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Uso excessivo de celular já altera o sono, alimentação e causa prejuízo

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 10 min

O prato de comida pode estar colorido à mesa e o estômago “roncando de fome”, mas ao menor sinal de uma mensagem, o garfo permanece em uma mão e, da outra, o dedo passa a tocar freneticamente sobre o teclado. O lençol pode estar cheiroso e o corpo relaxado ao colchão na iminência do cochilo, mas basta uma luz vinda da tela do aparelho que os reflexos fazem os olhos saltar sobre o telefone celular.

 

Frenesi, vício, mania, costume, o fato é que as novas tecnologias criaram legiões de usuários que não conseguem se desligar dos aparelhos enquanto se alimentam, estudam ou deitam para o necessário descanso. Mas, além da modificação de hábitos e rotina, os aplicativos de telefone celular criaram a necessidade de que cada um observe se a tecnologia escravizou ou apenas refez costumes. Além disso, é preciso verificar se a relação “íntima” com os aplicativos, sobretudo os de mensagens e jogos, não está prejudicando a produtividade no trabalho, a aprendizagem ou a qualidade do sono.

 

Para Denise de Cássia Moreira Zornoff, coordenadora do Núcleo de Educação a Distância e Tecnologias da Informação em Saúde da Faculdade de Medicina da Unesp-Botucatu, o uso dos aplicativos da telefonia celular está associado a riscos e ameaças inerentes a toda incorporação de novas tecnologias na vida cotidiana. 

 

“Os celulares são bonitos, práticos e úteis, mas, aliado à sua onipresença, estão associados a novos riscos e ameaças. Apesar disso, a chegada dos aparelhos telefônicos móveis inegavelmente nos trouxe muitas vantagens, incluindo as conveniências trazidas por sua portabilidade, mobilidade, menores custos de telefonia, associação com recursos inteligentes, entre outros”, contrapõe.

 

Antes de falar dos “problemas”, Denise prefere elencar a série de vantagens da máquina portátil. “Na área da saúde, o número de estudos científicos cresce ano a ano salientando seus benefícios na educação ao profissional e aos pacientes, para recordar datas de consultas ou a necessidade de ingestão de algum medicamento, e também como veículo para instalação de diversos aplicativos e sensores que podem ser usados em pesquisas e no diagnóstico e tratamento de diversas doenças”, elenca Denise.

 

No entanto, também é crescente o número de análises dos riscos diretos e indiretos causados pelo uso de telefones celulares e outros equipamentos eletrônicos com Internet móvel.

 

“Inicialmente, a principal área de atenção foi sua associação com o surgimento de tumores cerebrais e outras doenças secundárias à exposição à radiação de radiofrequência. Neste sentido, recomenda-se cautela no uso contínuo do equipamento, especialmente entre crianças e adolescentes”, adverte Zornoff.

 

A pesquisadora ressalta, por outro viés, que outras associações estão sendo estudadas em relação ao uso dos celulares, seja em razão da redução no preço dos aparelhos em compasso com a compra em massa, seja em seu poder de entretenimento e simbologia de status.

 

“Por conta disso, podemos ter a sensação de que, em alguns casos, o uso destes aparelhos parece estar sendo excessivo, ou inseguro, ou até mesmo abusivo”, pondera. 

 

Quando é perigoso? 

 

Para Denise Zornoff, a identificação de alerta sobre o uso abusivo, ou prejudicial, dos aparelhos e seus aplicativos leva em conta o equilíbrio. “Sim, o bom senso é o referencial para saber quando o uso desses recursos ultrapassou o limite de segurança e se há necessidade de procurar por ajuda psicológica ou psiquiátrica”, opina. 

 

Para crianças, a pesquisadora da Unesp-Botucatu sugere monitoramento pelos pais contra o uso excessivo até a adolescência. Intervenção que, segundo ela, tem de vir acompanhada de esclarecimento dos riscos com a promoção de controle.

 

Mas, no caso de jovens e adultos, o uso compulsivo pode ser um sinal de problemas de maior gravidade. Neste caso, Denise dá algumas recomendações. 

 

“Preste atenção às situações e emoções que fazem você usar seu telefone com frequência. É o tédio? Solidão? Ansiedade? Talvez outra coisa possa acalmá-lo. Seja forte quando o seu telefone toca ou vibra. Nem sempre você precisa ou pode responder. Na verdade, você pode evitar esta tentação desligando os sinais de alerta quando possível”, orienta.

