Bairros

Casal de artesãos vive 'de brincadeira' em Bauru

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 9 min

Aceituno Jr

Domingos e Maria Antônia produzem peças educativas sustentáveis

Imagine sair do escritório fechado para trabalhar fabricando sonhos. É isso que muitos artesãos fazem ao criar brinquedos com as próprias mãos. Espalhados pelos quatro cantos de Bauru, os “profissionais da brincadeira” diversificam a oferta e, em muitos casos, o que nasce para complementar a renda da família acaba se transformando no sustento dela. 

 

Confeccionar e soltar ou empinar pipas era a diversão preferida de Alexander Souza na infância. A brincadeira foi crescendo com ele e se tornando profissão. Hoje, o comerciante tem duas lojas especializadas na fabricação, venda e distribuição de pipas em Bauru, uma no Mary Dota e outra na marginal da avenida Nações Norte, região do Jardim Godoy. 

 

“As pipas são um estilo de vida para mim e minha família. Tenho até várias tatuagens pelo corpo que remetem a elas. Já tive restaurante e atuei em outras profissões, mas deixei tudo para me dedicar às pipas. E deu muito certo. Cerca de 15 pessoas trabalham comigo atualmente”, enfatiza.   

 

Além das lojas físicas, Alex, como é conhecido, vende o brinquedo pela internet, de modo especial pelas redes sociais, para todo o Brasil. De acordo com ele,  tudo começou em São Paulo, onde o comerciante cresceu. Em Bauru, ele atua no ramo desde 2000 e começou fazendo as primeiras pipas nos fundos de casa, no bairro Mary Dota, onde vive. Há 10 anos ele montou a primeira loja e, há quatro, a segunda. 

 

A fabricação atinge duas mil unidades por dia, segundo Alex, e os preços variam de R$ 0,50 a R$ 10. São mais de 50 modelos que garantem o ganha pão da família de pipeiros. Entre os clientes estão as crianças como maioria, é claro. Mas os adultos representam uma parcela significativa.

 

“Empinar pipa é um hobby abraçado por muitos adultos. Hoje eu posso dizer com toda a certeza do mundo que ganho para fazer o que faria de graça”. 

 

Educativos e sustentáveis  

 

O que pode parecer apenas embalagem ou mesmo lixo para alguns, para outros é matéria-prima de criativos brinquedos que mais parecem obras de arte: a arte da reciclagem. 

 

Nas mãos do casal Maria Antônia do Amaral Ormeda e Domingos Ormeda, pedaços de madeira e caixotes descartados em feiras, quitandas, Ceasa/Ceagesp, caçambas e calçadas da cidade viram brinquedos criativos e educativos. O mesmo acontece com pedaços de borracha desprezados em borracharias, entre outros materiais descartados pela população. 

 

“Seu” Domingos risca e corta a madeira e a borracha e os transforma em brinquedos de rodinhas, patinhos e pica-paus para as crianças empurrarem. Alguns modelos até batem as asas e têm direito a pés idênticos aos das aves, feitos com a borracha reutilizada.   

 

Ainda há o ioiô cigano, feito com seis pedaços de madeira e que permite que crianças e adultos exercitem a criatividade ao tentar montar diversas formas geométricas. 

 

Já o rola-bola é outro brinquedo desenvolvido pelo casal para instigar a concentração e que se joga com bolinhas de gude. O “basquete” é outro jogo de concentração e que exercita a paciência da garotada. 

 

Além dos brinquedos educativos, o casal ainda cria diversos modelos de caminhões, trens e móveis. Tudo feito a partir de madeira “velha”. E tudo ganha vida e alegria com as pinturas de dona Maria Antônia. 

 

“Sou formada em artes industriais e professora aposentada. Quando me casei, meu marido ficou encantado com o meu trabalho e quis aprender. Foi um ótimo aluno. Hoje trabalhamos juntos. Somos uma equipe e usamos a criatividade para transformar o que era lixo em brinquedos”, conta a moradora da quadra 3 da rua Chimbo Attusi, no Núcleo Geisel, que aceita encomendas em casa e ainda vende os brinquedos nos encontros da Feira Ubá, Associação dos Artesãos de Bauru, Estação Arte e Praças Portugal e Anacleto.   

