A última edição da revista inglesa Railway Strategies traz como uma de suas principais matérias o atingimento da meta estabelecida para o fechamento de 750 passagens ferroviárias em nível na Rede Ferroviária britânica. Este objetivo foi definido, em 2010, com o fechamento de 10% dos cruzamentos, o que contribuiria para uma redução de 25% do risco de acidentes. Neste período, a Rede investiu ?131 milhões (R$ 510 milhões) no programa nacional de melhoria das passagens em nível.
A Rede Ferroviária inglesa prometeu fechar mais 500 cruzamentos nos próximos cinco anos, investindo mais de ?100 milhões (R$ 390 milhões) durante este período, como parte de seu programa permanente para melhorar a segurança e reduzir os riscos para os passageiros e o público em geral.
O programa de segurança ferroviária do Reino Unido vai além das ações físicas de fechamento de passagens em nível, uma vez que não é possível fechar todas. Há ainda ações paralelas com a introdução de novas tecnologias, modernização de cruzamentos com a inclusão de sinais ou barreiras, além de trabalhar com as escolas, as comunidades e outras organizações para difundir a consciência sobre segurança.
A Rede reconhece que o êxito no fechamento de um cruzamento ferroviário em nível nem sempre é um processo simples. Por isso, é necessário o apoio das autoridades locais, proprietários de terras e do público para ajudar a alcançar o objetivo de melhorar a segurança. Há que se deixar claro que as passagens em nível inglesas estão entre as mais seguras da Europa. Para se ter uma ideia, em 2013, houve apenas dez mortes devido a acidentes em passagens em nível e dez colisões entre trens e veículos rodoviários.
Traçando-se um paralelo da visão inglesa com a realidade nacional, verifica-se uma contrastante realidade. No Brasil, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) é a responsável pela gestão das ferrovias e as estatísticas sobre acidentes em travessias ferroviárias são poucos divulgadas. Apesar da CNT-Confederação Nacional dos Transportes afirmar que houve uma redução de 81% no índice de acidentes ferroviários, em geral, de 1997 até 2011, nos cruzamentos ferroviários em nível, especificamente, a mídia produz farta matéria a respeito de acidentes em cidades brasileiras.
A CNT assegura que as passagens em nível, além de reduzir a velocidade operacional dos trens em áreas densamente povoadas, elevam o risco de ocorrência de acidentes. Análises e viabilidade mostraram que a solução deste problema é economicamente vantajosa, uma vez que os custos das intervenções para a eliminação das passagens em nível mais problemáticas somam R$ 7 bilhões, gerando benefícios socioeconômicos que podem chegar a mais de R$ 19 bilhões.
Em Bauru, a realidade não é diferente. A cidade é entrecortada pela ferrovia, que dispõe de diversos cruzamentos perigosos, dentre eles cita-se o da avenida Comendador Martha (zona sul) e o da rua Antônio Alves (Centro), colocando diariamente em risco a integridade física e, por que não dizer, a vida de milhares de bauruenses. As soluções aguardadas a partir de ações da ANTT parecem vir a passos de tartaruga. Resta-nos rezar para que as tragédias não nos atinjam até que elas cheguem.
O autor é engenheiro, especialista em segurança viária, doutor em engenharia de transportes, professor associado da UFSCar e diretor de Engenharia da Assenag