Bairros

A Vila Vicentina por seus moradores

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 4 min

Éder Azevedo

Reinventando-se: na Vila, Euclides descobriu um novo talento

Cada um com sua história. Seus feitos. Suas lembranças. A Vila Vicentina abriga idosos que já foram artistas, empresários... São muitas as histórias a contar. Mesmo com a idade e os caminhos percorridos (muitas vezes duros caminhos), alguns deles se reinventaram e encontraram, com a ajuda da equipe da instituição, uma nova ideia, um novo caminho a seguir.

“Seu” Euclides Salmerão Garcia, 73 anos, tem a disposição de um menino e vontade de trabalhar. Morador da Vila há dois anos, foi nas dependências dela que encontrou uma nova paixão e ocupação: a jardinagem. “Sou o jardineiro por aqui. E cuido de cada flor e de cada planta com muito carinho. Foi aqui que aprendi a lidar com a terra”, ressalta, enquanto alimenta os peixes ornamentais chamados por ele de “minha molecada”.

E para aprimorar a nova habilidade, ele voltará para as salas de aula nas próximas semanas. Com a ajuda da instituição, “seu” Euclides ganhou uma bolsa para cursar paisagismo no Senac. “Estou ansioso para o início das aulas”.

Além de ser o responsável pelas rosas da Vila Vicentina, o novo jardineiro projeta melhorias para o espaço. De acordo com o presidente da entidade, José Roberto Pires Machado, em breve os acolhidos contarão com um “jardim acessível”.

Projetado por Euclides, a ideia é fazer um canteirão central com uma passarela de cada lado para que os cadeirantes possam mexer nas plantas. “Vamos procurar parceiros nas universidades para a construção o mais breve possível”, afirma Machado.

Caminho

O trajeto da vida  de Euclides foi longo. Assim como a maioria dos acolhidos, ele tem muitas histórias para contar. Uma delas diz respeito ao que o trouxe a Bauru. Nascido em Birigui, ele narra que vivia em Cascavel, no Paraná, onde trabalhava com um primo. “Por causa de uma casa, mataram meu primo e me ameaçaram. Na época eu era casado. Peguei minha mulher e meus dois filhos e vim para Bauru, onde cheguei a ter uma farmácia, no Bela Vista”.       


Reformas

Há  cerca de um mês, a Vila Vicentina passou por reformas. Houve a inauguração do alojamento feminino, reformado e batizado de “Aconchego”.

Outra reforma recente foi feita em uma das alas do centro de convivência. Segundo o vice-presidente da entidade, César Benedito Siqueira,  as reformas são necessidades e um dos focos da instituição. 

“Três salões estão aptos para oferecer recreação aos idosos. Um deles será para reuniões e cinema, outro para fisioterapia e, o terceiro, para a terapia do Centro-dia”. De acordo com César, a reforma foi toda feita com o dinheiro do churrasco do ano passado e, este ano, boa parte da arrecadação deverá ir para a melhoria do passeio do abrigo, com o objetivo de evitar quedas. 

“Precisamos também de um pavilhão para acamados, uma espécie de enfermaria, que já existe, mas precisa melhorar para dar mais dignidade aos que ficam doentes”.

César ainda aponta que o abrigo é uma construção antiga. “Nosso desejo é realmente reformar tudo. Os muros, por exemplo, já são altos, mas precisamos melhorar a segurança. Infelizmente, a criminalidade está aumentando e já registramos tentativas de invasão. Mas o dinheiro limita uma reforma mais efetiva. As coisas vão acontecendo aos poucos  e usamos a criatividade para gerar renda, como o bazar, bingos e participação em festas”.   


Visita da família é coisa rara 

De acordo com a psicóloga do abrigo, Mariana Fátima Canassa da Silva, dos 48 acolhidos na Vila Vicentina, hoje, no máximo 15 recebem visitas frequentes de familiares. Tal ausência é suprida, em parte, com a visita de voluntários e passeios.

“Pedimos que os voluntários venham aos finais de semana, principalmente, ao menos para conversar. Temos idosos que gostam de ler a Bíblia, mas já têm dificuldades. Então essa companhia é muito importante”.    

Perfil

No passado, não era comum realizar um trabalho de conscientização com as famílias e a maioria dos idosos acolhidos já vive há, no mínimo, quatro anos na instituição. Muitos chegaram ao abrigo por conta própria e vieram para Bauru por causa do trabalho na ferrovia. Por tanto, é comum ouvir histórias do passado em estados como Pernambuco, Paraíba...

Na Bauru do passado, eles também encontraram trabalho nas lavouras de café da região. E há aqueles que foram acolhidos porque não se casaram, não tiveram filhos e ficaram sozinhos na velhice. “Temos casos de grupos de irmãos que foram acolhidos juntos. Mas, hoje, o acolhimento é a última alternativa. Procuramos realizar um trabalho de sensibilização com as famílias. Temos o Centro-dia, que funciona como uma válvula de escape. Entretanto, quando o acolhimento é necessário, também trabalhamos para que os familiares não abandonem o seu idoso. A família é o seu vínculo de confiança, ele precisa desse carinho, dessa presença”, observa a psicóloga.      

Vagas

Para o preenchimento de possíveis vagas, é feito um estudo de caso do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), da Secretaria de Bem- Estar Social (Sebes), em parceria com a Vila, devido à grande procura. A idade mínima exigida é de 60 anos e o idoso precisa ter vontade de participar do programa, além de não ser dependente de cuidados específicos, como banho, alimentação e locomoção.

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