 

Outra postura necessária é readaptar rotinas com o uso do aparelho. “Seja disciplinado em não usar o dispositivo em certas situações, como quando você está com crianças, dirigindo, ou em uma reunião. Ou em determinadas horas, por exemplo das 21h às 7h preservar o bom sono”, acrescenta. 

 

Mas, afinal, quando é a hora de procurar por ajuda especializada? “Sempre que o comportamento sem controle resultar em sofrimento ou risco importante ao usuário ou às pessoas ao seu redor”, sintetiza Denise.

 

Escola deve combinar uso com regras definidas

 

“A escola não deve ignorar o uso das novas tecnologias nos processos de ensino, de aprendizagem e de descoberta do conhecimento. A questão não é o aplicativo em si, a ferramenta tecnológica, mas a forma como isso está sendo usado, dentro e fora da escola. Há escolas que usam lousas digitais, tablets como cadernos, ou seja, se apropriam das tecnologias como suporte do projeto pedagógico e não como fim. Neste caso é interessante.” 

 

A posição é de Flávia Asbahr, doutora em psicologia escolar pela Universidade Estadual Paulista (Unesp-Bauru). De um lado, ela observa que as crianças precisam aprender a usar essas tecnologias e as escolas precisam falar disso. De outro lado, “o que não pode é esse uso virar vício e os pais ficarem passivos com os filhos com o celular até durante o banho, ou enquanto se alimenta. Cabe à família e à escola desenvolverem ações para educar para o uso das tecnologias.”

 

Assim, escolas e os pais precisam estabelecer disciplina e limites. “Tem de proibir o celular dentro da sala de aula ou durante as atividades, a não ser que seja para uma atividade específica, como tirar fotos. Mas tem de proibir o telefone celular na sala de aula. No Estado de São Paulo já há lei que proíbe o uso de celular na sala de aula”, observa Flávia.

 

O ponto de partida na família, adverte a doutora, é o comportamento dos pais: “Os pais também precisam se adequar, porque são modelos para seus filhos. Eu vou a restaurantes com minha família e vejo pai ou mãe comendo e teclando no celular na frente do filho. Essa criança vai reproduzir esse comportamento”.

 

Apesar dos inegáveis benefícios ligados às tecologias, a docente em psicologia pondera para a subtração do diálogo induzido pelo uso excessivo do aparelho. “Os prejuízos desses vícios não são só os decorrentes do uso inadequado dos aplicativos, dos aparelhos, mas de um modelo de educação e formação dos filhos que exclui o diálogo, o olho no olho na hora da refeição ou durante uma conversa”, reforça.

Empresas criam ‘comunicódromos’

É crescente entre empresas o estabelecimento de política de segurança de informação com regras específicas para o uso do telefone celular durante o expediente e igualmente comum a gestão de pessoal definir área específica para o acesso ao aparelho pelos colaboradores. Na prática, a conhecida restrição aos fumantes criou, em alguns ambientes, o cantinho dos aficcionados pela comunicação móvel através dos aplicativos. Mas o “comunicódromo” nos ambientes de trabalho vem precedido de horários específicos e tem virado postura empresarial quando, sobretudo, os riscos à segurança ou ao sistema de produção estão presentes.

 

Consultora e especialista em gestão de pessoal, Alexandra Fabri conta que os empresários estão atentos ao “fenômeno”. “Nos encontros com os empresários essa questão sempre surge: a preocupação em como estabelecer regras de uso sem gerar reação negativa entre os funcionários. A orientação essencial é que regras devem ser estabelecidas para vários processos de trabalho e produção, mas com equilíbrio”, diz.

 

Fabri posiciona que quando há risco, a regra é fundamental. “Nas atividades onde é perigoso o uso de qualquer outro elemento que interfira na concentração e no resultado do processo de trabalho, a proibição deve ser adotada até para preservar o trabalhador. Em indústrias, linhas de produção contínuas, trabalho com cozinha, posto de gasolina, esses casos são mais evidentes. É questão de segurança”, fala.  

 

A consultora se vale da comentada avaliação vinda das pesquisas em medicina de que o cérebro humano não consegue se concentrar em mais de uma ação ao mesmo tempo. “O cérebro não foi projetado para várias atividades ao mesmo tempo, o que gera stress cerebral e perda na qualidade do que está sendo realizado. Onde a concentração e o foco são essenciais, o celular não combina”, reforça.

