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O jornalismo investigativo

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

A presidente Dilma Rousseff, estomagada com as denúncias de corrupção na Petrobras, destemperou ao afirmar que "não é função da imprensa fazer investigações, e sim divulgar informações". O papel de levantar a ponta do tapete para saber o que há por baixo estaria reservado à polícia, ao Ministério Público e ao Supremo Tribunal Federal. São eles é que sabem das coisas, e não a imprensa - segundo a candidata, em um dos seus pronunciamentos na residência oficial do governo.

Desde que a imprensa deixou de ser panfletária, a partir da segunda metade do século passado, ideologias e interesses de grupo foram abandonadas. Os órgãos de informação que não tomaram o caminho da defesa dos interesses da comunidade e do País, fecharam as portas há muito tempo. Jornalismo é essencialmente investigação. Tanto é que os manuais de Redação obrigam seus jornalistas a ouvir todos os envolvidos e checar as fontes de informação, antes de publicar. A liberdade de expressão é assegurada com formatação canônica pelas nações civilizadas. "Se você é a favor da liberdade de expressão, isso significa que você é a favor da liberdade de exprimir as opiniões que você despreza", dizia o linguista e ativista político Noam Chomsky. De fato, se o mecanismo devesse limitar-se ao que a maioria está disposta a ouvir, nem seria necessário inscrevê-lo como garantia fundamental na Constituição. A própria Dilma teve uma frase lapidar, tempos atrás: "Prefiro o barulho da democracia ao silêncio da ditadura". Deveria então ter acrescentado: "desde que não fira os meus interesses eleitorais". O "barulho" que mantém a população atenta à preservação dos valores democráticos é provocado pela circulação de informações. Só que de informações estamos cheios. Faltam explicações. O papel da imprensa é mostrar à população por que os fatos ocorrem e as suas consequências imediatas e futuras. Os consumidores de hoje querem "notícias no calor da hora", atualizadas constantemente. O exemplar que você está lendo continua na Internet, com atualizações nas 24 horas do dia. A clientela quer um ponto de vista, não apenas sobre o que aconteceu, mas também sobre as razões pelas quais aconteceu.

Evidentemente, não existem direitos absolutos. O jornalista também comete seus erros. Está chegando ao fim o tempo das notícias firmemente controladas por uns poucos editores, que decidem o que podemos ou devemos saber. Ninguém mais aceita essa "figura divina", que apresenta as notícias como quem revela o Evangelho. Foi o tempo de um só escrever para que todos leiam. A notícia não é uma coisa que se entrega de cima para baixo, mas algo que é compartilhado entre o produtor e o consumidor. Se afirmássemos a liberdade de imprensa como "absoluta", estaríamos negando todos os demais direitos. "Quem diria! Até a virtude tem necessidade de limites", advertiu Montesquieu em conhecida passagem do "Espírito das Leis". Exageros, bobagens e ofensas são preços que precisamos pagar para ter uma sociedade aberta.

Uma das perguntas que têm sido insistentemente feitas é se haveria mais corrupção hoje do que em outros períodos de nossa história, e em caso de resposta positiva, por que razão. A resposta comum tem sido que não há mais corrupção, haveria é mais investigação. Em vez de um mal, teríamos um bem. As repetidas operações da Polícia Federal e ações do Ministério Público desvendando novas roubalheiras mostrariam que o sistema está sendo eficaz na punição dos culpados. É uma resposta interessada em absolver o governo e as instituições. Pode ser consoladora para quem a oferece, mas não é satisfatória.

É verdade que mais investigação revela mais crimes, mas o que está acontecendo não tem paralelo na história republicana em seus momentos de liberdade de imprensa e funcionamento regular das instituições, como nos anos 1950 e 1960, até 1964. As investigações dos IPM?s (inquéritos policiais militares) ficaram só na "subversão", mais fácil de comprovar dada a própria elasticidade da palavra. Hoje, pelo contrário, uma imprensa livre revela diariamente evidências de comportamento inadequado, antiético ou criminoso de representantes dos três Poderes. Há aumento de quantidade e de qualidade na corrupção. Há mais gente, mais exemplos e maiores valores envolvidos. O próprio governo calculou em R$ 40 bilhões o rombo anual nos cofres públicos.

Pelo lado qualitativo, há mais sistema na roubalheira, a corrupção hoje funciona em redes, é mais organizada, mais profissional. Deu metástase. As ações criminais têm muito de espetáculo e pouco de condenações. A imprensa está fazendo sua parte. O eleitor bem informado pode também cumprir o seu papel, escolhendo melhor em quem vai votar.

O autor, é jornalista e articulista do JC

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