Bairros

Hortas têm papel socioambiental

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 4 min

Na horta comunitária da Vila Industrial, “seu” Luiz Mathias, 83 anos, volta a ser menino. Desde abril deste ano, ele transformou um terreno do bairro. O mato alto, insetos, aranhas e até cobras deram lugar a vários tipos de verduras, legumes e frutas. O trabalho com a terra o tornou ativo novamente e o faz reviver o trabalho na lavoura do sítio onde passou a infância.

“Eu estava muito parado em casa. Muito sem fazer nada. O mato que crescia à vontade nesse espaço enchia minha casa de bichos. Até cobra aparecia. Da calçada da minha casa eu olhei bem para o terreno e decidi fazer uma horta. E faço tudo com muita alegria e carinho”, conta o morador da quadra 1 da rua Bernardino Pereira.

O espaço foi cedido pela Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (Semel) e “seu” Mathias conta com a ajuda de amigos como Edson Reis e Carlos Nagai para cuidar do espaço, que exibe caprichados pés de alface de vários tipos, abóbora, abobrinha, rúcula, milho, cana, pepino, mandioca, maracujá, manga, frutas cítricas e muitas outras delícias.

Na base da troca

Os frutos do trabalho do “horteiro” são divididos com a comunidade. “Fazemos trocas. Muitos trazem sementes e levam as verduras, por exemplo. É muito gostoso”, orgulha-se.  


Manejo verde

Um dos aprendizados de “seu” Mathias para enriquecer sua horta de maneira sustentável foi a adubação verde que, entre outras técnicas, ele pratica com os girassois plantados no espaço. As flores preparam o solo, deixando a terra mais “fofa” e fértil.


Sagra orienta sobre agricultura urbana

A Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento (Sagra) realiza palestras  e orienta interessados em desenvolver a agricultura urbana no município. Recentemente, o público-alvo foi o Programa da Terceira Idade, mantido pela Secretaria Municipal do Bem-Estar (Sebes).

Foram ministradas duas palestras: uma no Centro Social Urbano (CSU), no Jardim Bela Vista, e outra na Associação de Moradores do Jardim Independência e adjacências. A escolha do melhor local para implantação, o preparo do solo, o que plantar e as formas corretas de manejo foram alguns dos temas abordados.

De acordo com Guto Camargo, técnico agrícola e coordenador de Agricultura Urbana da Sagra, tais palestras contribuem para a socialização dos idosos, o desenvolvimento da autonomia, fortalecimento dos vínculos sociais, familiares e comunitários, além de propiciar uma alimentação saudável e geração de renda.

“Palestras assim chegam a ser emocionantes, pois a maioria deste público tem origem na roça. Eles voltam ao passado e lembram passagens com seus pais. Passam a entender o porquê disso ou daquilo”, comenta o técnico agrícola.

A autarquia também orienta e ajuda na implementação de hortas em escolas, instituições assistenciais, centros de recuperação, entre outras entidades, com objetivos educativos, terapêuticos ou mesmo para auxiliar na alimentação dos atendidos por essas fundações.

Além de orientação técnica, a Sagra ainda oferece equipamentos como trator, sementes, mudas e outros insumos, como adubo orgânico. 

Falta interesse da população

Bauru conta, hoje, com apenas quatro hortas comunitárias em pleno funcionamento: a do Núcleo Geisel, Jardim Jussara, Vila Industrial e Mary Dota, número pequeno que, para o coordenador de Agricultura Urbana, resulta da falta de vontade da população. “Nós oferecemos tudo. Até mesmo espaço para as hortas. Mas é difícil encontrar quem queira trabalhar com a terra e se responsabilizar por uma horta comunitária”, defende. 

Segundo a própria Sagra, a cidade possui áreas espalhadas por toda a cidade que poderiam ser utilizadas para agricultura urbana. Entre as regiões com potencial para o projeto destacam-se bairros como Pousada da Esperança, Vila São Paulo, Jardim Ouro Verde, Santa Cândida, Jardim Nicéia, Vila Industrial, Ferradura Mirim, entre muitos outros.

Segundo o secretário de Agricultura e Abastecimento, Chico Maia, “é fundamental o apoio público para a melhoria do meio ambiente urbano, otimizando o aproveitamento dos espaços ociosos”. O Programa Agricultura Urbana objetiva a geração de renda, alimentação saudável, atividades terapêuticas e pedagógicas.

  • Serviço 

  • Pessoas e entidades interessadas em participar do Programa de Hortas Comunitárias podem procurar a Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento (Sagra) na avenida Nuno de Assis, 14-60, Jardim Santana. Mais informações pelo telefone: (14) 3214-4255. 

    No Distrito de Tibiriçá, o atendimento é no Centro Rural, que fica na rua Carmelo Zamataro. Telefone: (14) 3279-1218.


    ‘Frutos filantrópicos’

    Outro fruto do programa são as doações de alimentos para entidades filantrópicas. Na última semana, por exemplo, a Legião da Boa Vontade (LBV), região Mary Dota, recebeu oito caixas de alface. A doação teve a iniciativa do “horteiro” João Batista da Cruz, aposentado que cuida da horta do bairro.

    “Em uma visita de rotina, foi verificado que o escoamento da produção não seria feito a tempo, uma vez que a alface é altamente perecível e acabaria estragando na roça. Foi então que nos lembramos da LBV, que fornece diariamente cerca de 100 refeições no almoço para seus alunos e frequentadores do local”, comenta o técnico Guto Camargo.

    Comentários

    Comentários