Cultura

Um outro lado da Rota

Wagner Teodoro
| Tempo de leitura: 5 min

O documentário “A Verdadeira História da Rota”, primeira parte de uma trilogia, é resultado de seis anos que o idealizador e diretor Elias Júnior passou no banco de trás de uma viatura das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) no dia a dia da corporação pelas ruas de São Paulo e em operações no interior. O filme retrata a rotina dos integrantes de uma das tropas de elite mais polêmicas do País, frequentemente criticada e alvo de entidades defensoras de direitos humanos, com imagens produzidas durante as ações policiais e depoimentos de veteranos e policiais da Rota, jornalistas e público. A produção tem 50 minutos de duração e será exibida hoje em duas sessões, às 10h30 e 11h30, no Cinépolis, no Boulevard Shopping Nações.

Elias Júnior afirma que a proposta foi sair com a temida tropa e acompanhar a rotina captando imagens em cima de situações reais. O filme, além de cenas de ocorrências e da ação dos policiais, traz depoimentos de 30 pessoas que acompanharam a história da Rota, fundada em 1970. “Procuramos um equilíbrio, relatar como a Rota foi criada, qual é o trabalho, como é a vida do policial, o que acontece quando um policial tem um confronto com um marginal e morre. Traz em riquezas de detalhes o dia a dia, sem nada a mais”, define o diretor.

Elias trabalhou com os policiais de três a cinco vezes por semana 12 horas por dia. No jargão da corporação, era o “estagiário”, ocupando o lugar do meio no banco traseiro entre os policias que ficam nas portas. “Eu chegava ao quartel junto com aqueles policiais e ia embora quando eles estavam indo”, observa. Nas ocorrências, passou por momentos muitas vezes dramáticos em ações ostensivas de enfrentamento de policias com criminosos e salvamentos de vítimas e fala de suas experiências. “Passei por situações que ninguém imagina. A Rota tem um ditado interno de que ‘sai para caçar’. Caçar no bom sentido, para buscar o bandido. Nas ocorrências que acompanhei, nenhum dos bandidos quis ser preso, quiseram tentar a sorte. E o bandido não tem preparo. Os policias estão equipados e treinam para repreender e se defender. O treinamento da Rota é o segredo do sucesso”, aponta.

A exibição terá presença do ex-secretário de Segurança Pública, Antônio Ferreira Pinto (2009-2012) e do ex-comandante da Rota, Paulo Adriano Lopes Telhada. O filme tem participação de Paolla Oliveira, Marco Mastronelli e Oscar Magrini. Ingressos para assistir ao documentário custam R$ 15,00. O Boulevard Shopping fica na Rua Marcondes Salgado, 11-39.


‘Acredito que a Rota é uma tropa injustiçada’, ressalta Elias Júnior

O diretor argumenta que o documentário desmitifica a imagem com a qual Rota muitas vezes é  retratada. “O que a população conhece da Rota é aquilo que imprensa leva, aquela imagem de que a Rota mata. Só que trabalhando ao longo destes anos eu pude ver que é uma imagem totalmente distorcida. Por que que nos livros que foram escritos sobre a Rota não tem ninguém da corporação entrevistado? E nem nos filmes? Por que a Rota foi tão estigmatizada? Eu tive oportunidade de acompanhar uma corporação onde não existe corrupção e não entram na Rota policiais com qualquer problema doméstico antecedente. O lema da Rota é dignidade acima de tudo”, destaca Elias.

Elias considera que a fama que a Rota ganhou é injusta e a realidade da força tática é muitas vezes desconhecida. “Eu acredito que a Rota é uma tropa muito injustiçada e o documentário mostra um lado que a população não conhece. Mostra que daquele lado tem um pai de família, um cara que ganha pouco, mas é contente com aquilo que faz. Que ele é ser humano, que perde um companheiro e pode morrer. A Rota só vai em ocorrências onde existe perigo de morte”, cita.

Para o diretor, não se percebe a mesma comoção e indignação quando policiais são mortos em ação. “A Rota nunca teve um representante dos direitos humanos no enterro de um policial. Tem uma cena forte no documentário, fato real, sobre um policial do administrativo da Rota que foi morto em seu dia de folga com três tiros de fuzil pelas costas. As pessoas vão ver como a realidade é triste. A mãe entregou seu filho para defender a sociedade e recebeu a bandeira dobrada”, ilustra.


Segunda parte do documentário abordará massacre do Carandiru

A segunda parte da trilogia de “A Verdadeira História da Rota” deve ser lançada no final de novembro, afirma o diretor Elias Júnior, e vai abordar um dos capítulos mais polêmicos da história da Polícia Militar de São Paulo: a intervenção policial na rebelião ocorrida na antiga Casa de Detenção, em outubro de 1992, que terminou com a morte de 400 detentos e a condenação de policiais.

“A segunda parte vai chocar muito mais, porque relata o que foi o episódio do Carandiru. Eu tive a oportunidade, fui convidado pela Defensoria, para acompanhar o julgamento. O documentário não vai relatar só a visão do policial, eu entrevistei peritos, juízes, desembargadores, presos. E toda a culpa ficou para a Rota. Eu entrevistei os policias que foram protagonistas deste episódio e foram condenados. São fatos novos”, frisa.

De acordo com o diretor, o documentário relata ainda liberdades poéticas do filme. “Policiais da tropa de choque ficam na cavalaria, por exemplo. E cavalo não sobe escada. Não tinha capacete, escudo balístico, bala de borracha... Muita coisa não foi relatada e os policiais acabam tornando-se vítimas”, considera.

Já a terceira parte do documentário deve mostrar a Rota de ontem e a de hoje.

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