Articulistas

O preço da anestesia

Nélson Itaberá Gonçalves
| Tempo de leitura: 3 min

Vivemos um perigoso período de abstinência, digamos, cidadã e civilizatória. E de quase tudo. Uma anestesia que pode adoecer os questionamentos, empobrecer as relações humanas e tornar a convivência coletiva uma terra cada vez mais dos umbigos.

Na política, o Congresso que fez muito pouco do que o País precisa parou para fazer campanha - consolidando o "modus operandi" que já se estabelecera. O Judiciário, além de lento, ficou mais corporativo, assim como o Ministério Público, com algumas exceções pessoais e não de forma institucional. Vivemos abstinência grave em governança. Os "líderes" não conseguem lacrimejar uma boa iniciativa que tire, ao menos, do marasmo a mesmice que corrói o poder público há anos, empobrecendo nossa jovem e frágil democracia.

Que me perdoem os mais jovens, mas também vou simbolizar neles esse efeito-onda de que nada sai do lugar ou se resolve na terra brasilis. Recordo da efervescência social das manifestações de rua de junho do ano passado, onde multidões deram um "suspiro" de rejeição à corrupção, à malandragem, à má qualidade dos serviços públicos e à falência das instituições brasileiras.

Mas a abstinência também fez com que, sociologicamente ou não, as manifestações de junho de 2013 não passassem daquilo que apelidei, à época, de "bolha de sabão". Ela salta aos olhos, se destaca no horizonte quando a sopramos, mas estoura ou se esvai rapidamente. E, o pior, não tem efeito algum a não ser a efêmera atração da bolha vagando.
Alguns dizem que o movimento deixou "legado". Mas estão rindo de nossa abstinência cidadã e social por aí, em Brasília e nas sedes de governo chamadas de palácios... Riem de nossa passividade nos pilares dos Bandeirantes, da Guanabara, das Cerejeiras... Tudo tal qual antes.

E nós mesmos, nas ruas, reforçamos esse sentimento com a falta de tolerência, de civilidade, de valores e com a exacerbação do individualismo, este presente do jeitinho ao "furar fila", do "não to nem aí" à recriação patética de nossos Tiriricas. O único palhaço que não ri nessa história, infelizmente, é o cidadão.

Mas a crise de civilidade e politização gera outras consequências. Em um canto disso tudo, há até uma dose de cinismo sendo distribuída por asseclas do poder de plantão. Sim, aspones que gozam, dão gargalhadas, de nossa abstinência.

E ai daquele que levantar um tom de voz de crítica. E aquele que escreveu ou falou algo mais contundente então. Esse é sempre o chato! Para os passivos, o remédio imediato é escurraçar. Como estamos todos correndo para ganhar o pão ou aumentar o número de moedas no bolso, os espertos de plantão no poder se aproveitam. O povo vai dizer que é tudo assim mesmo, são todos iguais. Opa! Assim fica ainda mais fácil continuar a algazarra.
Mas abstinência e passividade têm preço. O poder público é mais corrupto do que antes, a máquina pública é maior e mais ineficiente que antes e as obras públicas estão mais penduradas em "caixinhas" que outrora. Além disso, o aparelhamento do Estado acontece por todos os lados e em todas as siglas que fatiaram o poder de plantão, no Planalto, nos Bandeirantes ou nas Cerejeiras.

Culpa nossa. De todos!. Cada qual com sua parcela. Somos, em maioria cada qual em algum grau, mais individualistas que antes, menos patriotas que antes, mais ambiciosos que antes, menos cidadãos que antes e mais, bem mais, passivos que há um tempo.

O preço dessa abstinência cidadã, da anestesia social, da passividade, vai trazer a conta nas urnas agora em outubro. E, desculpem o pessimismo, não tenho nenhuma razão para achar que o resultado não será outro senão extremamente salgado para o País que será enfrentado pelos nossos filhos. Culpa nossa, da incapacidade de ser capaz de se indignar!

O autor é jornalista do Jornal da Cidade, da TV Câmara Bauru e compositor

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