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O legado de junho e a negação da política

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 2 min

Como repórter setorista da Câmara Municipal, confesso a pontinha de prazer ao ter presenciado o desespero de parte dos vereadores de Bauru, quando, em junho do ano passado, foram trancados na sede do Legislativo por jovens manifestantes que clamavam pela redução da tarifa do transporte coletivo. Aquilo tudo era inacreditável!

Na redação do Jornal da Cidade, ficamos atônitos e com os olhos marejados ? os mais otimistas, cheios de esperança - ao assistir pela televisão a milhares de pessoas nas ruas de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e tantos outros lugares do País, reivindicando mudanças e mais direitos na nossa jovem República; quase tão jovem como nós, da anestesiada geração dos últimos 20 ou 30 anos.

(A anestesia? Deve ser herança de uma redemocratização que não puniu bárbaros criminosos, patrocinados pelo Estado durante duas décadas).

Nem sequer haviam cessado, percebemos que as manifestações de junho e julho não simbolizaram, como cogitou-se, o despertar do Gigante.

Não sabíamos o que queríamos? Talvez soubéssemos.

Erramos o caminho? Sem dúvida.

Os protestos do ano passado deixaram como legado a reafirmação de um devastador valor disseminado (propositalmente?) entre os brasileiros: a negação da política.

Não gostamos de política e, cada vez mais, fortalecemos políticos que também a renegam. Por aqui, reelegemos, com 82% dos votos, o jovem prefeito que a detesta.

Por aí, os partidos, agora, se chamam Rede ou até Solidariedade (!!!). Na "nova política", não há situação ou oposição. Como diz alguém que já considero o mais bacana dos "pensadores" da nossa geração, algo "neotucano pós-PT".

E não é que isso está pegando?

O desgosto em relação à política é justificável. Não precisamos repetir sobre os inúmeros escândalos, que recaem sobre quase a totalidade das siglas partidárias, mas falemos sobre o que temos no cenário: um governo eleito com a promessa de ser popular e que carrega a mancha de ter se distanciado das bases e massas trabalhadoras para se associar à casa grande; ou a retomada de um projeto neoliberal, que já fracassou no Brasil ? lembram-se do desemprego próximos dos 20% na década de 1990? ? e que afundou o "primeiro mundo" na última crise econômica global.

Não é fácil, mas já que está na moda parafrasear o finado Eduardo Campos: "Não vamos desistir da política".

Ela é o único meio pelo qual, nós, jovens, temos condições de reivindicar, efetivamente, aqueles direitos almejados em junho e julho do ano passado. A transformação vem por ela. Foi a despolitização, aliás, que aniquilou as tentativas de organização de alguns grupos dissidentes dos protestos populares.

É inadmissível que, pouco mais de um ano após tanta gente ter ido às ruas, vivamos o mais morno e menos politizado processo eleitoral dos últimos tempo, que, aliás, só chegou às nossas rodinhas do cotidiano em razão de uma tragédia de avião.

O autor tem 26 anos, é jornalista e repórter da editoria de Política do JC

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