Ciências

Armazenar células de Dente Decíduo?

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 4 min

Reprodução Internet

As células do dente decíduo em apoptose soltam-se em fragmentos

Para obter recursos financeiros, cientistas têm que convencer os pareceristas de que seus projetos de pesquisa merecem. Os pareceristas geralmente são professores das universidades, os mesmos que pedem o mesmo tipo de financiamento aos órgãos de governo e às empresas. A concorrência é grande e o número de amigos premiados também. Não chega a ser um “toma lá, dá cá” explícito igual ao do Congresso, mas é parecido e dissimulado.

Uma forma de pressão sobre os pareceristas, muito usada no mundo, é antecipar projetos, resultados preliminares de ensaios iniciais e divulgar possíveis aplicações e rendimentos para a mídia, criando “verdades e ou necessidades”.

Um exemplo desta pressão pela mídia são as células-tronco. As pessoas comuns acreditam que as células-tronco estão e podem ser usadas rotineiramente nos pacientes e que já representam uma terapêutica na medicina. Não existe em nenhum país qualquer protocolo terapêutico que possa ser aplicado em pacientes com qualquer tipo de células-tronco. Todos os resultados e supostos benefícios divulgados são experimentais ou ensaios autorizados, mas não como protocolo de tratamento.

Na prática, as células-tronco ainda representam uma esperança. Os riscos que os pacientes podem correr ainda precisam ser muito bem avaliados e, por isso, os protocolos não podem ser ainda estabelecidos. Entre estes riscos está a formação de tumores a partir das células-tronco implantadas no organismo. Apesar de todas restrições e limitações pessoas e empresas pagam e ganham dinheiro com a armazenagem de células-tronco de cordão umbilical, de medula óssea e ultimamente de células obtidas de dentes decíduos esfoliados que dão lugar aos permanentes.

Todas as empresas e bancos de células-tronco não oferecem uma garantia de uso e de viabilidade das células além de alguns poucos anos Um dos argumentos mais corretos que estas empresas usam para convencer as pessoas é a de que no futuro podem se descobrir uma grande utilidade para estas células-tronco, ou seja, explícita e licitamente oferecem uma esperança. No caso dos dentes de leite ou decíduos deve-se ter uma restrição maior quanto ao uso de suas células que saem aderidas em sua polpa, também conhecida como “nervo do dente”.

Morte fisiológica

Uma vez completamente formado o dente decíduo, as suas células liberam o funcionamento do gene p53 que comanda um tipo de morte fisiológica conhecida como apoptose. O organismo usa o mecanismo da apoptose para eliminar do corpo as células que já cumpriram uma determinada função ou que estejam defeituosas. As células de um dente decíduo, assim que ele completa a sua formação, vão gradativamente entrando em apoptose.  Usar as células do dente decíduo como fonte de células-tronco representam um contrassenso: elas não têm grande potencial para dar origem a novas populações de células, elas estão geneticamente entrando em morte com fragmentação estrutural. Os genes ativados nestas células não condizem com um potencial regenerativo necessário para que atuem como nova fonte de células jovens. Em algumas pesquisas os marcadores celulares revelam este baixo potencial como os trabalhos de Karla Pelegrino e Lygia Carramaschi.

Os dentes podem e são usados como fontes de células-tronco para ser estudadas desde que obtidas de dentes permanentes recentemente formados, ou ainda em formação, como os dentes do sizo ou terceiros molares e até de outros dentes permanentes que sejam extraídos, mas não de dentes decíduos. As pesquisas com células-tronco teciduais de origem de dentes decíduos devem avaliar muito bem os resultados, pois se forem positivos, deve-se explicá-los a partir de outros fundamentos e não de uma nova população celular advindas de células em uma fase senescente. 

Induzir os pais a armazenar células-tronco teciduais do cordão umbilical e ou da medula óssea de seus filhos na esperança de um dia utilizá-las eu até entendo, mas induzir a guardar ou usar as células velhas e em apoptose dos dentes decíduos como células-tronco fica muito difícil de compreender. A não ser que eu lance mão do pensamento freudiano para me conformar: o que move o mundo é sexo, dinheiro e o tilintar das palmas!


Observatório

Decíduo - Ou aquele que cai ou desce. Os decíduos também são conhecidos como dentes de leite ou temporários. Suas células revestem a raiz por dentro e por fora e são eliminadas pela apoptose para que a parte mineralizada exposta sejam reabsorvidas até que ficam com mobilidade e caiam.

Apoptose - A célula tem o tempo de vida programado geneticamente. Entre os nossos 25 mil genes, tem o p53 que, desrreprimido, faz a célula ficar como um maracujá na fruteira. Fica toda enrugada e começa a soltar pequenos pedaços em forma de pétalas ou folhas pequenas que é o significado da palavra apoptose em grego. É o mecanismo usado para eliminar células velhas ou alteradas para não se transformarem em câncer!


Alberto Consolaro é?professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC.

Comunique-se: consolaro@uol.com.br

 

Comentários

Comentários