Diante da menor confiança de empresários, do fraco ritmo do consumo, do crédito restrito e dos juros altos, os investimentos tiveram o maior tombo desde o primeiro trimestre de 2009, período em que o país vivia o pico da crise global iniciada em 2008.
A queda de 5,3% frente ao primeiro trimestre foi a segunda taxa negativa consecutiva. Sob impacto negativo da Copa, de freada do consumo e da retração dos investimentos, o PIB do país caiu 0,6% no segundo trimestre na comparação com os três primeiros meses deste ano.
O IBGE também revisou para baixo o desempenho do primeiro trimestre, para queda de 0,2%, indicando, segundo analistas - embora o termo não haja consenso sobre o termo -, que o Brasil entrou em recessão técnica.
Se para o PIB a recessão ainda é dúvida, o mesmo não se pode dizer para os investimentos.
Boa parte dessa queda se deve à forte retração de 2,9% na construção civil, a maior dentre os subsetores do PIB. Para Silvia Matos, da FGV, as famílias estão endividadas e com ganhos cada vez menores de renda, o que trava o mercado de lançamento imobiliários.
"Isso já até afeta o preço dos imóveis, que já começam a cair, após o 'boom' do setor até o ano passado."
Com o problema orçamentário do governo federal, que contingenciou recursos, e as incertezas de empresários, as obras de infraestrutura também não deslancharam como o previsto, diz Matos.
Na comparação com o segundo trimestre de 2013, a construção despencou 8,7%. Foi a maior queda desde o primeiro trimestre de 2002.
TRABALHO
Rebecca Palis, do IBGE, diz que outro ponto que já sinalizava a crise do setor é a redução do número de vagas, já apontada pela pesquisa mensal de emprego do instituto.
Também afetou o desempenho dos investimentos, diz Palis, a menor produção de máquinas e equipamentos destinados ao aumento da capacidade produtiva do país.
Na comparação com o segundo trimestre de 2013, o tombo dos investimentos na economia foi ainda mais intenso: 11,2%, maior retração desde o segundo trimestre de 2009.
No acumulado dos últimos quatro trimestres, esse item do PIB é o único a encolher (-0,7%). Até 2013, os investimentos mantinham tendência de expansão.
Com o agravamento da crise de confiança de empresários e consumidores (que investem, por exemplo, em reformas e compra de imóveis) --algo que tradicionalmente piora em anos de eleição--, o investimento sofreu mais neste ano. Também pesaram juros mais altos e inflação maior, que corrói salários e amplia o custo das empresas --ou seja, sobra menos dinheiro para investir.
Diante do fraco desempenho neste ano, a taxa de investimento despencou de 18,1% para 16,% entre o segundo trimestre de 2013 e o mesmo período.
Economistas estimam que o Brasil precisa de uma taxa (total dos investimentos realizados como proporção do PIB em valores) da ordem de 22% para sustentar um crescimento econômico entre 4% e 5% ao ano e ampliar a capacidade de produção e a infraestrutura --fatores que hoje restringem a expansão do PIB.
CONSUMO
O consumo das famílias, que nos últimos anos tem sido o ponto de sustentação do PIB, mostra fraco desempenho neste ano, com queda de 0,2% no primeiro trimestre e leve alta de 0,3% no segundo.
A discreta melhora se deve à inflação um pouco menor no segundo trimestre, o que aumentou marginalmente o poder de compra das pessoas.
Embora cresça num ritmo bem mais moderado, o consumo segue em alta em relação a 2013, com avanço de 1,2%, ainda mantido pelo mercado de trabalho --vetor da economia que não sentiu ainda de modo tão intenso o atual cenário de desaceleração econômica.
POUPANÇA
Com a menor renda disponível com a inflação maior e a alta menor dos salários, porém, as famílias pouparam menos. O mesmo ocorreu com as empresas e com o governo, que vive uma deterioração fiscal, com corte de recursos orçamentários.
Diante disso, a taxa de poupança da economia brasileira caiu de 16,1% no segundo trimestre de 2013 para 14,1% no mesmo período deste ano.
Um dos destinos principais da poupança é investir na compra da casa própria, na ampliação por parte das empresas de seus negócios e da infraestrutura.