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Por uma cidade mais humana

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Bauru está longe de ser uma cidade modelo. Mas é coisa nossa. Nenhum bauruense admite que alguém de fora fale mal da sua cidade. Sabemos valorizar as nossas coisas. Somos capazes de ir além de Fernando Pessoa que cantou o rio da sua aldeia num lindo poema: "O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/ Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/ Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia".

O Rio Bauru é aquele caudal de águas escuras e malcheirosas. Mas é o rio da minha aldeia. Um dia o prefeito Rodrigo Agostinho iniciará a obra da Estação de Tratamento de Esgoto e o rio será devolvido aos lambaris. Antevejo gramados nas duas margens e bancos à sombra dos salgueiros. Diferente do rio do poeta português que não o fazia pensar em nada. O Tejo leva a reflexões sobre as terras que cruza, desde a Espanha onde nasce. Provoca admirações pelo estuário largo em Lisboa, de onde saíram intrépidos navegantes. Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral de lá partiram com suas naus para a conquista de mares nunca dantes navegados. Ao contrário do rio do poeta, os bauruenses que conseguiram resistir ao tempo ainda guardam recordações do tempo de menino. Contam aos incrédulos que era uma aventura pescar guarus com peneira nas suas margens. A Lagoa do Ministro, formada na conhecida Baixada do Silvino foi ponto de recreação dos antigos moradores. Havia caramanchões com música ao vivo e barcos de passeio. Um dia aconteceu uma tempestade e a torrente levou tudo de roldão. Acabaram-se as tardes fagueiras.

Quem sabe, um dia, tudo isso volte. A cidade é uma obra coletiva que pertence às pessoas, não ao poder público e prefeituras. As cidades têm que ser pensadas a partir do ponto de vista das relações sociais que nelas precisam se desenvolver. É isto que cria o espírito comunitário, o "bairrismo criador e empreendedor". Estou repetindo o pensamento de Jane Jacobs que, nos anos 60 escreveu um livro importante (Vida e morte das cidades norte-americanas). Sua obra influenciou o planejamento urbano das cidades civilizadas. O pós-moderno urbano é quase uma volta ao passado, uma antítese às cidades perfeitas de Le Corbousier, mestre dos criadores de Brasília, uma cidade sem calçadas. Esse urbanismo ortodoxo é marcado pela preocupação básica de mudar o homem, transformar a natureza humana. Criamos condomínios, enclaves fechados e protegidos em si mesmos, com severas restrições à entrada de desconhecidos e com uma população homogeneizada e seleta. Não passam de bairros-dormitórios, sem vida. A estratégia de exclusão e privatização dos espaços é que mata a vida urbana. As grandes avenidas só servem para circulação de carros. As compras ficam restritas a pseudo segurança dos shoppings. A última tentativa é a de transferir favelas para condomínios verticais, de forma paternalista, em vez de ajudar as pessoas a compreender seus interesses pessoais e lidar com eles. Nos Estados Unidos as cidades médias caminham no sentido contrário ao dos espaços fortificados e militarizados. A ideia da cidade-pulsante compreende gente nas ruas, vida noturna, pessoas circulando. A primeira intervenção foi para recuperar o "centro velho", a fim de permitir a integração e interação dos cidadãos. Ampliam-se os calçadões. As moças fazem "footing", como na Rua Batista de antigamente. Em cidades cosmopolitas, como Paris, a figura do "flâneur" surgiu na belle époque. Continua, reproduzida as centenas passeando em seus bulevares. É aquele cidadão que anda sem destino, apenas para ver pessoas, paisagens e meditar sobre as vantagens de viver numa cidade civilizada. A literatura está cheia de elogios aos passeios que ocupam lugar de honra na consolidação da urbe. É nesse espaço que se realiza o destino urbano. Mas é uma ideia que resiste em "colar" no imaginário nacional. Temos uma relação obtusa com o espaço público. As calçadas, quando muito, são lugares para o trânsito de pessoas pobres. No Brasil pedestre é aquele que tem que correr dos carros e, às vezes, do ladrão. Baudelaire denominou essa comunhão universal das calçadas um lugar sagrado porque somente lá, quem está no poder pode tomar um "banho de multidão" e fazer as coisas certas inspirados pelo povo. Stephen Dedalus, personagem de Joyce sugere de forma enigmática que Deus está lá fora, no "grito das ruas".

O que antes era expressão de modernidade dinâmica e progressista - avenidas, condomínios e shoppings - passou a simbolizar o apático, gasto e obsoleto. São reflexões desse porte que devemos esperar dos nossos governantes. Bauru, com 118 anos é apenas uma criança. Mas já está na hora de repensar o futuro.


O autor é jornalista e articulista do JC

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