A criança, deitada na cama, pede à mamãe para contar-lhe uma história para ajudá-la a dormir. Pacientemente, a mãe começa como começam todas as histórias: - Era uma vez... uma moça muito caridosa. Ela, desde pequenina, como você, gostava muito de velhinhos e de pessoinhas doentes. Então, um dia, ela pensou assim: - Vou arranjar uma casa bem bonita, colocar lá dentro pessoas para me ajudar, que também gostam de idosos, que têm amor por eles. Depois de tudo pronto, vou começar a acolher todos os velhinhos e velhinhas que me procurarem, todas as pessoinhas mais idosas que estiverem doentes e precisarem de cuidados. A menina, na cama, prestava atenção: - Nossa, mamãe! Que coisa bonita! Ela gostava mesmo dessas pessoas, não? - Sim, respondeu a mãe. ? Gostava muito, tinha amor por elas, tratava-as bem e, claro!, se elas pudessem colaborar de alguma forma, ela, que não era rica, aceitava as contribuições.
E, assim, aquela turminha carente de cuidados ia levando a vida, não incomodando ninguém, fazendo passeios pela redondeza, vendo televisão, rezando, enfim, convivendo uns com os outros, o que é muito importante nessa fase da vida. ? É sim, mamãe! Já pensou se não tivessem toda essa atenção, como iria ser? ? Pois, então, minha menina! Mas, nem tudo são flores na vida. ? O que aconteceu? perguntou a criança assustada.
? Aconteceu que as casas ao lado da casa dos velhinhos não apreciaram muito a iniciativa da jovem dona desse sonho. - O que aconteceu? interrogou de novo a criança assustada. - Ninguém ajudou a pobre moça? Respondeu a mãe: ?Não. Ninguém ajudou. Tiveram de sair de lá assim, sabe?, meio às pressas, à procura de um lugar em que pudessem ficar sossegados para sempre. ? Mamãe, não estou acreditando no que você está me dizendo. ? Durma, filha, mas se lembre sempre de que todos nós desejamos ser amados e aqueles velhinhos e velhinhas só queriam isso. Mas Deus ajuda a quem tem bondade no coração. Então, a mocinha lutadora e corajosa conseguiu, com a ajuda do anjo da guarda, um lugar ainda mais bonito, maior, mais cheio de luz e levou seus doentinhos para lá onde iriam viver ainda mais felizes e amados e... De repente, a mãe olhou para criança, já com olhinhos fechados e com as faces molhadas, provavelmente de lágrimas roladas por solidariedade ou compaixão.
A mãe, então, intuiu que a filha havia compreendido a lição de que quem ama não se distingue de quem é amado. Que cada um é um só, mas junto nos transformamos naquilo que chamamos de nós. E a mãezinha, mentalmente, parafraseou um poema de García Lorca: Embora muitos saibam o caminho, jamais chegarão a Córdoba...
A autora é professora doutora aposentada da Unesp