Em casa. Ligo o computador com extrema dificuldade. Só liga se a gente mexe uma chavinha vermelha atrás. E, mesmo assim, sem internet. Mas o problema maior ainda é a tela em branco. Nada pronto ali. Tudo a se fazer. Fico intrigado: como alguém é capaz de escrever um livro inteiro? E o tal livro tem que ter sentido, impacto, relevância, motivo, atrativo, brilho, veemência, tremenda atração. Difícil.
À minha direita, na estante pregada na parede, repousam alguns bons exemplos ? digo, exemplares. Criamos carinho verdadeiro por muitos desses adoráveis livros. Não troco, não dou, e vou vendo.
Está lá o tijolo "1001 Discos para Ouvir antes de Morrer", editado pelo londrino Robert Dimery. Taí uma boa saída: escrever uma obra cheia de tópicos, fotos e listas. Bem diferente do vizinho dele, o pesado e icônico "Viva o Povo Brasileiro", numa bela capa em amarelo e preto que bem destaca o nome do autor: João Ubaldo Ribeiro. Que, por sua vez, está bem perto de "Roberto Carlos Em detalhes" ? aquele do Paulo César de Araújo que não desperta muitas emoções no "rei", a não ser braveza.
Nem ouso deixar de citar "Ela é Carioca", de Ruy Castro, cuja força descritiva está nas inúmeras e saborosas histórias de personagens de Ipanema. Também está lá na estante o primeiro romance de Márcio ABC, "Parabala", inspirado na oralidade de um caso fantástico.
Alguns dos mais recentes a ocupar o móvel da parede são "Réveillon e outros dias", do jovem talento Rafael Gallo, e "Os Sonhos Não Envelhecem" ? com relatos sobre Clube da Esquina organizados pelo letrista Márcio Borges.
E eis que, sem mais nem menos, enquanto escrevo, cai da estante "Eu Não Sou Cachorro Não", também do já citado Paulo César de Araújo, que analisa a relação entre "música popular cafona e ditadura militar". Cai como a me puxar pelo braço: "Fala de mim, fala de mim!".
A esses autores todos (você também, Bernardo Guimarães, de "O Seminarista", e você também Marcos Rey, de "O Mistério do Cinco Estrelas"), o que eu falo é: obrigado. Não há tela em branco que resista ao talento de quem tira de letra a ousadia de escrever.
O autor é editor executivo do JC