 

‘Criar é me divertir’

 

Quem também faz parte dos artesãos da Feira Ubá e trabalha com material reciclável é Clélia Andrade, moradora de Piratininga. Há 12 anos ela cria brinquedos e outros objetos com materiais como garrafas pet e tampinhas.  

 

Das tampinhas saem divertidos palhacinhos coloridos. De garrafas plásticas, cofres e carrinhos são produzidos com delicadeza e imaginação.

 

“Eu me divirto enquanto trabalho, sabe? Além disso, utilizo materiais baratos e ajudo na conservação do meio ambiente”, diz. 

 

Quando a ocupação vira profissão

 

Sílvia Helena da Silva vive de pelúcias. Ela e toda a família. O que começou como uma ocupação tornou-se profissão ao lado do marido José Carlos Marques Dias, e o casal já conta com a ajuda de nove pessoas para dar conta da produção das pelúcias que pode chegar a dez mil peças em meses com datas comemorativas. 

 

“Natal, Dia dos Namorados, Dia das Mães e Dia das Crianças são datas que aumentam a procura por pelúcias. Temos uma oficina em casa e contamos com a colaboração de costureiras que fazem o serviço em suas residências. Não imaginei que esse trabalho, que começou totalmente artesanal, cresceria assim”, lembra a moradora da quadra 1 da rua Luiz Bortini, Alto Paraíso. 

 

A história de Sílvia teve início há 10 anos na “cidade do bordado”, Ibitinga, onde vivia antes de se mudar para Bauru, há seis anos. 

 

Ela, que trabalhava em banco, deixou a profissão para cuidar do filho e optou por algo que pudesse ser feito em casa. Encontrou o que procurava nas pelúcias, que aprendeu sozinha a produzir. 

 

Com o crescimento da produção, as criações ganharam ramificação e alguns formatos utilitários, como as mochilas escolares com personagens para crianças de até 7 anos de idade. 

 

As peças são vendidas para Bauru e região e as vendas alcançam municípios até de outros Estados, como Paraná e Mato Grosso do Sul. O facebook  (Chinitta Pelúcias Bauru) é vitrine para o trabalho da artesã, que também aceita encomendas em casa. 

 

E o palhaço, o que é que ele é? 

 

Aleksander Rodrigues de Oliveira Soares vive de brincadeiras há mais de 20 anos, ou melhor, de palhaçadas. O Palhaço Faísca, como ele é realmente conhecido, é figurinha carimbada em diversos eventos de Bauru. O Viva Bauru e a Casinha do Papai Noel da Praça Portugal, por exemplo, estão entre eles. 

 

Faísca também anima festas de aniversário de crianças e adultos, faz shows e apresenta programas infantis na TV. Com ou sem maquiagem, seu negócio é fazer sorrir. “Sou o mesmo palhaço, vestido ou não como tal. É maravilhoso ser palhaço por ser uma figura símbolo da alegria”, comenta.  

 

E como nasce um palhaço? No caso de Aleksander, ele se encontrou na profissão aos 6 anos de idade.

 

“Eu queria saber como era um palhaço de verdade, sempre fui fascinado por eles e minha irmã me levou até o Charutinho, no circo Palco Livre, que me ensinou por uns dois anos. Ela me levava para todos os lados. Conheci o Bozo, o Atchim e Espirro... Mas, infelizmente, minha irmã morreu muito jovem. Na época, parei com tudo, fiquei desanimado. Mas voltei e lembro-me dela quando vejo o Faísca acontecendo”.

 

Já o Faísca nasceu quando Aleksander tinha 12 anos, época em que ele montou uma companhia de palhaços e se apresentou em um projeto que a Prefeitura Municipal de Bauru promovia pelos bairros de toda a cidade: o “Manhã de Lazer, Tarde de Lazer e o Lazer na Praça”. 

