauru teria um lugar ao lado das cidades ? todas com nomes femininos ? do relato de Marco Polo ao imperador. Esse lugar seria ocupado também pela lição daquela obra que demonstra que o mapa - visível a todos os viajantes e moradores - não corresponde aos percursos e explicações que fazemos a partir dos lugares que passamos a conhecer.

Assim, o acesso à cultura e à modernidade das grandes cidades é perceptível na cidade de Bauru pelos seus eventos e programação de todas as formas de cultura. No cotidiano, a cidade ? plana e espalhada pelo centro?oeste paulista ? parece indicar que a mobilidade urbana demandará, em breve, opções mais sustentáveis e ?corajosas? para que as pessoas possam ir e vir com a qualidade de vida pela qual se tornou visível. No âmbito da prestação de serviços, há um contexto de saúde e educação que, seguindo o que caracteriza essa região, igualmente, precisa ser incrementado em quantidade e mais qualidade. Em termos de política, os moradores locais há mais tempo, bem como aqueles nascidos e criados aqui, ou aqueles que acabaram de chegar parecem vivenciar algo entre a descrença com a política e o desejo (quase imperativo) de fazer algo pela cidade! O mais interessante é que ? quase todos ? estamos envolvidos com uma cidade que vai além dos atributos e problemas visíveis e chega ao que somente conhecemos com mais vagar... Como ocorria com Marco Polo que sempre descobria algo sobre as cidades a partir do momento que vivenciava seus cotidianos, nos sentimos como esse viajante histórico de Ítalo Calvino: assim, vamos conhecendo uma Bauru que transcende o que todos dizem e contam sobre essa cidade, para se apresentar a nós como um lugar instigante para viver e interagir!

A autora é professora do Departamento de Educação da Unesp - câmpus de Bauru

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