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Uma história pouco conhecida

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

A BBC Brasil divulgou, de Berlim, no último dia 4, um comentário que o Ministério Federal de Educação e Pesquisa da Alemanha selecionou 11 países para tentar implementar os cursos profissionalizantes conhecidos ?como sistema dual?. Um deles é o Brasil, onde a Câmara Brasil Alemanha busca parceiros para lançar os primeiros cursos até outubro de 2015. Esse modelo alemão de ensino técnico - que chega a ser exportado para outros países, como os Estados Unidos - permite que o aluno passe um terço do tempo de curso na escola e dois terços na própria empresa.

Para quem não conhece a história do Senai essa notícia pode soar como uma novidade e oportunidade que o Brasil não pode desprezar, principalmente quando o comentário diz que a "Alemanha, o "motor econômico" da União Europeia - e quarto maior PIB do mundo - deve, segundo especialistas, boa parte da alta produtividade de sua indústria à formação qualificada de seus trabalhadores". Pode ser que algum candidato até queira se apropriar dela, considerando que a baixa produtividade é o que mais emperra o desenvolvimento econômico do Brasil. Para nós, que participamos ativamente do Senai por 30 anos, justamente na sua primeira fase de expansão do pós guerra, não há nada de novo e o próprio Senai já foi um exportador dessa metodologia.

O Senai foi criado em 1942, mas sua história começa 18 anos antes. Um engenheiro suíço, chamado Roberto Mange, que viera para o Brasil em 1913, para lecionar na Escola Politécnica de São Paulo, além do conhecimento de Mecânica Aplicada às Máquinas, que era a sua cadeira, era entusiasta da racionalização e da psicotécnica. Em visita à Alemanha tomou conhecimento do ensino profissional metódico, empregado na formação de operários para as ferrovias. Com permissão do governo do Estado, fundou no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo a Escola Profissional de Mecânica, em 1924, para aprendizes ferroviários. O resultado foi tão animador, que em 1930 a Estrada de Ferro Sorocabana criou a sua escola de aprendizes ferroviários, em Sorocaba. O exemplo foi seguido pelas outras ferrovias, inclusive pela E. F. Noroeste do Brasil, e em 1934 foi criado o Centro Ferroviário de Ensino e Seleção Profissional, como órgão coordenador. Quando, em 1939, o governo de Getúlio Vargas baixou um decreto exigindo que as empresas com mais de 500 empregados montassem cursos profissionalizantes, a CNI e a FIESP propuseram a criação de um sistema, custeado pela própria indústria, para atendimento independente de tamanho. E assim surgiu o Senai pelo Decreto-Lei nº 4.048, de 22/01/1942, incorporando o Centro Ferroviário.

O Senai começou com cursos de emergência, para atender as necessidades do período de guerra e com o término da guerra iniciou a sua expansão. A escola de Bauru foi criada em 1950 como uma escola de antecipação, para romper o círculo vicioso: ?não tem indústria porque não tem mão de obra e não tem mão de obra porque não tem indústria?. Seus cursos eram para aprendizes de torneiro mecânico, ajustador, eletricista e marceneiro, os mais necessários na época. Se lá na Alemanha, agora eles chamam de ?dual?, para nós aqui era ?sanduiche?: o aprendiz ficava o primeiro semestre na escola, o segundo na empresa, o terceiro na escola, o quarto na empresa, o quinto na escola e o sexto (final) na empresa, num total de 3 anos. Para nós, portanto, essa novidade já tem 72 anos.

Colômbia, Chile e outros países receberam ajuda do Senai, para a aplicação da metodologia baseada em séries metódicas de tarefas, fundamentadas com conhecimentos técnicos, tecnológicos e de formação geral. A indústria nacional chegou ao que é hoje graças ao Senai, que foi, passo a passo, acompanhando o desenvolvimento tecnológico e o crescimento do país. Dos cursos de aprendizes hoje chega ao universitário, passando pelo nível técnico e abrangendo uma gama enorme de ocupações.

O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru.

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