Foi a bordo do charmoso e premiado Ford modelo Roadster, de 1928, que Sérgio Antunes de Oliveira falou com a equipe da Entrevista da Semana sobre suas principais histórias, sonhos e feitos.
E por falar em sonhos, ter um carro para passear com sua mãe foi um dos primeiros. “E eu consegui, graças a Deus”. Hoje, o atual vice-presidente do Clube de Carros Antigos do Centro Oeste Paulista tem modelos de automóveis capazes de transportar ao passado e despertar sonhos. Seu galpão também abriga lambretas, que ele coleciona com um gosto especial: “Na década de 1960, eu fui um corredor de lambretas”, diz, com saudade e bom humor.
Mas as coleções de Sérgio não se restringem apenas aos veículos automotores. Ele tem “de tudo um pouco”. De tudo o que é antigo, como faz questão de dizer. São objetos históricos, que remetem ao início de algumas tecnologias, como a telefonia e os eletrodomésticos.
Nascido e criado na Vila Formosa, um dos bairros mais antigos de Bauru, ele também lembra da infância humilde, onde catava ossos e vidro para vender em ferros velhos, engraxava sapatos na rua e pegava esterco nos pastos para vender a donos de hortas e jardins. “Realizei todos os meus sonhos de menino, com trabalho e trabalho”.
Mas ainda há um desejo que o entrevistado de hoje projeta: montar um museu. “Mas, infelizmente, o poder público dificulta as coisas”. Leia, a seguir.
Jornal da Cidade - Quais foram os sabores da sua infância?
Sérgio Antunes de Oliveira - Eu nasci e cresci em um dos bairros mais antigos de Bauru, a Vila Formosa. Lá eu vivi até os 11 anos de idade. Em 1958, me mudei para o Jardim Monlevade, de onde nunca saí. Desde criança eu nunca me desfiz de nada que me desse prazer ou que simbolizasse uma imagem gostosa. Ainda tenho a minha primeira caneta de pau, para você ter uma ideia. Ganhei a tal caneta aos 7 anos, quando entrei na escola. Mas eu sonhava em ter carros. E, graças a Deus, eu consegui. Lembro-me da minha mãe dizendo que tinha muita vontade de ter um automóvel. E eu ficava sonhando em ter um para passear com ela. Tenho o Fusca que eu dei de presente para o meu pai.
JC - Quais foram os caminhos que o levaram até a realização desses sonhos de consumo?
Sérgio - Trabalho, trabalho e trabalho. Quando criança, eu catava ossos e vidro para vender em ferros velhos e ter um dinheirinho. Engraxava sapatos na rua, pegava esterco nos pastos e debulhava para vender para quem tinha hortas e jardins. Já aos 12 anos, eu consegui entrar para a Polícia Mirim.
JC - Foi quando as coisas melhoraram?
Sérgio - Sim. De lá, puseram-me para trabalhar em uma retífica de motores, onde fiquei durante 14 anos. De lá fui para as baterias Cral, e lá se foram mais 23 anos.
JC - Durante toda a vida, dois endereços e dois registros em carteira.
Sérgio - Isso (risos). Não é uma questão de criar raízes. Sobre o lado profissional, é uma questão de você gostar do emprego e do patrão gostar de você. Eu vi muitos funcionários entrarem e saírem dessas empresas. Para dar certo, cada um deve fazer a sua parte: o patrão deve pagar direitinho e, o empregado, fazer o seu trabalho corretamente. Estou aposentado desde 1997, mas parei de trabalhar há dois anos, apenas. Parei também para cuidar da minha sogra, que estava doente, e do meu pai, que faleceu recentemente. Também tenho uma irmã especial, que merece meus cuidados. Além de cuidar da família, eu tenho essa paixão como atividade: as coleções.
JC - O senhor é um dos fundadores do Clube de Carros Antigos do Centro Oeste Paulista, certo?
Sérgio - Sim. Atualmente sou o vice-presidente do clube. Participamos de muitas exposições por toda a região. Ganhamos muitos troféus por onde passamos. Meu carro mais premiado é o Ford modelo Roadster, de 1929, o primeiro automóvel da Ford com alavanca de câmbio. Chama a atenção por onde passa. Tenho nove carros antigos ao todo. Alguns eu comprei já prontos, outros, eu pago a restauração. Neste final de semana, por exemplo, estaremos na Feira da Bondade da Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae).
JC - Lambretas também são paixões? Vejo duas aqui no galpão...
Sérgio - São. E isso vem de longa data. No passado, entre 1968/1969, eu participava de corridas de lambreta pela região. Adorava aquilo. Este galpão é especial para mim porque, além de guardar meus “tesouros”, é onde recebo meus amigos para uma cerveja no final do dia. E a geladeira, claro, é das antigas (risos).
JC - Ainda há um sonho a ser realizado?
Sérgio - Tenho um, sim. Mas estou vendo muitas dificuldades em sua realização. Eu gostaria de montar um museu. Já tenho o meu galpão, onde guardo muitas coisas, mas eu tenho muitas outras relíquias. Perto da minha residência há uma casa de madeira que eu gostaria de transformar em um museu, inclusive para preservar a arquitetura que ela representa, os móveis... Mas, infelizmente, o poder público dificulta as coisas.
JC - Eternizar os momentos com a fotografia também é hobby?
Sérgio - Eu não fotografo muito bem, por sinal (risos). Mas sempre gostei de fotografar eventos e depois montar álbuns. Hoje, com as máquinas digitais, eu acabo fazendo as fotos e guardando as imagens em CDs que vão para o fundo das gavetas. Mas tenho uma imensidão de fotos do passado.
JC - Por que colecionar antiguidades?
Sérgio - Eu também me pergunto isso, sabia? Não sei dizer de onde veio esse meu gosto por colecionar o que é antigo. Só sei que é de coração. E não são apenas carros, tenho lápis, canetas, chaveiros, rádios, telefones, bicicletas, motocicletas, miniaturas diversas... Eu nunca jogo fora o que eu ganho. Guardo de coração. A maioria dos itens das minhas coleções veio de presente, menos os carros, claro (risos). Não sou chegado a coisas modernas, sabe, nem e-mail eu tenho (risos).
JC - Um momento de grande alegria.
Sérgio - Eu estou sempre esperando por momentos de grande alegria. E eles sempre acontecem, com as bênçãos de Deus. Você não sabe a hora, mas, de repente, acontecem. Vou ser vovô logo logo do meu primeiro neto. Tenho um monte de carrinhos que comprei antes de meus filhos nascerem. Eles nunca colocaram as mãos, os netos vão até quebrar (risos).
JC - Um momento triste.
Sérgio - A morte do meu pai, recentemente.