É preciso olhar as opções sexuais, além do lado biológico, entender o contexto histórico e social e se informar cada vez sobre sexualidade humana. Também é necessário conhecer respeitando as preferências e assumindo as responsabilidades de cada uma das escolhas, sem juízo de valor. Essa é a lição que se tira da aula inaugural dos “Cursos de Atualização em Sexualidade Humana”, evento que vai até novembro.
Os cursos estão sendo promovidos pela Clínica Integra – de Urologia e Saúde Integral e pela Fertility – Centro de Fertilização Assistida, com aulas semanais, aos sábados, e público-alvo de professores, profissionais e estudantes das áreas de saúde e educação
A ideia é contribuir para a “formação inicial e continuada dos diferentes profissionais que atuam ou pretendem atuar nessa área” lembrou o médico urologista, Aguinaldo Nardi, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Urologia e diretor da Integra.
Angelina Jolie
Com aulas previstas para todos os sábados até o dia 08 de novembro vão ser conhecidas as novas abordagens sobre sexo nas diversas idades e grupos, desde os agravos sexuais na adolescência e prevenção contra a violência sexual até o envelhecimento, e ainda o direito ao sexo na sociedade inclusiva, entre as pessoas com deficiências.
Uma das abordagens falará também sobre o câncer de mama, de próstata, os efeitos da doença e seus tratamentos na vida amorosa do casal até as controvérsias do momento como o tratamento radical a que se submeteu a atriz Angelina Jolie, com retirada total dos seios como forma de prevenção ao câncer de mama. Temas como vaginismo e próteses penianas, entre outras disfunções se xuais, também serão abordados. “Há a necessidade de estudar cada vez mais a sexualidade como um todo, não apenas nas vias reprodutivas, porque todas as doenças afetam de maneira específica a sexualidade”, destaca Aguinaldo Nardi.
Conhecer a história ajuda a entender sexualidade
Coube à historiadora Lourdes Conte Feitosa a aula inaugural da série dos cursos. Líder do grupo de pesquisa Gênero, sexualidade e sociedades, da Universidade do Sagrado Coração (USC), e com tese publicada internacionalmente, Lourdes lembra: “conhecer a história nos ajuda a entender as questões de gênero e sexualidade que permeiam os dias de hoje – em que não há mais só o masculino e feminino” Conhecer a história é fundamental para chegar a movimentos como os da Parada da Diversidade, como a que Bauru sedia pelo sétimo ano.
Lourdes destaca que não é mais a Biologia que define o homem e a mulher, porque as atividades sexuais são multifacetadas e existem, “além dos conhecidos gêneros masculino e feminino, diversas definições como bissexual, homossexual, heterossexual, transexual, intersexual, assexual dentre outros e evidencia que a partir de estudos profundos históricos, que a diversidade de comportamentos existia em sociedades do passado, mas a maneira de ver essas variações era completamente diferente”.
Pompeia e o sexo
Estudos sobre Pompeia – a segunda maior cidade do Império Romano, com um comércio vibrante e 10 mil moradores no seu age – e seus famosos grafites, mostram que não havia nada de pornográfico nem de perversão na representação dos atos sexuais. Grafitar era uma necessidade. Os muros e as paredes eram constantemente usados como forma de expressar sentimentos e vontades sexuais, da forma o mais natural possível. A imagem de coitos, órgãos sexuais, da figa como representação do ato sexual e até figuras na porta de entrada das casas estavam ligadas à virilidade, e o falo, um pênis ereto, nada mais era do que a representação da vida. “Afinal, o pênis ereto está pronto para ejacular, a ejaculação traz a vida, então, ele estava pronto para gerar a vida”, ressalta a pesquisadora. Assim, era natural que a valorização da vida passasse pela valorização das imagens do falo.
E não se pense que as relações eram uma bestialidade, orgias. Nada disso, haviam normas para as práticas sexuais, tanto que a relação de homem com homem, havia de respeitar a moral vigente, a hierarquia aristocrática, onde o aristocrata poderia ter relações com jovens, desde que estes fossem escravos ou libertos. “De maneira alguma isso colocava em questão a sua masculinidade, por isso não tem sentido falar em homossexualidade para aquele período”.
As relações entre homens eram tão naturais que o literato Suetônio escreveu a respeito do imperador Júlio César que este “era mulher de todo soldado e homem de toda mulher”. Segundo a estudiosa “também um aristocrático homossexual passivo era homem e poderia ocupar o mais alto cargo político. Isto porque, como soldado, simbolizava a virilidade revelada na força física, na coragem, na superioridade bélica, qualidades fundamentais da masculinidade romana. Isso é que os tornava homens e não a sua prática sexual”.
Pesquisa
Lourdes Conde Feitosa teve sua tese de Doutorado publicada na renomada editora acadêmica British Archaeological Reports (B.A.R), vinculada à Universidade de Oxford, na Inglaterra. A tese abordou o tema “The Archaeology of Gender, Love and Sexuality in Pompeii” (Arqueologia de Gênero, Amor e Sexualidade em Pompeia) e investigou as relações entre o feminino e o masculino por meio de manifestações de amor, angústias, disputas e felicitações que foram expressas nas inúmeras inscrições registradas por escravos libertos e livres pobres nas paredes da Pompeia romana, antiga cidade soterrada pela erupção do vulcão Vesúvio no ano de 79 d.C. e redescoberta no século 18.