Achei significativa a frase acima, citada por Lúcia Guimarães em um de seus artigos no Estadão. Segundo ela, se você googlar variações da expressão "The world is a mess" irá encontrar uma explosão de citações. Só por curiosidade, fui até lá para conferir. Realmente, encontrei, para a mesma frase, traduções como "O mundo está uma bagunça", "está em desordem", "está em confusão", "está numa encrenca", o que significa quase a mesma coisa. E a articulista admite uma convulsão global: Ebola, Iraque, Síria, Gaza, Ucrânia. E a lista não para de crescer.
Ocorre que pretendo deixar de lado as maluquices internacionais e fixar-me na "mess" tupiniquim. Acaso é pouca a bagunça que está rolando neste país? Tome os últimos jornais, revistas, entre nas redes sociais e note o que sobressai: a sem-vergonhice política, a corrupção, a roubalheira, a desfaçatez, a cara de paisagem dos autores dos malfeitos. Ninguém sabe de nada, ninguém está envolvido em nada, ninguém está preocupado com nada.
Não vou esmiuçar as sacanagens que constituem a matéria de face dos periódicos porque o jornalismo investigativo já está desnudando-as à exaustão. Mas, só para rememorar, elenquemos algumas dessas indignidades. Primeiro, relembremos os montes de dólares que a Petrobrás jogou no ralo naquele caso de Pasadena. Simularam uma CPI e o que aconteceu? Passaram "cola" para os pretensamente envolvidos. E estes ficaram a papagaiar respostas recebidas e estudadas. No meu tempo, quem "colava" recebia uma descompostura que fazia o infrator rubro como uma pitanga, para usar uma comparação de Machado de Assis. Mas, isso era em outros tempos!
Se fosse só isso! Há poucos anos, ligávamos a televisão só para assistir às sessões do Senado onde se comentava, entre outros assuntos, o presente de uma empreiteira, que não era nada menos que uma Land Rover, a um membro do PT. Ficávamos horas ouvindo detalhes sobre o escândalo do "mensalão". E íamos seguindo, dia a dia, o desenrolar dos fatos escabrosos, cientes de que haveria uma punição justa, apesar de Lula jurar indignado que nada disso era verdade. Tudo corria como deveria, mensaleiros apenados, Joaquim Barbosa firme em seus propósitos de justiça, até que, exausto de tanto lutar sozinho acabou pedindo aposentadoria. Aí, o mingau desandou...
Não dá para rememorar todas as bagunças, mas, uma mais recente não pode ficar de fora: o dedão intrometido na rede de computadores do Palácio do Planalto. Esse dedão fuçador acabou por infiltrar informações injuriosas e mentirosas no currículo de dois jornalistas gabaritados: Miriam Leitão e Carlos Alberto Sandenberg. Acontecerá alguma coisa? Impossível, afirmam lá da Casa Grande, porque, como as matérias são apagadas após seis meses, não dá para saber quem é o autor, ou autores. E a Senzala tem de continuar obedecendo as ordens da Casa Grande.
Acabou? Nada! A cada dia, surge mais um escândalo. O penúltimo ? porque depois virá outro e mais outro e mais outro ? acaba de ser publicado na Veja, de 13 de agosto: a contadora do doleiro preso Alberto Youssef revelou um esquema de lavagem de dinheiro utilizado por políticos do PT, PMDB, PP etc. Moça corajosa! Dá o nome de parlamentares e empreiteiras, devastando a podridão que vigora onde lá no covil onde o dinheiro corre solto. OAS, Mendes Campos, Camargo Correia, de um lado, e de ouro, André Vargas (sem partido), Fernando Collor (PTB), Cândido Vacarezza (PT) Luiz Argôlo (ex-PP, hoje Solidariedade), Mario Negromonte, ex-ministro e conselheiro do Tribunal de Contas da Bahia, são alguns nomes envolvidos nessa maracutaia repeteco que sangra de forma recorrente os cofres nacionais.
Por enquanto, paremos por aqui. Por enquanto, porque quando pensamos que a bagunça vai acabar surge mais uma e mais outra e mais outra e mais uma. Precisamos de um Ulisses para pôr esses espertinhos pra correr. Um Ulisses que, com seu destemor e ousadia, expulse os pretendentes à mansão de vida folgada, que absolutamente não pode ser transformada em "casa da mãe Joana". Joaquim Barbosa, que poderia ser fiel escudeiro do pretenso Ulisses, já foi posto de escanteio. Devido à apatia e o conformismo reinante, haveria clima para o aparecimento de um salvador da Pátria? Duvido. Como disse Thomas Morus no final de "A utopia": "Aspiro, mais do que espero".
A autora é professora doutora aposentada da Unesp