João Rosan |
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A mulher foi encaminhada à Cadeia Pública Feminina de Pirajuí |
Uma mulher tentou matar a própria filha, de 9 anos, com veneno de rato, depois de brigar com o marido na casa onde viviam, no Parque Santa Edwiges. A mãe, uma faxineira de 43 anos, tentou cometer suicídio em seguida, mas foi presa em flagrante e confessou o crime.
Por decisão editorial e em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o JC não irá divulgar os nomes dos envolvidos, para evitar constrangimentos à criança. Segundo informações prestadas pelas polícias Civil e Militar, o casal já vinha se desentendendo há alguns dias e, anteontem, uma nova briga teve início.
O marido teria pedido divórcio e saído de casa após a discussão, quando a mulher decidiu acrescentar raticida à sopa que estava preparando para o jantar. Ainda de acordo com a polícia, a menina relatou que percebeu a coloração avermelhada na sopa, mas imaginou que a mãe tivesse acrescentado pimenta ou beterraba à receita.
A criança, assim como a mãe, ingeriram o veneno e, pouco tempo depois, começaram a sentir fortes dores no estômago e náuseas. “Quando a criança começou a passar mal, ela disse que se arrependeu e ligou para o marido, avisando que, quando ele chegasse, iria encontrar duas pessoas mortas na casa”, comenta o delegado Paulo Calil, da Central de Polícia Judiciária (CPJ).
O homem, um pedreiro de 59 anos, retornou para a residência e, imediatamente, levou a filha ao Pronto Atendimento Infantil (PAI), onde ele acionou a Polícia Militar (PM). A esposa teria negado ajuda e só foi encaminhada ao Pronto-Socorro Central (PSC) quando a PM chegou na casa, por volta das 23h30.
No local, um pacote de raticida parcialmente utilizado foi apreendido. Aos policiais, ela teria confessado que tentou matar a filha para se vingar do marido.
Briga por carro
A mulher recebeu alta na manhã de ontem e foi encaminhada à CPJ, onde confirmou a tentativa de homicídio. Segundo Calil, ela relatou que a briga entre o casal, anteontem, teve início à tarde e se prolongou até o fim da noite.
“Ela disse que tinha ido trabalhar de carro e que, no meio da tarde, o marido pegou o veículo sem avisá-la. Quando ela chegou em casa, à noite, começou a discussão. O marido saiu da residência e, num momento de desespero, ela pegou o veneno que eles tinham comprado para matar os ratos que estavam aparecendo no imóvel e colocou na sopa”, detalha o delegado.
Com um quadro de saúde mais grave, a menina foi levada ao PAI e, em seguida, transferida para o Hospital Estadual, onde permanecia até o final da tarde de ontem. Segundo o pai informou à reportagem, ela está consciente e passa bem.
A expectativa é de que a garota receba alta no domingo e, na próxima terça-feira, possa ser ouvida formalmente na CPJ, assim como o pai, que acompanha a criança na unidade hospitalar. A mulher foi presa em flagrante por tentativa de homicídio qualificado e encaminhada na noite de ontem à Cadeia Pública Feminina de Pirajuí.
Apesar de todas as evidências apontarem para o envenenamento, o resultado do exame toxicológico de mãe e filha só será divulgado nos próximos dias. De acordo com o delegado Paulo Calil, a mulher não aparentava ter problemas psiquiátricos e o fato de ela ter histórico de depressão não deverá contribuir para eventual redução de pena.
‘Ela tem distúrbio, mas é amorosa com as filhas’, comenta o marido
Pai da menina de 9 anos envenenada, o pedreiro de 59 anos revela ao JC que a esposa sempre foi uma mãe atenciosa, embora tivesse rompantes de agressividade em brigas do casal. Ele relata que a mulher sofria de depressão e tomava remédios controlados. Leia os principais trechos da entrevista, concedida por telefone, enquanto ele cuidava da filha, no hospital.
JC - Sua esposa já tinha agredido o senhor ou sua filha outras vezes?
