Geral

Entrevista da semana: Maria Ismênia Vieira Cabestré

Wagner Teodoro
| Tempo de leitura: 6 min

João Rosan

Maria Ismênia Vieira Cabestré: “São gerações inteiras que passam pela Legião Feminina” 

"É importante que as pessoas se unam, se deem as mãos, somem esforços e, juntas, consigam o que sozinhas não podem alcançar.” A frase do papa João Paulo II é uma espécie de lema de vida de Maria Ismênia Vieira Cabestré. E ela fez da inspiração obra, estendendo a mão e ajudando muitas pessoas desde a infância. Cabestré já era voluntária antes mesmo da palavra voluntariado se tornar popular, já nasceu com a vocação para ajudar. Membro do Lions Clube Bauru Norte desde 1986, dedicou seu trabalho e tempo a várias instituições, contribuindo para o desenvolvimento social e a assistência a quem necessita. Modesta, resume sua atuação: “Temos que estar sempre unidos para sermos fortes.”

A vocação para ajudar encontrou identificação no marido Ismael Libânio Cabestré, com quem é casada desde a década de 1970 e divide aspirações e trabalho em prol do próximo. A família, aliás, é motivo de orgulho para Cabestré, que tem três irmãos e oito sobrinhos. Dos pais herdou o exemplo de caráter e não esconde o reconhecimento pela formação recebida. Tia coruja, Cabestré destaca o nascimento dos sobrinhos como grandes momentos de felicidade. “Tenho sobrinhos maravilhosos, todos muito queridos”, elogia.

 

Com quase três décadas de trabalho dedicado ao voluntariado, Cabestré inicia seu terceiro mandato à frente da Legião Feminina de Bauru, fundada pelo Lions Clube Bauru Norte e Lions Clube Bauru Sul, em 27 de abril de 1972. A entidade tem uma equipe multidisciplinar e com o aporte da Secretaria de Bem-Estar Social e parcerias trabalha na educação social e profissional de adolescentes do sexo feminino dos 14 anos e seis meses até os 17 anos e 11 meses, provenientes de contextos socioculturais com baixo poder aquisitivo para o mercado de trabalho com processo de inclusão produtiva e preparação para o primeiro emprego gratuitamente. Confira um pouco da trajetória de Cabestré a seguir:

 

Jornal da Cidade - Desde quando está na Legião Feminina? E como chegou à entidade?

Maria Ismênia Vieira Cabestré - Estou na Legião Feminina desde 1986. Eu e o meu marido fomos para o movimento leonístico desde 1983. Em 84, 85 trabalhávamos nos movimentos em que éramos convidados. Em abril de 86, meu marido foi convidado para fazer parte da associação do Lions e fomos empossados. Foi aí que eu vim a conhecer e fazer parte da diretoria da Legião Feminina. Meu marido foi presidente em 87-88 do Lions e voltou em 2003-2004. Eu fui presidente do Lions Clube de Bauru Norte em 2008-2009. A primeira vez que fui presidente da Legião foi em 2006-2008, depois de 20 anos de Lions. O companheiro Alcedir Mussato e eu trabalhamos muito e conseguimos fazer a escritura da sede da Legião, que até então não tinha escritura. A sede passou a ser da Legião. Voltei como presidente em 2008-2010 e agora vou ser presidente novamente no biênio de 2014 até 2016. Ninguém faz nada sozinho. 

 

JC - Como é o trabalho?

Cabestré - São 400 meninas, aproximadamente 180 no mercado de trabalho e o restante que vai iniciar aulas no dia 5 de setembro. A Legião tem apoio total da Secretaria de Bem-Estar Social, a Sebes, que banca o nosso projeto. Nosso trabalho é preparar as meninas e temos psicóloga, instrutores, oferecendo cursos de informática, gramática, secretariado, jovem empreendedor, workshops das profissões, além de acesso a lazer e cultura, passeios e palestras informativas. Elas têm toda uma preparação para o mercado de trabalho. E muitas das meninas almoçam na Legião e tomam o lanche da manhã e da tarde.

