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Brotam livros e escritores em Bauru

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 6 min

As páginas nunca estiveram tão cheias de histórias e versos no mercado editorial brasileiro como neste momento, fase que se repete em Bauru com o lançamento de mais de 110 publicações somente em 2013, algumas envolvendo grupos de autores em uma única obra, fato que confirma e também ajuda a compreender a proliferação de poetas e escritores de todas as matizes culturais e ideológicas por aqui.

O barateamento do custo de produção, a possibilidade de produzir edições apenas para o círculo familiar ou ligado ao estudo, de tiragem pequena, e a ampliação dos meios de divulgação do trabalho, como as mídias sociais, são alguns dos fatores que, segundo os especialistas e profissionais do segmento, explicam a multiplicação de obras e autores.      

O Brasil lançou 62.235 títulos e alcançou a comercialização de 467.835.900 exemplares somente em primeira edição no ano passado, o que resultou em um faturamento de R$ 5,3 bilhões, conforme pesquisa realizada do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel) e a Câmara Brasileira do Livro (Cbl). Excluídas as publicações de livros didáticos, vinculados ao setor público, o mercado editoral de livros atingiu 280 milhões de exemplares em 2013, conforme pesquisa realizada pela Câmara Brasileira de Livros (Cbl).

Em um segmento que permaneceu por anos dependente de grandes tiragens na onda dos ‘best-sellers’, o crescimento de 5% em 2013, em relação ao ano anterior, veio para solidificar a multiplicação de leitores e autores. Mas o nicho que mais cresce é o de autores independentes. O custo e a possibilidade de assinar uma obra, ainda que para circular apenas entre familiares e amigos, contagia e encoraja.

É o que conta o sócio-proprietário da Editora Canal 6 de Bauru. Carlos Fendel explica que a própria característica da editora, ratifica a multiplicação de obras. “Nosso trabalho é para tornar viável a publicação. É viabilizar a publicação. E isso está cada vez mais claro na cabeça das pessoas que escrevem de que é algo não só possível, como de baixo custo”, opina.

Ou seja, a questão é editar o livro, sem levar em conta as vendas. “Eu não vejo se o conteúdo vai vender ou não. O foco é viabilizar a obra. Por isso temos muitos autores independentes e cada mais gente batendo à porta para publicar 100 exemplares de uma obra de 200 páginas por exemplo”, explica Fendel.

Bruno Freitas

O livro tradicional, de papel, ainda é a preferência do brasileiro que lê periodicamente

É evidente que a tiragem tem relação direta com o custo. Mesmo assim, o custo médio de um livro não comercial pode ser de R$ 13,00. “Temos uma infinidade de autores com poesias, contos, crônicas, histórias pessoais ou familiares. São desde textos acadêmicos, para registro de um trabalho de final de curso, a histórias pessoais. Nós sentamos com o autor para avaliar a melhor alternativa para viabilizar a obra”. Além da pulverização em gêneros, o custo final acaba motivando autores independentes a contratar a editoração de um livro.


Universo acadêmico prioriza pesquisa

O livro de conteúdo ligado a pesquisa e difusão de conhecimento guarda semelhança com o segmento de obras familiares quanto a tiragem. O universo acadêmico fomenta o mercado de pequenas editoras para publicações de títulos de 200 exemplares, por exemplo.

Porém, os livros acadêmicos são em número inversamente proporcional às obras familiares. A triagem leva em conta características como evidências científicas, pesquisa e, portanto, conteúdo bem amarrado com a área de conhecimento. A chefe da Editora Edusc, Valéria Biondo, conta que, neste cenário, são aprovadas em torno de apenas oito publicações anuais. “Não é literatura comercial e também difere do segmento pessoal, porque envolve uma obra que está vinculada a um objeto de pesquisa. Nosso público é mais adulto”, observa.

Para Valéria, a leitura está solidificando hábitos no País. “São 90 milhões de leitores, entre aqueles que leram pelo menos um livro em um período de quatro meses. É um dado positivo, que demonstra que a leitura faz parte da rotina de cada vez mais pessoas. O mercado também pulverizou e o Brasil conta com aproximadamente 500 editoras, muitas fora do mercado comercial”, pontua.

Em razão dos fatores ciência e pesquisa serem os vetores da Edusc, Biondo reforça que as escolhas não costumam integrar o apelo de mercado. “Nem toda pesquisa tem apelo para o mercado. Hoje na Edusc nós incentivamos as obras produzidas pelo corpo docente da universidade (USC). O Conselho Editorial selecionada até oito publicações anuais, mas a editora também contrata um especialista daquela área de conhecimento para que emita parecer sobre a pertinência e conteúdo da obra. Todas as demais etapas de produção, diagramação e impressão são terceirizadas, por uma razão de custo para a Edusc”, acrescenta.

Mais editoras

O empresário Carlos Fendel acredita que o mercado atingiu tal patamar que o País hoje comporta mais editoras que pontos de venda. “O Brasil publica 3.000 novos títulos por mês e o número de editoras, em função do mercado de independentes, é maior que o número de pontos de venda. Isso se explica também pelo crescimento da venda por Internet e pela concentração de editoras comerciais especializadas em abrangência, escala, em detrimento às pequenas tiragens, onde o autor faz a venda diretamente em seu território”, aborda. Para o dono da editora Canal 6, os pontos físicos não vão fazer tanta diferença no tempo. “Esta mudança de comportamento no acesso e compra do livro está acontecendo aos poucos. Na divulgação, a Internet já funciona muito bem, em função das mídias sociais. E a tendência é a livraria ampliar seu leque de produtos. Há 10 anos, a livraria vendia basicamente livros, hoje vende também café, chocolate, pilha e muitos outros produtos, além do livro”, avalia Fendel.

Mas, se na divulgação o livro ganha espaço na Internet, para Fendel o fenômeno ainda é tímido na escolha do formato. “O livro eletrônico não tirou a força do livro de papel no Brasil. Pode ser questão cultural. E no caso das publicações pessoais ou familiares, o livro eletrônico nem entra, porque o autor quer distribuir fisicamente sua obra para os seus. No meio acadêmico o livro eletrônico é mias forte. O meio eletrônico também barateia o processo. Mas no público em geral o papel domina”, menciona.


Agentes literários

O jornalista e escritor Márcio ABC, que acaba de lançar sua quarta obra (“Na pele dos meninos”), sugere que os autores procurem relações com agentes. “O ideal é ter agentes literários. Sem isso é mais difícil para quem não é conhecido. Eu escrevo e envio minha produção para editoras, de acordo com o perfil e o conteúdo da obra”, sugere.

ABC dá outra dica para novos autores: “Também contrato um profissional para ler minha história e fazer uma análise crítica. Com isso tenho uma ideia do potencial da produção. Mas para publicar eu envio e aguardo retorno das editoras. Ver o perfil de cada editora é importante nessa triagem, para não perder tempo de enviar para gênero que não condiz com o que você escreveu”. O jornalista pontua que, como na música, não há mais autores que dominam o mercado. “Há segmento, mas autor que domina o mercado não”, finaliza.    

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