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Família incentivou a profissão

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

O barbeiro Armando Valério da Silva, 77 anos, é da época que a profissão passava de pai para filho. Aos 12 anos, ele começou a aprender a cortar cabelo e a fazer a barba dos tios. Ele conta que tinha três tios barbudos e que o pai pedia para ele barbeá-los. “Foi meu pai que me ensinou a preparar a barba para ela ficar macia antes do corte. O segredo é esse. Muitas pessoas chegam aqui e dizem que fazem a barba e fica ardendo. Quando faz aqui fica suave e não arde.”

Fazer a barba em casa não tem preparação, geralmente é um ato rápido, na opinião de Silva. “Quando a pessoa vem fazer a barba aqui, ela senta e eu deito a cadeira. Passo a espuma com delicadeza e bem devagar. No momento em que ela fica espessa é que está no ponto de corte. Fica molinha. Geralmente leva cinco minutos para ensaboar a barba e dois minutos para tirá-la suavemente.”

Atualmente, a barba é feita com uma navalhete, uma espécie de navalha que leva lâmina para o corte. “Navalha não se usa mais. Eu tenho uma meia dúzia de navalha boa, tenho a pedra e assentador. A navalha tinha que amolar toda semana. O assentador era de couro de anta. Depois de passá-la no assentador era necessário passar uma cera para que a navalha desse fio macio. A pasta vinha da Inglaterra e hoje não vem mais. Sem ela, a navalha fica áspera. Me ensinaram a passar chumbo no assentador, mas não resolve.”

Ele lembra com saudade do tempo em que a profissão era uma das mais conceituadas. “Mudou muito. Tem muito cabeleireiro, mas barbeiro está acabando. Os jovens não querem aprender a profissão. Aqui em Pederneiras temos quatro barbeiros e inúmeros cabeleireiros. Ninguém mais quer ser barbeiro. Acho que a profissão vai acabar. Cortar cabelo com máquina é mais fácil do que usar a tesoura e navalha.”

O barbeiro ressalta que há 40 anos o movimento no seu estabelecimento era grande. “Eu sustentei minha família, criei cinco filhos cortando cabelo e fazendo barba. Cheguei a cortar 50 cabelos num só dia. Começava a trabalhar às 7h e parava às 23h, num sábado. Meu salão é simples, atualmente os salões lavam a cabeça, dão bebidas para cativar os clientes. Aqui oferecemos o serviço e de boa qualidade.”  

Aposentado desde 1998, Silva não parou de trabalhar. “Eu pagava três salários e recebo um, vou ter que trabalhar até morrer. A esposa é aposentada com um salário também. Aqui encontro amigos também e isso é salutar.”


Toalha quente é o segredo de barbeiro para massagem facial

O barbeiro Armando Murari, 72 anos, trabalhou em São Paulo durante muito tempo, desde 1962. Quando aposentou, há quatro anos, resolveu morar em Pederneiras e, para não perder o costume, abriu um salão. Sua especialidade é a barba, para a qual ele usa toalhas quentes para amolecer os pelos. Na sequência vem uma massagem facial para relaxar ainda mais o cliente.

Figura diferente, o barbeiro tem boa conversa e não cansa de dizer que os barbeiros estão acabando. “Eu faço porque gosto. Aqui em Pederneiras está em falta. Tem muito cabeleireiro, mas barbeiro, são poucos. Eu sustentei família sendo barbeiro, hoje as coisas mudaram, a profissão não é mais valorizada”, lamenta.

Murari diz que tem método próprio para fazer barba. “Eu trouxe esse método para Pederneiras. O cliente senta na cadeira e eu a coloco na posição correta que é deitada. Passo uma loção no rosto dele e em seguida, uma toalha quente por dois minutos. Nesse período vou fazendo o creme que será aplicado na barba. Depois de aplicar o creme, faço a barba e aplico uma massagem facial. O cliente fica relaxado, tranquilo.”

Ele garante que se diverte trabalhando. “Atualmente corto só cabelo masculino. Trabalhei muito com corte feminino e escovas. Ganhei uma artrose por conta do secador, nos dois ombros. Não faço mais. Faço amigos. Enquanto eles cortam o cabelo ou fazem a barba, vamos conversando.”

Na opinião dele, a desvalorização do barbeiro se deve a evolução das lâminas de barbear. “Hoje, a pessoa faz a barba em casa. É lógico que não é a mesma coisa, mas muitos não têm tempo. O trabalho do barbeiro é mais do que simplesmente cortar a barba.”

Na mudança da Capital para o Interior, Murari diz que sentiu uma diferença enorme. “Em São Paulo, os salões juntam cabeleireiro, barbeiro, manicure em um mesmo espaço. No Interior isso não acontece. Por isso vou inovar. Quero juntar esses profissionais e oferecer mais ao cliente.”


‘Prefiro o barbeiro’

O balconista de farmácia Vitório Emílio Vidal, 63 anos, corta o cabelo em barbearia ‘desde quando tinha cabelo’, brinca. É fiel ao salão do seu Armando da Silva. Se tornou amigo do barbeiro e entre risos conta que como está quase careca - agora o preço do corte é pela metade. Antonio Osni Sperandeli só faz a barba com barbeiro, oportunidade em que apara o bigode. “Tenho esse ritual de duas vezes por semana fazer a barba no barbeiro. Não faço em casa porque me machuco e para aparar o bigode é preciso ser profissional.” 

 

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