Cultura

Retorno em plena maioridade

Wagner Teodoro
| Tempo de leitura: 4 min

A banda Mercado de Peixe lança hoje “A Vida Passa”, single de seu novo projeto, “Água da Faca”, EP com composições inéditas e previsão de lançamento para novembro. “A Vida Passa” rompe um hiato de seis anos do Mercado de Peixe sem gravar e marca de vez o retorno da grupo à ativa, que vem sendo planejado desde o ano passado.

De acordo com a banda, “A Vida Passa” é um rock-frevo com letra do vocalista Juninho Madureira, que alerta para a impermanência, com “simplicidade que se aproxima da sofisticação e da sabedoria dos sambistas da velha guarda”. O single pode ser conferido no soundcloud da banda e no Youtube. Além de Juninho, o sexteto é formado por Emerson Gomes (percussão) Ricardo Polettini (guitarra, violão e flauta), Fabiano Alcântara (baixo), Paulo Pires (bateria) e Fernando TRZ (teclados e arranjos).

O EP “Água da Faca” traz, dentro das múltiplas influências que marcam o trabalho da banda em seus 18 anos de carreira, concepção inspirada na mitologia dos indígenas sul-americanos, especialmente nos chamados caminhos do Peabiru e na sonoridade da África Subsaariana.

“Desde a fundação do Mercado existe a preocupação com música étnica. Começamos com o Mangue Beat, com a mistura do tradicional e global, e resolveu expandir o recorte da pesquisa. Neste ano, ficamos muito interessados em música da África Subsaariana”, comenta Gomes. “É uma música calcada em sons ocidentais, a base é praticamente a mesma: guitarra, baixo, alguma percussão e muito coro e vocal. Começamos a desenvolver esta ideia que acabou no Água da Faca”, explica.

Influência

O trabalho foi gravado em julho durante quatro dias de estadia em um sítio em Piratininga. O percussionista destaca que a localização do “retiro” criativo do Mercado de Peixe, o Sítio São Lucas, às margens do ribeirão Água da Faca, é o início dos caminhos do Peabiru, que conectavam o Oceano Atlântico aos Andes, sendo o ponto de ligação entre o interior de São Paulo e as ruínas de Machu Picchu, a cidadela perdida dos incas, no Peru. “A ideia é fazer uma viagem onírica, lúdica, brincar com estes elementos”, define.

Do caldeirão entre África Subsaariana e roteiro incaica, sai o original som do “Água da Faca”, com a assinatura do Mercado de Peixe. “A ideia é pegar todas estas referências e tirar uma música própria. Estamos no interior de São Paulo e a gente tem a preocupação de começar daqui a olhar estas muitas referências. Os caminhos de Peabiru são uma brincadeira que dá lastro para as questões que a gente quer discutir, como a música atual, a questão da América Latina, do som da América Latina, como influencia e transforma”, aponta Gomes.

As sonoridades do novo projeto exploram desde referências da música brasileira, como frevo, samba e afoxé, até gêneros ligados às pistas de dança e ao rock cru, do bluegrass ao stoner. A temática das letras reflete sobre a passagem do tempo, o valor da amizade, a celebração da vida, entre outros temas, definem os integrantes do Mercado de Peixe. Também entram referências do gueto global, como a música cigana - balkan beats, etiojazz, afrobeat, sonoridades inspiradas nos tuaregs, povos nômades do norte da África.

O percussionista destaca que “Água da Faca” também questiona como as regionalidades sul-americanas estão colocadas e como se transformam e se trocam. “A ideia é tentar sair do interior de São Paulo, fazendo um recorte da América Latina, juntando com a África e questões indígenas, do samba”, resume Gomes.

  • Serviço

Lançamento do single “A Vida Passa”, da banda Mercado de Peixe, hoje. Onde: https://souncloud.com/avidapassa e https://www.youtube.com/watch?v=BcdGOekR_MA&feature=youtu.be


Histórico

A banda Mercado de Peixe surgiu em 1996, formada por estudantes da Unesp de Bauru. “Começamos tocando em festas e o trabalho foi ficando mais sério e comprometido com os convites que tivemos para fazer festivais universitários e para tocar em outras cidades do interior”, observa o percussionista Emerson Gomes. Em 1998, a banda lançou a demo “Eletrônico”. “Esta demo nos ajudou a ir para outros circuitos, a sair do meio universitário”, recorda. Na sequência, a banda produziu o álbum “A Saga Low Tech do Caipira Paulista”. “Logo após, lançamos o ‘Beats e Batuques’. Estes dois CDs são a base para o lançamento do ‘Roça Elétrica’, de 2004, que foi nosso trabalho que estourou no mercado e com o qual atingimos a grande mídia”, aponta Gomes. O trabalho seguinte da banda foi o álbum “Territórios Interioranos”, em 2008, que precede o lançamento de “Água da Faca”, em 2014. “Por incrível que pareça, desde 1996, todos os trabalhos são continuação da mesma história, como se fosse uma saga”, relata Gomes. A banda interrompeu as apresentações em 2009 para retomar seu processo criativo ano passado. Em 2013, um convite para se apresentar no Festival Fora do Eixo promoveu o reencontro com o público e reviveu a empolgação do sexteto para voltar a gravar.


Caligrafia

O percussionista Emerson Gomes salienta que o foco mais universal na temática do novo trabalho não trata-se de uma descaraterização da sonoridade do Mercado de Peixe. “Água da Faca” permanece fiel ao estilo que consagrou o grupo e tem assinatura da banda. “Estas músicas novas têm uma continuidade na linha que nós, há 18 anos, estamos fazendo. A diferença é que a gente abriu mais o foco. É como se fosse uma caligrafia. Sua caligrafia vai mudando com o passar do tempo, mas ela é sua. Tem identidade”, conclui.

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