Quioshi Goto |
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Outro lado: no Ensino Fundamental, as crianças têm acesso à Internet |
Crianças que mal conseguem se equilibrar sentadas já ficam encantadas com os celulares dos adultos. Aos três anos de idade, manipulam o mouse do computador com desenvoltura e, lá pelos sete, pedem smartphones de presente e acesso às redes sociais. São cenas que se tornaram comuns entre os pequenos desta nova geração, que nasceu em meio a tantos recursos tecnológicos.
Mas, atrasadas diante desta nova realidade, as creches municipais de Bauru ainda não dispõem de laboratórios de informática e acesso à Internet, ferramentas consideradas importantes por especialistas na área para estimular o conhecimento e, inclusive, reduzir as desigualdades educacionais persistentes no País. A promessa é de que os primeiros computadores comecem a chegar às escolas de educação infantil da cidade a partir do ano que vem.
Segundo levantamento elaborado pelo movimento Todos Pela Educação para o Observatório do Plano Nacional de Educação (PNE), com base em dados do Censo da Educação Básica (MEC/Inep), metade das escolas públicas de Bauru não possuía laboratórios de informática até o final do ano passado. O número, que está abaixo da média de outras cidades paulistas de porte semelhante, incluem as creches e unidades municipais e estaduais do Ensino Fundamental e Médio.
E o que derruba o índice são, exatamente, as escolas de ensino infantil, já que nenhuma das 64 existentes em Bauru disponibilizam computadores às crianças. Em contrapartida, todas as 67 escolas do 1º a 9 º ano possuem laboratórios de informática, segundo informaram a Secretaria Municipal de Educação e a Diretoria Regional de Ensino.
“Entendemos que é importante estender esta tecnologia para as creches também. As crianças, desde muito cedo, se mostram curiosas, até porque veem todos os adultos à sua volta mexendo em tablets, celulares e computadores. A escola não pode deixar de se adequar a esta nova realidade”, frisa a secretária municipal de Educação, Vera Casério.
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Arquivo/João Rosan |
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Vera Casério reconhece que é preciso se adequar à nova realidade |
Primeiras
De acordo com ela, os laboratórios começarão a ser implantados a partir do ano que vem, inicialmente nas nove escolas de educação infantil que estão sendo construídas em parceria com o governo federal. “Já há recursos federais garantidos para a compra de material, o que inclui os computadores”, frisa.
O planejamento prevê a aquisição de cerca de oito computadores por escola, que poderão ser utilizados de maneira integrada ao projeto político-pedagógico da unidade, sob supervisão de monitores, por crianças entre três e cinco anos. Gerente da área técnica do movimento Todos Pela Educação, Alejandra Meraz Velasco reforça que, mais do que ofertar o acesso às novas tecnologias, as escolas precisam desenvolver recursos que sejam relevantes pedagogicamente para apoiar o trabalho dos professores na promoção do aprendizado de crianças e jovens.
“A disparidade no acesso aos bens tecnológicos, como acontece com a disparidade no acesso a bens culturais e outras oportunidades de aprendizagem, pode ser um fator de aumento da desigualdade educacional. Mas, na escola, o foco deve ser sempre o aprendizado do aluno”, frisa.
‘A educação precisa acompanhar a evolução’
A crença de que a Internet está usurpando o tempo em que as crianças deveriam estar soltando pipa não passa de um discurso saudosista para o doutor em informática aplicada à educação Marcus Vinicius Maltempi. Ele é um defensor da extensão do acesso a computadores e à Internet para crianças, inclusive para as que estão nas creches.
“A educação tem de acompanhar a evolução dos materiais que fazem parte da experiência de vida das pessoas, o que não significa abandonar os instrumentos antigos, como papel e lápis, que podem e devem coexistir. Mas há possibilidades pedagógicas que só são proporcionadas pelas novas tecnologias”, observa ele, que é professor do programa de pós-graduação em educação matemática da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro.
Assim como Alejandra Velasco, do movimento Todos Pela Educação, Maltempi reforça que o acesso precisa estar associado ao projeto político-pedagógico da escola, inclusive com controle sobre os conteúdos e tempo de utilização dos computadores. “Da mesma forma que não dá para uma criança ficar lendo um livro 16 horas por dia, também não dá para ela ficar na Internet 16 horas por dia. O uso precisa ser racional e, desta forma, nunca será maléfico”, pondera.
Negar esta possibilidade às crianças - ainda mais as de escolas públicas, que podem ter na escola o único meio de contato com este tipo de tecnologia – seria aprofundar as desigualdades educacionais, já tão presentes no País. “Dado o impacto que estas tecnologias têm na nossa vida, hoje, o abismo entre quem tem acesso e quem está excluído se torna cada dia mais profundo”, lamenta o especialista.
Até 2015
Se as escolas municipais do Ensino Fundamental já garantem 100% de acesso à Internet, o governo do Estado ainda trabalha para alcançar esta meta. Segundo a Diretoria Regional de Ensino, cerca de 80% das 51 unidades estaduais de Ensino Fundamental e Médio existentes em Bauru já contam com Internet banda larga disponibilizada por meio do Programa Acessa Escola.
O objetivo é universalizar o acesso até o final do próximo ano letivo, conforme destaca a dirigente regional de ensino, Gina Sanchez. “Neste segundo semestre, o núcleo de informática e tecnologia da diretoria está visitando cada escola que ainda não tem Internet para verificar o que é necessário em termos de instalação de cabeamento e adaptação na rede elétrica para comportar os equipamentos”, detalha.
Segundo ela, os recursos para a compra dos computadores já estão previstos no orçamento do ano que vem. Pelo Programa Acessa Escola, estudantes do Ensino Médio são contratados como estagiários para monitorar os alunos.
Escola pode ser o único contato com era digital
As 16 escolas de Ensino Fundamental da prefeitura, onde estão matriculados 8,7 mil alunos, contam com 480 computadores – média de 30 equipamentos por unidade. Todos os laboratórios são dotados de Internet via rádio e, normalmente, são utilizados uma vez por semana por cada turma.
Para alunos como Ana Paula da Silva Andrade, 10 anos, esta pode ser a única oportunidade de manter contato com o mundo virtual. Matriculada na Emef José Francisco Junior “Zé do Skinão”, no Jardim Progresso, ela não possui computador em casa. “Adoro pesquisar sobre o corpo humano, conhecer como ele é.”, comenta.
Já o colega de classe Raziel Antonin Pereira Boni, 10 anos, tem acesso a tablet e computador em sua casa. “Na aula, eu pesquiso sobre muitos assuntos que a professora pede”.
Para 2020, meta é uma máquina por 16 alunos
Segundo o PNE estabelecido para o período de 2011 a 2020, a meta é triplicar a relação computador por aluno nas escolas da rede pública de educação básica. Em Bauru, o número é de 50,6 alunos por computador, considerando as unidades de ensino infantil, Fundamental e Médio.
Se a meta for cumprida, até 2020 esta relação deverá ser de 16,8 alunos por equipamento. Ainda de acordo com o estudo do movimento Todos Pela Educação, o percentual de escolas da educação básica com laboratório de informática em Bauru está abaixo do de outras cidades de mesmo porte. No município, o índice é de 50,7%, menor do que os 86% de São José do Rio Preto, os 60,6% de Franca e os 58,2% de Piracicaba. Somente Jundiaí, que também tem população semelhante a Bauru, está abaixo no ranking, com 36,7%.

