Geral

Rumos da educação: Bauru já tem até escola "nível 2021"

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 5 min

O currículo é o mesmo em toda a rede, mas a forma de aplicação é o que tem transformado a rotina de muitas escolas na cidade. Criado em 2007 com objetivo de medir a qualidade do aprendizado nacional, o Índice de Desenvolvimento Básico da Educação (Ideb) apresentou números expressivos em relação a Bauru nesta edição. Apesar de a cidade ter ficado aquém da média total estadual, que foi de 6.1, com índice nos anos iniciais do Ensino Fundamental (de 1ª a 4ª série ou de 1º ao 5º ano) de 5.6 nas escolas estaduais e 5.4 nas escolas municipais, 23 unidades se despontaram em meio às 46 avaliadas e conseguiram ficar na média ou acima de suas próprias metas para os próximos anos. Entre as que se destacaram estão a E.E. Torquato Minhoto, que, de 5.5 em 2007, conseguiu atingir 7.0, número projetado para 2021; e a Emef Thereza Tarzia -  Irma Rosamaria Tarzia, que, de 5.1 em 2005, foi para 6.5, índice que era projetado para 2019.

Vale frisar, no entanto, que, apesar do resultado positivo, outras 14 escolas tanto estaduais quanto municipais, também nos anos iniciais, registraram queda no Ideb deste ano.

A mesma realidade difícil foi registrada nos anos finais do Fundamental, em que as escolas estaduais tiveram média total de 4.4 e ficaram abaixo da média total do Ideb no Estado, que foi de 4.7. As municipais por sua vez, apesar de serem poucas neste segundo ciclo, conseguiram Ideb total de 4.8. (leia mais aqui).

Diferencial

As portas de madeira maciça e o velho espelho ainda são os mesmos desde sua inauguração, em 1945. Mas, muita coisa mudou na escola estadual Torquato Minhoto, localizada na Vila Lemos, região do bairro Bela Vista, que acolhe 790 alunos e 24 professores hoje.

A média acima do projetado parece ganhar sentido quando detalhes como a organização e o alinhamento dos livros da prateleira em sala de aula do 3º ano, por exemplo, são valorizados. “Aqui a organização, a valorização do ambiente e o comprometimento dos nossos professores são palavras-chave, sempre foram. Os alunos têm que gostar de estarem na escola e os professores também. Além disso, valorizamos a leitura, acima de tudo.

Diariamente, uma hora é dedicada a isso. Talvez seja esse o segredo”, comenta a diretora da unidade, Gilda Maria dos Santos. “Aqui, os pais buscam os filhos na porta e já aproveitam também para conversar com os professores”, completa a diretora.

Outro ponto que, segundo ela, tem se mostrado como diferencial da escola é o fato de a unidade investir na formação dos docentes através da figura do professor coordenador que repassa o conteúdo de capacitação aos colegas. 

Companheirismo

Na Emef Thereza Tarzia, inaugurada há 12 anos, no Núcleo Nobuji Nagasawa, a realidade é diferente. Dos 570 alunos, 200 são estudantes transportados de outros bairros e que possuem baixa renda per capita. “Metade dos nossos alunos são filhos de pessoas que trabalham no mercado informal, com reciclagem, por exemplo”, frisa a diretora Rosângela Redondo.

Assim como na primeira escola citada, a organização e o “clima de amizade” entre professores e alunos também chama a atenção na Emef.

“Acredito que o segredo está na nossa equipe, que, há mais de 5 anos, vestiu a camisa da escola. Lidamos com uma intensa diversidade socioeconômica aqui, mas conseguimos manter a equidade trabalhando com as diferenças. Aqui todos são amigos e até a agente de limpeza entende seu papel como agente educadora”, pontua Rosângela. “Todos os dias começamos as aulas com leituras e estimulamos os alunos maiores a lerem livros para os menores. Claro que o fato de a escola ser bem estruturada ajuda muito também ”, completa a diretora.

Ela, porém, não esconde que o índice acima também é resultado de uma “pitada” de cobrança aos professores. “O pessoal até brinca pela fama de sermos rígidos, mas aqui todos têm que planejar aula. E a coordenadora, quase que diariamente, entra na sala para ver as atividades sendo aplicadas”, revela Rosângela.


Em queda

Apesar do índice ter superado a meta em algumas escolas, a realidade ainda é diferente para outras unidades. Elas não alcançaram nem mesmo o índice projetado para este ano ou acabaram tendo nota até menor do que quando a avaliação foi aplicada pela primeira vez, em 2005, como é o caso da E.E. Major Fraga, no distrito de Tibiriçá, que teve 3.3., e da E.E. Iracema de Castro, na região do Bela Vista, que teve nota 4.4.

Já em relação às escolas municipais do 1º ao 5º ano, a pior queda ficou com as Emefs Maria Chaparro Costa, no Parque Santa Edwirges, que teve 4.8, e Professor José Romão, que teve 4.9, médias que demonstram certa estagnação desde 2007.


Gestores avaliam as médias positivas e negativas

Sobre o desempenho das unidades estaduais, a diretora regional do Ensino, Gina Sanchez, considera o índice obtido pelas unidades de 1º ao 5º ano positivos nesta edição do Ideb.

“Isso só é possível por conta do trabalho que vem sendo desenvolvido com o corpo docente, que é formado por muitos professores efetivos, em constante formação, e que conhecem a comunidade escolar. Outro detalhe, é que nessa faixa etária, os pais costumam acompanhar mais os filhos na escola também e, o fato do aluno ter um professor apenas, ajuda”, comenta Gina.

Em contrapartida, ela aponta uma característica presente em escolas que registraram queda nos índices, o fato de não serem escolas exclusivamente de anos iniciais. “Tudo infere de alguma foram no ambiente escolar”, resume Gina, considerando ainda o contexto social do bairro em que a unidade está inserida.

Secretária interina da Educação no município, Elisabete Pereira, atribuiu a boa nota das escolas no Ideb às ações projetadas pela pasta em parceria com as unidades. “Pelo que observamos, o contexto do bairro não influenciou de forma negativa. Tivemos escolas no Ferradura Mirim com excelente desempenho. O que tivemos foram apenas problemas pontuais, que acabaram interferindo”, diz Elisabete.

Entre esses problemas estariam, por exemplo, salas com número excessivo de alunos, falta de comprometimento da família com a escola e com os horários, abandono das aulas de reforço,  negligência de alguns pais quanto à indicação de tratamento de alunos com deficiência intelectual e física, notada pela escola.

“A secretaria tem investido fortemente na qualidade do ensino, na formação de professores e na valorização dos profissionais, que possuem agora um plano de carreira. E os conselhos escolares também têm funcionado. Isso ajuda muito”, afirma a secretária interina.

Comentários

Comentários