Está no site do Tribunal de Justiça de Sergipe: "Há três tipos de selo de autenticidade, quais sejam, ?Reconhecimento de Firma?, ?Autenticação de Documentos? e ?Demais Atos?". E o complemento: "Uma vez entregue um lote de selos a determinada secretaria, sua numeração passa a identificar a secretaria para todos os efeitos. E assim faz-se o controle da autenticidade dos atos praticados".
Burocracias à parte, no caso das pessoas, é bem mais fácil identificar tal característica: autenticidade. O autêntico paga preço alto em sociedade hipócrita. Precisa ser rocha contra artilharia pesada.
Engraçado falar disso em tempos eleitorais. Até o dia do voto, não faltarão "santinhos autênticos" a narrar suas proezas comunitárias e incríveis projetos ? dos quais você nunca ouviu falar. Desculpem alguns dos bons políticos, mas preciso ser minimamente autêntico aqui.
Mas nem sempre um verdadeiro autêntico carregará fardos. Pra mim, nenhum dos adoráveis trapalhões foi mais autêntico do que o sargento Pincel. Nem Mussum. "Até minha família me chama de Pinça", disse o ator Roberto Guilherme, 76 anos, em 2011, ao jornal "Extra". Não é de mudar seu jeito. "Moro em Jacarepaguá desde os anos 60, com muito orgulho. E ando por lá de sandália, bermuda, camiseta e uma bolsinha do lado, tranquilão. Todo mundo é meu amigo, eu sou amigo de todo mundo. Acho a vida maravilhosa."
Já Roniquito, a lenda da boemia carioca, arrumou encrenca atrás de encrenca por causa da bendita autenticidade. Tá certo que tinha ali os aditivos da noite, mas Ronald Russel Wallace de Chevalier, morto em 1983, não era para qualquer um ? sóbrio ou não.
Autor da expressão "aspone", "passou à posteridade (ou a uns poucos fiéis que cultuam a sua memória) como um sujeito tímido, cultivado e bem-nascido que, animado por algumas doses, fez fama desafiando, com inteligência aguda e frases de efeito, talentos reconhecidos e autoridades de circunstância, desancando tudo e todos com fúria", escreveu Pedro Ivo Dubra para a "Ilustrada" da "Folha" em 2006.
No livro "Ela É Carioca", de Ruy Castro, está descrito que, certa vez, Roniquito entrou num bar e não viu um único conhecido. Da porta mesmo, bradou: "Esse lugar está cheio de ninguém!". Roniquito morreu atropelado. Entre o amado Pincel e o provocativo Roniquito, ficam lições de autenticidade em qualquer tempo.
O autor é editor executivo do JC