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Educação contra a barbárie

Gerson Vasconcelos Luz
| Tempo de leitura: 3 min

"Educação contra a barbárie" foi o tema de um debate de Theodor Adorno (1903-1969) com o educador Hellmut Becker (1913-1993) nos idos de 1968, na Rádio de Hessen de Frankfurt, Alemanha. Nesse debate, Adorno chama a atenção para um fato estarrecedor: enquanto a civilização apresenta seu mais elevado grau de desenvolvimento tecnológico, a grande massa humana vive à margem de tais avanços. É bom enfatizar que o filósofo não é contra a ciência, mas sim contra o que chamada de barbárie, a marginalização de certa parte da população. O processo tecnológico que deveria estar do lado da humanidade como um todo, sem excluir.

É interessante notar que a época em que viveu o pensador alemão foi marcada não só por grandes avanços tecnológicos, mas também por grandes tragédias humanas como a Primeira (1914-1918) e a Segunda (1939-1945) Guerra Mundial ? um dos maiores exemplos de barbárie, à ótica do autor, foram os campos de concentrações como Auschwitz que, como se sabe, exterminou milhões de pessoas. Em meio a isso, Adorno coloca uma pergunta no mínimo curiosa e provocante: "Como pode um mundo tão desenvolvido cientificamente apresentar tanta miséria?" Ora, refletimos, se a ciência não servir o homem, a quem servirá?

Na perspectiva do filósofo não há nada de errado com a ciência. O problema está ? ao que parece ? no fato de a ciência estar mais a serviço da classe dominante do que em benefício da classe dominada (as duas forças oponentes segundo o modo de produção capitalista). O que exige que se faça uma análise da problemática, recorrendo, de certo modo, à psicologia. Embasado na psicanálise freudiana, Adorno afirma que a formação do indivíduo ocorre durante a primeira infância. Neste período o progresso civilizatório provoca na criança certa pressão e um sentimento de claustrofobia. Como toda ação provoca uma reação, a criança busca, então, uma superação desses efeitos, e a violência acaba sendo uma das formas dessa superação. Violência no sentido de que a criança busca uma válvula de escape para a problemática. Em outras palavras, o fenômeno acontece por pressão da própria civilização. Assim, o indivíduo tende a fugir do processo civilizatório e emergir na barbárie. Portanto, se as pessoas se tornam violentas, desrespeitadoras de regras de conduta, desonestas, maldosas, grotesca, bárbaras, é por culpa do próprio mecanismo de formação do sujeito.

Diante disso, como mudar o quadro? Eis a questão inquietante. E a solução está na educação que, segundo o autor, tem como compromisso principal emancipar o homem; limpar a babárie de sua mente. Fazer com que, como um todo, nos beneficiemos do progresso da civilização e não o oposto disso. É preciso que haja uma educação voltada para a necessidade de emancipar o homem. E o caminho é se educar contra a barbárie, contra a violência gerada pelas próprias condições da civilização. Concluindo, o caminho para a "desbabarização" seria a educação durante a primeira infância e processos abrangentes de esclarecimento da sociedade, pois estes levariam à formação de barreiras concretas que prevenirão e impedirão a disseminação da barbárie.

O autor é professor de Filosofia da Rede Estadual de Educação Pública.

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