 

“Decidi montar um grupo, mas o difícil mesmo foi achar o nome. Para pensar sobre o assunto, eu e um amigo, Juliano, fomos andar pela linha do trem. Ele, pensando que teria de bolar o seu nome, decidiu por “Bolada”. Continuamos a andar, peguei uma pedra e a atirei nos trilhos. Foi quando saiu uma faísca e ‘nasci’ como palhaço”, recorda.

 

Sonhos em formato de minicarros 

 

Alguns sonhos infantis se tornam reais na vida adulta. Quando menino, Nelson Justino sonhava em ter carrinhos para brincar, mas as dificuldades financeiras da família não permitiam que ele tivesse um brinquedo comprado em loja. Porém, a tristeza do menino deu lugar à criatividade quando ele decidiu fazer os seus próprios carrinhos. E como ele mesmo diz, foi um mal que se tornou bem. 

 

“Eu tinha 8 anos de idade. Lembro-me bem. Meu pai não podia comprar os brinquedos. Aquilo despertou minha imaginação. Então, passei a observar os carrinhos dos outros meninos e a pegar uma latinha aqui, outro abjeto ali... e fui fazendo os carrinhos até chegar onde estou hoje”, narra. 

 

Automóveis de vários modelos, caminhões, trens e ônibus estão entre os principais brinquedos de madeira criados por Nelson. E ele tem os seus preferidos, claro: “Os modelos antigos são os que mais me encantam. Às vezes, quando deixo o carro prontinho, mal consigo acreditar que fui eu quem fez”, diz, emocionado. 

 

Nelson pega a madeira crua, molda, produz o objeto e pinta. Tudo na oficina construída nos fundos de casa por ele mesmo. Tem até máquina adaptada pelo próprio artesão, que chega a fazer 20 peças por mês, dependendo do modelo, e as vende nas exposições da Feira Ubá e em casa. 

 

“Sou pintor de automóvel aposentado. Graças a Deus, agora tenho mais tempo para me dedicar a esse trabalho que eu tanto gosto. O dinheiro ajuda nas despesas da casa, mas o trabalho é a gratificação”, finaliza o morador da quadra 6 da Alameda dos Crisântemos, no Parque Vista Alegre. 

 

Ela ‘dá vida’ a bonecas de todos os tamanhos

 

Com retalhos, agulhas, botões e até materiais recicláveis, Elisabete Iachel Silva faz mágica. E sua magia está na criação de bonecas. Muitas delas. Milhares ao longo dos anos. De diversos modelos, cores, formas e tamanhos, as bonecas de tecido, principalmente, ganham vida nas mãos da artesã, também conhecida como Bete Cigana. Em um período de 15 a 20 dias, até 100 bonecas podem “nascer” das criativas mãos de Bete. 

 

O ateliê montado nos fundos de casa é repleto de exemplares já prontos, começados ou de retalhos que se transformarão em brinquedos. “Minha felicidade está no brilho do olhar das crianças e adultos quando olham para o meu trabalho. No caso dos adultos, é possível notar a lembrança da infância e da família que os brinquedos despertam”. 

 

Segundo a artesã, a venda das bonecas é revertida para crianças carentes. Além de encomendas, as bonecas de Bete podem ser encontradas em feiras e exposições na cidade. Ao longo das décadas de criação, a artesã trabalhou em parceria com várias instituições da cidade, além de ter participado de diversos grupos e feiras de artesanato.     

 

A história da bonequeira começou quando ela tinha apenas 5 anos de idade e gostava de observar sua avó costurar. “Eu queria costurar também. Até que um dia, ela me deu uma pequena tesoura, que eu ainda guardo, e me disse: prove que você é costureira”, lembra.

 

Foi quando Bete olhou para o irmão, que era bebê e estava nu, pegou um pano e fez seu primeiro boneco inspirado no bebê. “Minha avó me incentivou. Fiz as roupinhas, ela me ajudou com o cabelo feito de tirinhas e comprou minha criação. Nunca mais parei de produzir essas fofuras”, relata a bonequeira, moradora da quadra 2 da rua João Cellechini, no Jardim Vitória.

 

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