Articulistas

O espelho

Gino Crês
| Tempo de leitura: 3 min

Guilherme não viu a senhora com o carro parado no acostamento. Chovia forte e já era noite, mas percebeu que ela precisava de ajuda... Assim parou seu carro e se aproximou. O carro cheirava a tinta, de tão novinho. A senhora pensou que pudesse ser um bandido.

Ele não parecia seguro, parecia pobre e faminto.

Guilherme percebeu que ela estava com muito medo e disse:

- Estou aqui para ajudar, madame, não se preocupe. Por que não espera no carro, onde está quentinho? A propósito, meu nome é Guilherme.

Era apenas um pneu furado, mas para uma senhora de idade avançada, era ruim o bastante. Guilherme abaixou-se, posicionou o macaco e levantou o carro. Logo ele estava trocando o pneu, mas ficou um tanto sujo e ainda feriu uma das mãos...

Enquanto apertava uma das porcas da roda, ela abriu a janela e começou a conversar com ele. Contou que era de São Paulo e só estava de passagem ali, e que não sabia agradecer pela preciosa ajuda. Guilherme apenas sorriu enquanto se erguia.

Então ela perguntou quanto devia. Já tinha imaginando as coisas terríveis que poderiam ter acontecido se Guilherme não tivesse parado e ajudado. Ele não pensava em dinheiro, gostava de ajudar as pessoas. Era o seu modo de viver. E respondeu:

- Se realmente quiser me pagar, da próxima vez que encontrar alguém que precise de ajuda, dê para aquela pessoa a ajuda de que ela precisa e lembre-se de mim...

Alguns quilômetros depois, a senhora entrou em um pequeno restaurante, muito simples. A garçonete veio até ela e trouxe-lhe uma toalha limpa para secar o cabelo e lhe dirigiu um sorriso.

A senhora notou que a garçonete estava com quase oito meses de gravidez, mas não deixava que a tensão e as dores mudassem sua atitude. Assim, ficou curiosa em saber como alguém que tinha tão pouco podia tratar tão bem uma pessoa estranha. E se lembrou de Guilherme. Depois que terminou a refeição, e enquanto a garçonete buscava troco, a senhora se retirou...

Quando a garçonete voltou, não sabia aonde a senhora poderia ter ido...

Foi quando notou algo escrito no guardanapo, sob o qual havia uma quantia de dois mil reais. Correram lágrimas em seus olhos quando leu:

- Você não me deve nada. Eu já tenho o bastante. Alguém me ajudou hoje e da mesma forma, estou ajudando você. Se realmente quiser me reembolsar por este dinheiro, não deixe este círculo de amor terminar em você. Ajude alguém.

Aquela noite, quando foi para casa, cansada, e deitou-se na cama, seu marido já estava dormindo e ela ficou pensando no dinheiro e nas palavras que a senhora escrevera. Como pôde aquela estranha saber o quanto ela e o marido precisavam disso? Com o bebê que estava para nascer no próximo mês, como estava difícil!

Ficou pensando na bênção que havia recebido e sorriu em silêncio. Agradeceu a Deus e virou-se para o marido que dormira preocupado, ali ao lado. Deu-lhe um beijo macio e sussurrou:

- Tudo ficará bem. Eu te amo... Guilherme!

Moral da história: A vida é assim: um espelho. Tudo que você, leitor, transmite, volta para você.

O autor é professor em Bauru

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