João Rosan |
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Maringoni propõe a execução da dívida ativa do Estado de São Paulo, que é de R$ 190 bilhões |
Estado não é palavrão. Associá-lo exclusivamente à ineficiência e cabide de empregos é uma enganação, avalia o candidato do PSOL ao governo do Estado de São Paulo, Gilberto Maringoni, 56 anos. Representante da Frente de Esquerda também apoiada pelo PSTU, o bauruense esteve na cidade nesta semana, quando passou pelo espaço Café com Política do JC e participou de um debate sobre Israel e a Palestina promovido pelo colégio D’Incao, na Casa do Médico. O D’Incao informa que fará o mesmo convite aos demais candidatos ao governo do Estado.
Em entrevista, defendeu que o Estado retome seu papel planejador e indutor de desenvolvimento, atribuição enfraquecida após privatizações. Sem essa capacidade, o Brasil corre o risco de tornar-se uma fábrica de commodities.
Professor de instituição federal, faz coro com a comunidade acadêmica que cobra aumento no repasse de ICMS às universidades estaduais, atualmente em greve.
Maringoni - que estudou na Rodrigues de Abreu e Ernesto Monte quando ainda morava na rua Virgílio Malta, em Bauru - também defende a desmilitarização e a unificação da polícia, considerada por ele especialmente violenta em países pobres. A seguir, trechos da entrevista.
Quem é
O bauruense Gilberto Maringoni é professor de relações internacionais da Universidade Federal do ABC e doutor em história pela USP. É autor de doze livros. Foi editor da revista Desafios do Desenvolvimento, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e pesquisador do instituto.
É ativista político desde 1977. Atuou no movimento estudantil nos tempos finais da ditadura. Foi dirigente do PT ATÉ 2005. Desde então, é filiado ao PSOL. É casado e pai de três filhas. Outras informações no site www.maringoni50.com.br.
Jornal da Cidade - Quem é o eleitor da Frente de Esquerda?
Gilberto Maringoni - Quero sensibilizar um contingente de mais ou menos 25% a 30% do eleitorado, que as pesquisas indicam não quererem votar em ninguém. Querem votar branco e nulo. Perceberam que esse jogo político não adianta. Fica uma rotatória dos mesmos. As manifestações de junho do ano passado foram uma explosão que começou com aumento de R$ 0,20 na passagem. Extrapolou para um descontentamento com várias questões difusas: carência de serviços públicos, segurança, moradia, saúde, educação.
JC – São queixas generalizadas?
Maringoni - Esse descontentamento difuso mostrou que o sistema político não representa mais integralmente o descontentamento das pessoas. A política é feita para atender demandas e ela se tornou um muro para não atender essas demandas. Por quê? Porque nossa democracia é democracia de mercado. O que ganha uma eleição é grana. As pessoas estão percebendo, foram às ruas, estão fazendo greves.
JC – Mas graças aos ‘black blocs’ muita gente desistiu de ir às ruas. Por que o PSOL foi ligado a eles?
Maringoni – Os ‘black blocs’ prestaram um desserviço às manifestações. Há 40 anos diziam que a esquerda recebia ouro de Moscou. Depois que era terrorista. Depois, ligada com ‘black bloc’. A direita sempre arruma um pretexto. Como não quer resolver problema algum, não acha que as manifestações existam porque existem descontentamento na sociedade. Querem inventar um culpado. E a primeira violência é da Polícia Militar.
JC – O senhor é a favor da desmilitarização e da unificação da polícia?
Maringoni – Sou. Temos um problema de violência muito pesada no Brasil por parte da polícia. E não é só no Brasil. Conheço um pouco a América Latina e sei que, país com grande disparidade de renda, as polícias são muito violentas. Pega a polícia de Honduras, a peruana, colombiana, venezuelana. Tem que manter os pobres nas periferias, quietos e calmos, trabalhando. Evitar qualquer tipo de perturbação a um funcionamento da economia, do sistema. A polícia do Brasil, em geral, é muito violenta contra os pobres.
JC – Como o senhor enxerga a crise nas universidades públicas?
Maringoni - A crise na universidade é a crise em que o Estado perde capacidade de direcionar investimento para seus próprios equipamentos. Mas tem problemas internos que precisam ser investigados, que são de gestão. Estrangular as universidades significa estrangular a inteligência de São Paulo. Tem que aumentar a verba da universidade.
JC – Na sua opinião, a progressão continuada é um dos menores problemas da educação?
Maringoni - A progressão continuada foi feita com a melhor das intenções para tentar evitar um problema social sério que acontece nas escolas, especialmente nas camadas de baixa renda: o altíssimo grau de desistência dos alunos nas primeiras séries. O problema da educação é grana. Tem que aumentar.
JC – Qual o cerne da sua campanha?
Maringoni - É mudar a característica básica do Estado. Tivemos nos anos 90 um processo de privatização acelerado de empresas e bens públicos. Venderam as empresas de telefonia, as de eletricidade, as distribuidoras, venderam estradas. É por concessão, mas é privatização. Venderam as ferrovias. Tiraram do Estado a capacidade de fazer política financeira, porque não tem mais banco. Não tem mais capacidade de elaborar um plano estratégico na área de energia porque as empresas são todas estrangeiras. E não investem um tostão. É tudo dinheiro do BNDES, tudo dinheiro do Estado.
JC – O Brasil está sendo transformado em uma fábrica de...
Maringoni – De commodities. Qual é a lógica? Não preciso formar profissionais para pesquisar. Preciso formar gente para apertar botão. Por isso não tem investimento na universidade. Acaba sendo uma lógica que se completa. Não se investe em educação, mas também não precisa do profissional de ponta porque só temos subsidiárias de empresas. A indústria hoje responde por 13,5% do PIB. Nós estamos no mesmo patamar de 1955. O Brasil não pode continuar assim. O Estado precisa retomar sua capacidade de investimento.
JC - O Estado de São Paulo consegue fazer isso?
Maringoni - Não, mas tem voz ativa, tem peso. A indústria está aqui. Temos de retomar a capacidade de investimento, retomar investimentos na universidade, na educação. É essencial para esse dinamismo paulista continuar. Quero um projeto de desenvolvimento com distribuição de renda e justiça social. Estado não é palavrão.
JC – Mas ainda leva a pecha.
Maringoni - Nos anos 90, diziam que era ineficiente, cabide de emprego, era lerdo. Ainda tem essa enganação. O Estado é responsável pelo Brasil ser o que é. Deu certíssimo no século 20. Continuar achando que o mercado resolver, não vai resolver.
JC - De onde sai o dinheiro?
Maringoni - O Estado de São Paulo tem orçamento de R$ 184 bilhões e uma dívida ativa de R$ 190 bilhões. Essa dívida tem que ser executada. É o orçamento de um ano inteiro. Por que não é executada? Não sei. Precisamos investigar se grandes devedores não são empresas que contribuíram em campanhas. Outra coisa é que São Paulo tem uma dívida financeira com o governo federal de R$ 230 bilhões. Paga por ano R$ 14 bilhões de juros e amortização. Tem que baixar esse pagamento. Ninguém está propondo deixar de pagar fornecedor de pãozinho, da escola, de merenda, fornecedor do Estado. Mas precisa renegociar. Não é possível estrangular o Estado por conta disso.