Pai - A verdade é que a gente nunca espera passar por essa situação. Às vezes, ela tinha alguma alteração, mas era muito amorosa com as filhas (o casal tem também uma jovem de 23 anos). E bastante trabalhadora. Estou fora de órbita. Perdi o chão com o que aconteceu.
JC - Ela tem algum problema psiquiátrico?
Pai - Distúrbio ela tem. O mais forte é a depressão. Ela decaía por pouca coisa, perdia o controle muito fácil. Ela tomava calmantes fortes que o Caps receitou.
JC - Ela chegou a ameaçar você ou as filhas em algum momento?
Pai - Ameaçava mais a mim, mas sempre falou da boca para fora. Algumas vezes, em brigas, jogava copos em cima de mim, mas nunca me machucou e nem às crianças.
JC - E por que o senhor acha que ela tentou se matar e matar a filha?
Pai - Eu tenho dois filhos do primeiro casamento, que a minha esposa nunca aceitou muito bem. E um dos meus filhos estava trabalhando comigo em uma obra. Na segunda-feira, minha ex-mulher ligou para saber onde ele estava. Minha esposa perguntou com quem eu estava falando e eu contei. Ela ficou bem exaltada. Daí em diante, a situação ficou bem ruim.
JC - E o que aconteceu na quinta-feira?
Pai - O carro do meu serviço não funcionou e fui pegar o nosso carro no serviço dela, mas acabei não avisando. Quando cheguei em casa, ela já começou a brigar, lançar copo em mim. E acabou fazendo o que fez.
Suicidas matam filhos para não deixá-los sem mãe ou se vingar do marido
Um ato de extrema crueldade que se contrapõe ao sentimento materno, que deveria ser de proteção incondicional. Embora seja difícil compreender o que leva uma mulher a atentar contra a vida do próprio filho, o psicólogo Sandro Caramaschi, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, afirma que casos desta natureza são menos raros do que se imagina.
E, na maioria das vezes, quando a mulher tenta suicídio, o que as leva a estender a violência contra os filhos é o entendimento perturbado de que os deixaria em situação pior se eles ficassem sem a mãe. “Mas, em muitas ocasiões, elas não querem morrer ou matar de verdade. Querem chamar a atenção para si, assustar e punir o marido. Parece que foi isso que ocorreu neste episódio”, avalia.
Síndromes e distúrbios específicos podem estar na origem dos ataques de pais contra filhos, mas o psicólogo é cauteloso e defende que cada caso precisa ser analisado individualmente. “São inúmeras as patologias que fazem com que a pessoa fique agressiva, inclusive contra parentes próximos, tais como instabilidade de humor, depressão, bipolaridade, esquizofrenia, entre outros. Há, ainda, pessoas que não apresentam nenhum problema, mas que, num rompante, podem se matar ou matar alguém”, frisa.
Polícia Militar já teria ido à casa da família em ocorrência anterior
Vizinhos consultados pela reportagem na tarde de ontem relatam que a Polícia Militar já esteve na residência do casal por conta de um tumulto ocorrido há alguns anos, quando a filha deles tinha poucos anos de vida. Na ocasião, até o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi acionado.
“A gente não sabe ao certo o que aconteceu, porque ela não conversa com ninguém da rua. Mas parece que as brigas na casa eram frequentes”, relata uma vizinha, que preferiu não se identificar. De fato, os moradores pouco souberam dizer sobre a personalidade da mãe que tentou matar a própria filha.
Segundo eles, quando a mulher estava em casa, raramente saía na rua. “Nunca vi ela sair nem para comprar pão na esquina”, diz um vizinho, que viu o momento em que o casal discutia na garagem da casa, na noite de anteontem. “Ela disse, na frente da menina, que ia beber o sangue dele”, conta.
Ainda de acordo com o vizinho, a mulher apresentava oscilações de humor e não parecia ser uma pessoa normal. “Tinha dia que a gente passava na rua e ela cumprimentava, dava bom dia. No outro, era só olhar para ela, que estourava do nada: ‘que está olhando, nunca me viu?’. Já o marido era tranquilo, mas não sei como era a vida deles dentro de casa”, comenta.