Tribuna do Leitor

Periscópio


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PERISCÓPIO
Na tarde branca de sol de inverno ele assestou o equipamento na sacada de um prédio. Girando os cilindros de aço com suas lentes côncavas e convexas de longo alcance, aguardava a oportunidade de capturar algo relevante. Naquele sábado, final do mês de julho, o comércio estava movimentado e o burburinho era atípico pelas ruas centrais. Com os olhos focados nas lentes, não demorou muito para encontrar o inusitado. Uma placa de imobiliária foi localizada e nela constava a venda de uma loja de secos e molhados. O inusitado é em razão de não ser usual e moderna a venda desse tipo de loja. Loja de secos e molhados? O que é isso?

Convenhamos, não é usual até porque a sociedade empresarial moderna atribui nomes aos seus estabelecimentos exibindo em seus anúncios uma afeição excessiva à estrangeirice. Se o pedestre não entender o nome da loja, deverá valer-se do tradutor que estiver de plantão. Se o freguês for uma pessoa acanhada, não pergunta, passando ao largo da sofisticada loja.

O periscópio permitia visualizar que a cidade estava sendo renovada desde algum tempo. Carroças e cavaleiros dificilmente eram vistos pelas ruas. A centenária cidade estava assistindo silenciosamente ao crepúsculo de uma época. Não era só a loja de secos e molhados que iria desaparecer, com ela iria desaparecer também a história dos tropeiros que amarravam seus animais nos cavaletes em frente ao estabelecimento, enquanto faziam suas compras dos mantimentos de alimentação que eram retirados da sacaria por uma concha, pesados em uma balança Filizola com pesos de um até cinco quilos; tecidos de brim em linho ou algodão vendidos por metros, bem como objetos de alumínio, latas de óleo, ferragens, moedor de carne Mimoso n° 3, torrador de café, louças, chapéus de feltro e de palha, botinas, alpargatas, linhas para costura, barbantes, varas e anzóis para pesca, querosene, lampião de carbureto, bem como o fumo de corda e palha aparada.

Sobre o balcão uma moringa com água, garrafas de cachaças e vinhos de livre escolha. O proprietário de uma loja de secos e molhados não dispensava o uso de uma caderneta conhecida como "Carteira Comercial Paulista", existente desde 1909 para anotações da féria, ou seja, o dinheiro das vendas do dia, da semana, etc, sem esquecer do fiado referente às vendas feitas sob confiança. É importante recordar que a freguesia, de um modo geral, era honesta e cumpridora das obrigações de pagamento. Apertos de mãos selavam compromissos! Antes de guardar o equipamento, olhou mais uma vez para o anúncio na placa. Tinha a certeza de que quando ela fosse dali retirada a cidade deixaria de ser provinciana para tornar-se metrópole. Lembrou-se do pai, ex-dono de uma loja desse ramo. A loja desapareceu, mas o pai... com certeza estava ao seu lado iluminando a memória e a imorredoura saudade.

Roque Roberto Pires de Carvalho

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