Tribuna do Leitor

Professora Benilda


| Tempo de leitura: 3 min

Quantas pessoas não foram ao seu velório por ter sido noticiado em local do jornal que não é de costume leitura logo à primeira mão.
Não é por isso que as lágrimas não rolaram, mesmo à distância. Junto com elas, todas as lembranças de seu trabalho como educadora lá no SEROP, quando a Delegacia de Ensino funcionava na Duque de Caxias e eu me lembro de 1968, primeiro ano de magistério. A sua paciência, o seu jeito de nos "ensinar" como trabalhar para garantir que todos aprendessem, cada qual a seu modo.
Junto com a professora Terezinha Rocha, trabalhando com o duplicador a álcool, nosso único instrumento de trabalho, mas que rendia muito no preparo das aulas. Quem eram os professores que aprendiam e "bebiam" todos os seus ensinamentos ? Toninho Garmes Falkis, Valter Portalupe, Valdeluir Rocha, Edson Cavalieri, Evaldo Borges, como era impressionante o compromisso para poder dar conta do trabalho de aprendiz de educador! E o apoio que recebíamos de todos: professor Wilson Bonato, João Simões Neto, Professor Brás, dona Terezinha e os inspetores: Wilson Hudson Pinto, Nelson Teixeira Mendes, Jessy, João Dorival, Ari Paniguel, o incansável Rodolpho Pereira Lima e Hélio Busch. Que grupo de educadores! Pouco antes, compunha também esse mundo o professor Luiz Braga.
Dona Benilda, veja a que tempos a sua morte me conduziu a refletir em toda uma história de Educação em Bauru. Mas a senhora sempre foi valente, guerreira e educadora e estava há muitos anos à frente. Recordo-me lá, na "Água do Paiol" ? Colônia Fuji ? um sábado quando junto com o professor Wilson (Careca), professor Jessy e a senhora chegaram à escola às 10 horas, aula já terminada, merenda preparada e servida, uns alunos na mina, outros carregando água para lavar a escola e seu comentário "parece que estou vendo uma escola da França de 1918. Freinet". Mais tarde, virou modelo de educação. Foi nesse dia que lá na escola eu quis perguntar muito sobre o trabalho que vinha sendo feito e avaliar como estava, a Satie Utiama e Hideo foram chamados para leitura e resolução de problemas e em seguida o Termo de Visita, que alegria professora ter sido orientado pela senhora.
Nada acaba aí. Um dia, seu marido passa por um problema de saúde e o trabalho dele era dirigir, viajava para vender. Lembro-me de que a senhora não teve dúvida, licenciou-se e foi ser motorista, condutora do carro para que as vendas continuassem sendo feitas por ele e a senhora ? conduzindo.
Professora, como aprendemos com a senhora e até hoje canto quando entro em sala de aula ou estou com crianças, a música que aprendemos para prender a atenção e depois ensinar.

"O meu chapéu tem três pontas
Tem três pontas o meu chapéu
Se não tivesse três pontas
Não seria o meu chapéu".
Depois tiravam-se as palavras e entravam os sinais. Obrigado, professora. E olha que coincidência a senhora foi cremada no dia 25 ? São Cristóvão, ele que pela sua força tornou-se santo conhecido e protetor dos motoristas, a senhora pela garra, conhecimento e amor tornou-se a condutora de tantos que aprenderam a conduzir e educar. Obrigado pelo seu trabalho. Descanse em paz.

"Amar é ter um pássaro pousado no dedo..." (Rubem Alves).

Jair Sanches Vieira

Comentários

Comentários