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Publicidade decepcionante

J.F. Da Silva Lopes
| Tempo de leitura: 3 min

Trombei com a força da publicidade no meu primeiro emprego, quando lia para os ouvintes da Rádio Cultura Araraquara, com voz juvenil, que "Vinho Salton à mesa é sinal de nobreza porque Vinho Salton é bom", e desse impacto de admiração não me libertei. Já estudante, no velho bonde Circular Avenida, que me levava para as Arcadas do Largo de São Francisco diariamente, lia em inesquecível tabuleta "Veja, ilustre passageiro, o belo tipo faceiro que o senhor tem ao lado quase morreu de bronquite; salvou-o o Rum Creosotado". Essa fascinação já se consolidara um pouco antes (1956), depois que assisti ao drama do jovem e ambicioso publicitário "O Homem de Terno Cinzento", interpretado por Gregory Peck, e tornou-se definitiva depois que descobri que foi o imortal lençoence Origenes Lessa quem cunhou para a eternidade o sorvete "Kibon". E não tenho esquecido de comemorar o Dia do Farmacêutico, "defensor dos frascos e dos comprimidos". Admiração e culto antigos, portanto, admitido que publicidade é vital para quase tudo e essencial para os nossos mundos e sonhos porque "quem não é visto talvez não seja lembrado".

Feita ressalva histórica e também ressalvados todos aqueles que recusam submissão a lastimáveis paradigmas profissionais, torno pública minha decepção com parte do chamado "marketing político" pelo desserviço que presta aos valores democráticos, pelo esforço com que se tenta imbecilizar os eleitores e, até e principalmente, pela consciente ousadia escorada no denegrir para vencer que faz de candidatos que se oferecem para servir a causa pública e que merecem, indistintamente, respeito da nação rara e já extinta espécie de boneco de ventríloquo, com visual postiço e voz sem espontaneidade, repetidor de chavões cunhados a partir de pesquisas qualitativas. Atuação pouco democrática que desrespeita marcas de vida e ofende candidatos, além de irritante.

Explica-se a decepção. A publicidade eleitoral gratuita no rádio e na televisão com expropriação de tempo pela Justiça Eleitoral destina-se a esclarecer, orientar e qualificar o voto de cada eleitor a partir da exposição pública, idônea e confiável, de perfis e propostas daqueles que se registram como candidatos a investiduras eletivas. É, portanto, elemento essencial que persegue sublime valor democrático, qual seja o voto consciente de cada eleitor. Entretanto, programas eleitorais e inserções ajustadas dentro das programações parecem constituir antipublicidade desinformante e pouco orientadora, porque nada informa e muito deforma com relação às investiduras majoritárias, despolitizados quase todos os temas reais de campanha. Na mesma linha, candidatos, para as importantes investiduras proporcionais, aparecem como produtos de segunda linha, submetidos sem expectativa de sucesso à quase impossível tarefa de divulgação eficiente de seus respectivos perfis em poucos segundos. Atribui-se - e com razão - essa decepcionante distorção ao fator tempo, evidentemente mal distribuído pela lei, mas também deve-se atribuí-la ao tolerante conformismo de profissionais da área que se apartam da criatividade, pouco constroem e, até, ignoram a força de bom exemplo que, entre nós, marcou com sucesso a publicidade eleitoral em pouco mais de 5 (cinco) segundos: "Meu nome é Enéas!". Por isso, a publicidade eleitoral destes tempos não serve com fidelidade a causa democrática. Devemos torcer - e muito - para que os eleitores, apesar dela, tenham clarividência para escolher candidatos que contribuam decisivamente para superar a verdadeira causa de nossas angústias e decepções democráticas que não reside, exatamente, na publicidade eleitoral mas na falta de proteladíssima reforma política que precisa reocupar com rapidez nossas ruas. Até lá, publicitários persistirão na lambança e continuaremos mal esclarecidos e mais ou menos fritos.

O autor é advogado e articulista do JC.

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