 

Sem escravizar

 

Alexandra Fabri orienta a análise da postura de comunicação interna de acordo com o tipo de atividade. “A regra não pode nem silenciar o funcionário e nem gerar riscos. É evidente que, para quem usa o aparelho para enviar e receber comunicação o tempo todo, o uso é irrestrito. A regra depende do ramo e do tipo de atividade”, pondera.

 

Mas existem caminhos sendo seguidos. Em uma empresa com linha de montagem na área de móveis, por exemplo, os funcionários deixam os aparelhos em armários pessoais logo na entrada do expediente. Mas o acesso é permitido em intervalos e durante o horário de almoço.

 

A norma, porém, exigiu que o empregador também adotasse uma central para recados durante todo o expediente, para o recebimento e repasse imediato de casos que envolvam urgência. “Um profissional foi destacado para receber recados. Os pais que têm filhos ficariam preocupados sem qualquer possibilidade de comunicação durante a jornada.”

 

Controle dos ativos

 

O especialista em perícia e direito digital, advogado José Antonio Milagre, opina que a política de segurança de informação deve ser estabelecida juntamente com “termo de uso de ativos e dados”. Ou seja, a empresa deve treinar, orientar e deixar claro para sue colaborador o que pode e o que não pode em relação à informatização e tecnologias digitais ou complementares.

 

“O Judiciário já decidiu em terceira instância reconhecendo que a empresa pode exercer controle sobre seus ativos, inclusive monitorando o conteúdo do que seu funcionário utiliza nas ferramentas de informação. Até mesmo o controle sobre o uso social é aceito, já que o acesso com uso de link alheio à empresa pode prejudicar a banda dependendo do caso”, cita. 

 

Milagre lembra que o consumo de “ambientes ilegais, sobretudo ligados à pornografia e sexo, é muito comum e o uso indevido de informações pode gerar responsabilização à empresa, além do funcionário que fez uso disso, o que reforça a permissão para monitoramento e ferramentas de controle. E o controle de ativos da empresa inclui a internet”.

‘Eu não desgrudo do meu celular’

Kelli Pires, 26 anos, utiliza o aparelho celular e seus aplicativos o dia todo para realizar contatos pro fissionais. Para facilitar o cumprimento das obrigações, todos os meios são acessados. A questão é que, ao chegar em casa, ela não desgruda do aparelho.

 

“Eu uso o dia todo e tanto que a recarga da bateria sempre é necessária. Mas no trabalho o acesso é bem mais facilitado com os fornecedores. O problema é que quando estou em hora de almoço, na academia, ou até antes de dormir, eu também não deixo de utilizar”, conta.

 

Durante a entrevista, por sinal, os apitos sonoros de mensagens em Watsapp e outros aplicativos desviaram a atenção de Kelli várias vezes. Ela não consegue se conter. “Para dormir ele fica ao lado do travesseiro e ligado. Se apita durante o sono, eu acordo e depois volto a dormir”, conta. Ela admite que essa “mania” pode ter ligação com a sensação de “noite mal dormida”.

 

Para André Duarte, amigo de Kelli, ela precisa de ajuda, com o ingrediente adicional de que “é bastante ansiosa e isso a prejudica ainda mais”.

 

Sobre a forma dele usar, André conta: “Quando eu vi que estava começando a pirar, eu reverti a situação. Quando vou dormir, desligo o celular sem o menor problema. Quando estou com amigos, deixo o aparelho apitando e piscando, e penso que ‘ninguém vai morrer se eu não responder agora’. Tenho amigos viciados, e o pior é que não aceitam e isso virou paranoia”, reclama. 

 

Eloísa Andrade, 21 anos, considera que o uso irrestrito é mais comum entre jovens. “Eu acesso mesmo comendo e admito que comeria melhor se não usasse o aparelho. Já para dormir, eu vejo até o momento em que estou acordada. Depois não vejo mais, porque se eu acordar não vou conseguir mais dormir.”

 

Tanto Eloísa quanto Kelli confessam uma questão: ficam irritadas quando estão conversando com alguém e o interlocutor fica distraído com o celular. Mas ambas são “vítimas” e multiplicadoras do mesmo hábito.   

 

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