Arqueologia é uma ciência fascinante. Imagine, a partir dela, identificar objetos que pertenceram a povos do passado e, com base na análise minuciosa de vestígios materiais, obter informações sobre as culturas antigas, reconstituindo aspectos sociais e ambientais da vida dessas populações.
Pois foi o que aconteceu com a equipe do professor de Arqueologia da Universidade Hebraica em Jerusalém, Yosef Garfinkel. Diretor das escavações em Khirbet Qeyafa, em Israel, Yosef se deparou com uma cidade-fortaleza inteira, com seus muros, portais e centenas de artefatos que constituíam no passado, há 900 anos antes de Cristo, um grande palácio. Que se acredita ter pertencido ao bíblico Rei Davi.
Antes dos estudos do arqueólogo, ninguém tinha sequer conseguido confirmar que o Rei Davi existiu mesmo. Mas o palácio foi encontrado a menos de 30 km a sudeste de Jerusalém, no topo de uma colina que ladeia o verdejante Vale de Elah, onde a Bíblia diz que Davi derrotou o gigante Golias.
Yosef Garfinkel visitou o Brasil pela primeira vez e, além de Bauru, também iria proferir uma palestra na Universidade de São Paulo (USP), na capital. A Bauru ele chegou trazido pelas mãos do também arqueólogo Jorge Fabbro, que tem raízes na cidade. Fabbro é presidente da Associação Brasileira de Arqueologia do Mediterrâneo Oriental (Abamo).
Na cidade, Jorge Fabbro encontrou apoio nas lideranças da Igreja Adventista do Sétimo Dia que organizou palestra gratuita, realizada no sábado, 13 de setembro, no auditório do Centro de Ações Solidárias da Igreja, na avenida José Henrique Ferraz, no Jardim Terra Branca.
Indagado se conhecia algo da arqueologia brasileira e dos sítios arqueológicos da região de Marília, distantes a 100 km de Bauru, Yosef Garfinkel responde enfático: “Não, ainda”. Deixa clara a curiosidade que tem – de quem vai querer conhecer não só a arqueologia regional mas também a brasileira – e, que curiosidade é, sem dúvida, o fator propulsor do seu trabalho.
Para chegar ao famoso sítio das ruínas do Rei Davi, o professor contou com a ajuda de um aluno seu de doutorado, que indicou a existência, naquela região, de algumas ruínas diferenciadas. Foram juntos verificar e o resultado foi melhor do que o esperado.
Como se sabe na história da pesquisa bíblica, a arqueologia tem um papel determinante. E claro, as descobertas arqueológicas, das mais fortes no mundo, estão justamente nas terras da Bíblia, por assim dizer, abordando os principais sítios de Israel e da Jordânia. Região de origem do professor.
Mesmo lamentando que ao longo dos anos as pessoas foram destruindo evidências mais poderosas, “claro que não tinham a consciência que temos hoje e não sabiam a importância do que destruíam”, sobraram evidências suficientes para afirmar que Khirbet Qeyafa, pode ter sido a cidade bíblica Saarim.
Cartão por engano
Sobre a emoção de ter encontrado algo tão valioso o professor Yosef conta uma história curiosa. Ele não tinha certeza das evidências de que o palácio pertencia ao reino de Davi até que o farto material orgânico encontrado na área fosse analisado.
No afã de saber logo as respostas, ele mesmo enviou, às suas próprias custas, caroços de azeitona para que passassem pelos testes de carbono 14 para definir a autenticidade e a data dos objetos. O envio foi feito para a Universidade de Oxford, na Inglaterra. E não é que o professor acabou inadvertidamente mandando seu cartão de crédito junto?
“Então a maior emoção foi o nervoso que passei pelo cartão de crédito”, lembra ele divertindo-se agora com o episódio e minimizando as descobertas.
Sobre a associação
A Associação Brasileira de Arqueologia do Mediterrâneo Oriental (Abamo) estuda a história e as culturas do Antigo Levante, região do Mar Mediterrâneo. Essa região compreende hoje territórios da Turquia, Chipre, Líbano, Síria, Israel, Egito, Palestina, Jordânia e Iraque. A Abamo está presente em redes sociais.
Interrompido
O professor Yosef Garfinkel, neste momento, já iniciou novas pesquisas. Desta vez, em Laquis, considerada a segunda maior cidade da região. A antiga Laquis ocupava uma posição estratégica numa estrada principal que ficava entre Jerusalém (a maior e mais importante) e o Egito. As pesquisas arqueológicas revelam que houve um tempo em que a cidade abrangia uma população de sete mil pessoas. Professor Garfinkel no entanto, após passar seis semanas na região, teve que suspender os estudos, já que os profissionasi estavam correndo perigo por causa dos Gaza.
Sítio de Khirbet Qeiyafa
Nas descobertas do pesquisador, o sítio arqueológico Khirbet Qeiyafa, que alguns acreditam ser a bíblica Saarim, segue planejamento urbanístico, o que sugere administração central. Qeifaya pode ser identificada com cidade de Saarim que é menciona na Bíblia. I Samuel 17:48-52 “E os feridos dos filisteus caíram ao longo da estrada para Sha’arayim”, o relato descreve a perseguição do exército filisteu após a gloriosa vitória de Davi sobre Golias” porque tem diferenciações da cultura de Salomão. Foi uma cidade bem planejada, com suas fronteiras definidas e protegidas por um muro, com a existência de um edifício central”.
Guerra e custo alto
A descoberta (em 2008) foi matéria de capa da revista National Geographic e destaque do jornal New York Times. “As descobertas podem revolucionar as opiniões a respeito do tempo de Davi” avaliou o New York Times. Hoje fragmentos encontrados na região estão expostos nos mais famosos museus do mundo, como o Louvre, na França, e no Metropolitan, de Nova York. Com as disputas na região (está na zona de conflito no oriente médio), as pesquisas tiveram que ser paralisadas. Além disso, o custo dos estudos também é proibitivo. Outro entrave está também na questão religiosa. “Como os sítios estão localizados em área dos judeus, ao mesmo tempo em que há a curiosidade e valorização do governo judaico para a preservação e conhecimento da história e do passado, há uma lei de que não se podem escavar sepulturas. Assim, ossos humanos não são recolhidos”, conta o pesquisador. O detalhe é que na descoberta arqueológica de Khirbet Qeyafa não havia vestígio de cemitérios. O que comprova que uma tradição da época era fazer os sepultamentos fora dos muros da cidade.