 

JC - Você tem uma estimativa de quantas meninas passaram pela Legião Feminina nestes 42 anos?

Cabestré - Mais de 80 mil.

 

JC - Quais os próximos projetos ou planos da entidade neste biênio?

Cabestré - Nosso sonho é ampliar o número de salas de aula. Inclusive no dia 21 de agosto vamos fazer um evento com espaguete com bracciola em prol da entidade. Já estamos buscando fundos para até o final da minha gestão ter construído mais duas salas. 

 

JC - Com 28 anos de entidade, dá para definir a maior recompensa do trabalho?

Cabestré - É ver o sucesso das meninas. Desde quando elas entram, ver como elas vão se desenvolvendo. Elas se transformam. Hoje nós temos meninas que foram da Legião, se tornaram senhoras, casaram e têm filhas que passam pela Legião. São gerações. Temos meninas que foram aspirantes, legionárias, trabalhando em cartório, na Ordem dos Advogados do Brasil, no Centrinho, Fórum... em diversos seguimentos. 

 

JC - Quando percebeu que gostaria de trabalhar com voluntariado? 

Cabestré - Desde cedo eu gostava. Quando eu era criança, era muito conhecida. Acontecia um velório, estava a Ismênia para ajudar, arrecadar dinheiro, fazer alguma coisa. Eu frequentava a Igreja de Nossa Senhora Aparecida, que foi onde fiz a primeira comunhão e casei, e estava sempre envolvida com as campanhas do agasalho, com as arrecadações, indo a asilos. 

 

JC - E passou por outras entidades?

Cabestré - Eu queria mesmo era ajudar e fui convidada para fazer parte da Apae. Eu era muito jovem, mas fui aprender a fazer trabalhos manuais, artesanato. Fiquei como voluntária na Apae até 1993. Eu era vice-presidente da Abrec, a Associação Bauruense de Apoio e Assistência ao Renal Crônico. Meu presidente, o Nilton Afonso, era renal e veio a falecer. Virei presidente da noite para o dia. Assumi a entidade junto com um grupo de médicas, que eram as fundadoras. Não tínhamos espaço para trabalhar, uma sede, e fui para minha casa. Conseguimos o terreno e fomos à batalha para ter uma sede junto aos Lions, Rotary, Maçonaria, igrejas e, mais uma vez, a comunidade geral nos apoiando. Eu assumi em janeiro de 1993 e em maio de 1994 a sede estava pronta. Na minha gestão conseguimos a sede própria. Tínhamos uma dificuldade no setor de hemodiálise e tive a chance de trabalhar com pessoas do bem. Encontrei o companheiro Manoel Messias de Mello e o convidei para uma reunião junto com as médicas para fazermos algo para ajudar os pacientes do setor de hemodiálise. O companheiro Messias, na época, era assessor da Associação Internacional de Lions Clube e reuniu seis clubes de Bauru, o Lions Centro, Lions Falcão, Lions Sul, Lions Norte, Lions Estoril e Lions Bela Vista, que se uniram e com o projeto do Messias conseguimos pela primeira vez verba de Lions internacional. Nosso projeto foi aprovado. Foi uma ação humanitária que culminou com a realização do Centro de Hemodiálise do Hospital de Base.

 

JC - Que lembranças guarda de sua infância?

Cabestré - Minha família sempre foi muito simples, humilde, mas meus pais foram exemplares. Eu tenho minha mãe com 88 anos e é um tesouro, uma pessoa maravilhosa. Tenho três irmãos, a Solange, a Jussara e o João, que já é falecido. Dentro da luta daquela época, meus pais conseguiram dar formação a todos os filhos. Mas não tinha, como hoje, balada, ser sócio de clube... era escola e trabalho. Era diferente, mas foi uma época muito feliz da minha vida. No colégio tinha muitas amigas e sempre fui amiga dos professores. Era líder de classe. Certa vez, o professor Arlindo Guedes de Azevedo chegou à sala de aula e eu estava em cima da mesa fazendo discurso de que iria dar uma Coca-Cola para cada um porque eu era líder. Fui precoce.

Comentários

Comentários