As multidões são incontroláveis, em qualquer parte do mundo. Quando milhares se reúnem para assistir a uma disputa esportiva ou para ver a cara do suspeito de um crime bárbaro na porta da Delegacia de Polícia, o irracional conduz as emoções sem que um poder superior, ou liderança, possa contê-las. Impossível evitar que os torcedores chamem o técnico de "burro" ou falem mal da mãe do juiz. Dias atrás o goleiro Aranha, do Santos FC, reagiu aos insultos que vinham da torcida do Grêmio postada atrás do gol. As câmeras de televisão flagraram a moça que gritava "macaco", a plenos pulmões. Curioso é que muito dos circundantes eram negros, e riam da indignação do goleiro. É fácil entender que ali não havia uma reunião de racistas, mas sim de pessoas pouco civilizadas e incapazes de entender os esforços que são feitos para reatualizar a presença do negro na sociedade brasileira, e dos seus descendentes ainda marcados por três séculos de escravidão.
A jovem flagrada pelas câmeras gritando "macaco" desculpou-se justificando sua atitude como impulsionada pelo "calor do jogo" , com o seu time em desvantagem no placar. Apenas embarcou na onda da massa torcedora. Teria praticado uma injúria, tipificada no Código Penal como atribuir a alguém qualidade negativa que ofenda a honra, dignidade ou decoro. Diferente do racismo que já é uma doutrina política fundada no direito de uma raça (considerada pura ou superior) de dominar outras. O Grêmio foi eliminado da Copa do Brasil, mesmo com a diretoria ajudando na identificação dos torcedores implicados e suspendendo-os do quadro associativo. Valeu como uma punição pedagógica, pela Justiça Desportiva. Na Justiça comum ainda é possível discutir se uma pessoa jurídica, fictícia ou irreal é capaz de delinquir sem a atuação de um representante legal ou órgão colegiado. Ainda mais em se tratando de um crime contra a honra subjetiva, que é o conceito que cada um tem de si mesmo. O que permanece no inconsciente das pessoas é a banalidade do mal que habita grande parte das relações sociais no Brasil. Tudo parece ter começado na década de 1930, quando Gilberto Freyre publicou o clássico Casa Grande & Senzala, evidenciando, entre outras coisas, que os senhores escravistas eram bons, tratavam humanamente seus cativos. Deixavam se erotizar pelas negras e com elas compartilhavam a cama do andar superior. Segundo ele, uma contribuição importante para a trigueirice dominante no país. No Brasil a discriminação foi mais amena do que nos Estados Unidos, por exemplo. Contra esse viés romantizado o sociólogo Florestan Fernandes se insurgiu, comprovando que o sistema escravista que vigorou no país era tão cruel e desumano quanto qualquer outro. Ou seja, a democracia racial já foi desmistificada há mais de cinquenta anos. "Somos iguais", dizem hoje os meritocratas que reclamam do sistema de cotas para ingresso nas universidades públicas. Biologicamente, sim. Temos as mesmas capacidades e habilidades. Mas, socialmente somos desiguais. Os afrodescendentes são pobres porque não estudam e não estudam porque são pobres. Os cursinhos preparatórios são caros e não há como competir com um branco bem preparado porque os pais têm recursos para pagar boas escolas. Esse círculo vicioso precisa ser quebrado com a criação de maiores oportunidades para os inferiorizados na socioeconomia. A verdade é que temos uma "faixa de Gaza" social e étnica na nossa história transgeracional. Mais que um problema. É uma "problemática" que transcende ao dos grupinhos que se formam atrás do gol do adversário na tentativa de desequilibrar emocionalmente o guardião adversário.
Hanna Arendt, a filósofa alemã de origem judaica, escreveu uma obra sobre o julgamento do carrasco nazista Adolf Eichmann, preso na Argentina e julgado em Israel, condenado e enforcado. Hanna impressionou-se ao encontrar na figura do "monstro" um homem com características comuns que alegou o tempo todo em sua defesa, o cumprimento de ordens superiores. De jeito algum se sentia responsável pela morte de milhões de judeus nos campos de concentração. Poderíamos concluir com a autora que o mal sobrevive na banalidade do outro. A massa politicamente correta não discute com seriedade, nem o problema e nem a problemática: é treinada para virar para baixo os polegares.
O autor é jornalista é articulista do JC