Ciências

Para quê Universidades como a USP?

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 4 min

Reprodução/Internet

Nas crises, tudo parece invertido, mas soluções podem ser simples como esse teste retirado da internet

Desde o nascimento da universidade no mundo não se tem como sua essência ou missão o atendimento de pacientes, servir ao Sus e muito menos pesquisar. A universidade até faz isto, mas a sua essência deve ser a formação de indivíduos pensantes, analíticos e críticos com capacidade de decidir e sugerir novos caminhos para a sociedade.

Atender pacientes, fazer pesquisas e ensinar uma profissão são ferramentas que a universidade pode usar para formar um cidadão crítico e analítico, enfim pensante, criativo, inovador e ousado. Mas ao usar estas ferramentas para tal objetivo, as universidades não conseguem e nem foram concebidas para atender as demandas da sociedade como saúde e outros serviços.

As demandas da sociedade como saúde, educação e outras devem ser atendidas pelas prefeituras, governos estaduais e federal. Atender estas demandas não é missão da universidade: ela serve para formar cidadãos com capacidade crítica e analítica. Para fazer pesquisas, ora, se tem laboratórios, empresas e institutos. Para formar profissionais também se tem colégios, Senai, Senac e outras instituições. Para prestar serviços existem os hospitais, clubes, empresas e outras. Universidade foi criada e tem na sua essência a missão de formar cidadãos pensantes.

Na universidade estatal e privada devem existir divergências, correntes diferentes de pensamentos e liberdade de pensamento e expressão, sem pressão, chantagens, assédios morais, autoritarismo e ameaças! O argumento deve ser expresso com elegância e firmeza; a franqueza e determinação devem prevalecer e não o ganhar no grito e poder! O tratamento pessoal em certas reuniões que participo me lembra o programa do Chaves: palavreado e educação horríveis!

Nos EUA não existem universidades particulares, lá não se pode ter um dono! As universidades pertencem ao estado, cidade, fundações, comunidades, associações públicas, mas nunca se tem dono. Universidades com dono por lá não existem e na maioria, independentemente se estatais, municipais, fundacionais ou o que seja, os alunos pagam anuidades ou mensalidades. Elas devem e são plurais.

Na USP há décadas não se tem oposição, não se tem correntes de pensamentos divergentes na forma de ver a universidade e a própria sociedade. Não se vive grandes discussões e debates de ideias e linhas filosóficas. As preocupações são números, indicadores, construções, verbas, salários, carreira, novos campus, enfim coisas voltadas para a praticidade do dia a dia, para o próprio umbigo.

Não se discutiu nestas últimas décadas o tipo de cidadão formado, como se deseja ou como seria uma sociedade ideal em suas políticas: os grandes debates há muito tempo deixaram de existir entre os membros da universidade.  Discute-se posições pessoais, debates pequenos. Até acreditam, acreditem, que trazendo grandes personalidades para falar e ouvirem-nas por duas horas, estão estabelecendo grandes debates de ideias. As discussões, quando existiram, foram pobres nestes últimos longos anos: não se discutiu a sociedade e nem mesmo o papel da universidade, apenas as suas entranhas.

A filosofia, a sociologia e outras formas do pensamento humano secularmente acumuladas foram deixadas de lado. As grandes correntes do pensamento humano antigo e atual não foram sequer seguidas ou usadas como parâmetros: o pragmatismo do dia a dia e o querer levar vantagem ou se fazer à frente aos outros, prevaleceu sempre! Ditadores e aprendizes detestam este tipo de discussão.

Sem reflexões, questionamentos e transparência, deu no que deu: podemos perder hospitais, centros de convenções, prédios, rádio, televisão, jornais e outros patrimônios cujo dinheiro não foi investido visando apenas a missão principal da universidade. Daqui a pouco perderemos ginásios de esporte, raias olímpicas, museus, navios de pesquisas e campus avançado.

A grande USP está à míngua! Precisamos urgente repensar o seu ideário inicial e perguntar ao “nosso dono”, que é a sociedade, o que ela quer de nós. Que tal nesta crise, em vez de chamar a polícia, convocarmos todos, indistintamente, para este debate!


Observatório

Problemas - Podem ser oportunidades para se criar e mudar, pois nas crises surgem grandes ideias e simples que depois de viabilizadas se diz: como não pensamos nisto antes! Fixos em uma posição ou zona de conforto, não conseguimos encontrar soluções. Mudando a posição, colocando-se no lugar do outro ou mudando o contexto, encontramos solução para a crise, como a da USP.

Soluções - Para isto precisa-se escutar opiniões divergentes, aceitar o novo e abrir mão de privilégios! Dialogar e ouvir é mandatório em casos de crise e busca de soluções. No teste ao lado, se coloque na posição do motorista e tenha a visão dele da garagem e da numeração das vagas e não a sua! Mude a sua posição ou a do jornal, vire a página de ponta cabeça! Pronto: descobriu-se o número da vaga! Reflitamos.

Alberto Consolaro é?professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC.

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