Douglas Reis |
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Grevistas espalharam cartazes com dizeres pelo câmpus |
A greve que atinge três das universidades estaduais paulistas já dura quase três meses. Ontem, porém, o movimento parece ter chegado ao ápice no campus da Universidade de São Paulo (USP) em Bauru. Um dia após a obstrução da Central de Esterilização da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB/USP), que deixou cerca de 250 pacientes sem atendimento odontológico, os grevistas obstruíram as entradas dos prédios da clínica fonodiaologia e do restaurante universitário. O fato gerou nova movimentação da Polícia Militar (PM) no local e provocou a suspensão de todos os atendimentos nas clínicas da faculdade. O número de pacientes afetados, contudo, não foi informado pela diretoria da FOB, que disse apenas que cada departamento ficou responsável pelo reagendamento das consultas.
Vale ressaltar, no entanto, que o movimento não chegou a afetar o funcionamento do Centrinho da USP, que, segundo confirmou a assessoria de imprensa da unidade, permanece com o atendimento normal hoje. Contudo, a crise se estende também ao hospital (leia mais na página ao lado).
Segundo o comando de greve, 80 funcionários técnico-administrativos do câmpus, entre prefeitura, FOB e Centrinho, participam do movimento, que teve início em maio deste ano.
Nova liminar
Ainda ontem, no início da tarde, a diretoria da FOB obteve uma segunda liminar na Justiça (reintegração de posse), objetivando a desobstrução do prédio. O documento, expedido na 2º Vara da Fazenda Pública, pela juíza Elaine Cristina Storino Leoni, prevê majoração da multa para R$ 1 mil por dia ao descumprimento, além de reforço policial para forçar os manifestantes a deixarem os prédios, caso precise.
Até o fechamento desta edição, o comando de greve não havia sido notificado da decisão, já que o movimento acompanha o horário das clínicas, que fecham às 18h. A expectativa é de que o oficial de justiça, acompanhado por militares, compareça ao local na manhã de hoje, onde os manifestantes devem começar a se reunir a partir das 5h.
“Ninguém foi comunicado oficialmente. Se acontecer, vamos desobstruir as entradas, não queremos que ninguém seja preso. Mas, nada impede que a greve continue e que voltemos a ocupar na segunda-feira”, alerta Claudia Carrer, representante do Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp) e membro do comando de greve.
Conforme o JC noticiou na edição de ontem, a FOB já havia obtido uma liminar de reintegração de posse obrigando os grevistas a deixarem o prédio da odontologia e da Central de Esterilização, sob pena de multa de R$ 500,00 por dia.
A medida, no entanto, foi descumprida pelos grevistas, que optaram pela continuidade do movimento.
“Decidimos continuar e arcar com o prejuízo. Hoje (ontem), houve um ato na Capital e esperamos a abertura de uma nova negociação (leia abaixo). Não conseguimos o reajuste e ainda estamos sem o salário de agosto, que foi cortado”, frisa Carrer, que trabalha há 23 anos no Centrinho.
Uma nova assembleia dos grevistas de Bauru deve ocorrer entre as 13h e 14h de hoje na USP.
USP
Sobre obstrução, a diretora da FOB/USP, Maria Aparecida de Andrade Machado, lamentou a interrupção do atendimento à população. “Temos muitos pacientes idosos, com sequelas de AVC e tratamentos oncológicos, por exemplo, que ficaram sem atendimento e tiveram que ser reagendados. Nossa chefe de departamento tentou negociar com eles (grevistas) hoje (ontem), mas foi impedida de entrar no prédio da fonodiaologia”, afirma a diretora.
Sobre a liminar, ela diz que reconhece o direto de greve e respeita os manifestantes, mas argumenta que não será conivente com a falta de respeito à Justiça.
Reinvindicação
Trabalhadores das três universidades públicas estaduais USP, Unesp e Unicamp estão em greve desde 27 de maio, em protesto ao adiamento até setembro, pela reitoria, das discussões de reajuste salarial à categoria. O aumento pedido por eles é de 9,78% (valor referente a inflação mais 3%). Os servidores, tradicionalmente, ganham reajuste em maio. Em 2013, por exemplo, foi de 5,39%.
Soluções?
Desde o ano passado, o gasto da USP com folha de pagamento é maior que todo o orçamento da universidade, que deve receber R$ 5 bilhões do Estado em 2014. Assim, a instituição tem usado reservas para sustentar as atividades.
Conforme matéria publicada pelo jornal Folha de S. Paulo na edição de ontem, para tentar atenuar a crise, a USP estuda implementar programa de demissão voluntária de funcionários e incentivo para que professores reduzam as jornadas de trabalho.
Segundo documento da administração, do qual a Folha teria tido acesso, a ideia é adotar um programa de demissão voluntária que abranja 3.000 funcionários (o documento não especifica se a proposta inclui os professores). No total, a instituição possui 17.450 técnicos administrativos e 6.000 docentes.
Outra medida estudada seria a de incentivar que professores diminuam as jornadas de trabalho e, com isso, reduzam seus salários. A ideia é que, para uma redução de 25% da jornada, haverá corte de 20% do salário.
Questionada sobre assunto, a diretora da FOB/USP, Maria Aparecida de Andrade Machado, disse não ter sido comunicada oficialmente. “Soube pela mídia e, como dirigente, estou surpresa. Como não há nada oficial, vou aguardar uma posição do reitor”, pontua.
Carta de grevistas pede uma verba emergencial
Uma comissão formada por funcionários e estudantes da USP foi recebida na tarde de ontem por assessores do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual, e entregou um documento com algumas reivindicações para as três universidades paulistas - USP, Unicamp e Unesp.
O documento reivindica o repasse de uma verba emergencial de 0,7% a mais do ICMS, que já é repassado para as universidades públicas, até outubro, além de um aumento de 33% desse repasse a longo prazo. Esse valor adicional deve beneficiar a USP, Unesp e Unicamp.
Cola em fechaduras gera BO e vai parar na polícia
A diretora da FOB/USP registrou boletim de ocorrência (BO) na Central de Polícia Judiciária (CPJ), por volta das 20h30 de anteontem, por danos ao patrimônio público. Segundo o BO, quatro portas do prédio da faculdade ficaram danificadas após terem objetos metálicos (clipes) colados com cola de alta aderência. A autoria é desconhecida.
Ao JC, a diretora conta que funcionários tiveram que entrar pelas janelas da sala do Centro de Esterilização para recuperar alguns equipamentos que estavam guardados lá, como bisturis e outros, que foram distribuídos de volta aos departamentos.
Sobre a ocorrência, o comando de greve da USP informou que o fato aconteceu quando os grevistas já haviam deixado a universidade. “Não foi ninguém ligado ao movimento. Somos pacíficos. Quando deixamos a sala, ao final da tarde de quarta-feira, estava tudo em ordem, até gravamos um vídeo para não ter problema”, diz Claudia Carrer.
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