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Proposta quer abolir "ç", "ch" e "ss"

Marcus Libório
| Tempo de leitura: 5 min

Vose está preparado para novas mudansas na língua portugueza? Se realmente forem aprovadas, é ezatamente asim que teremos que escrever. A proposta radical tem a ideia de tornar a escrita mais próxima da fala e, para isso, há como sugestão abolir o “ç”, “ch” e “ss” da nossa ortografia.

 

As sugestões (veja no quadro da página ao lado) foram apresentadas em texto oficial neste mês no Simpósio Internacional Linguístico-Ortográfico da Língua Portuguesa, em Brasília, pelo membro do grupo criado pela Comissão de Educação (CE) do Senado, professor Ernani Pimentel. 

 

Fotos: Divulgação

Professor Ernani Pimentel é autor da nova proposta e responsável pelo site simplificandoaortografia.com

 

“É um gesto de coragem, em prol da lusofonia como fator de inclusão social dos nossos povos e expansão da influência internacional de nossos países. Trata-se do começo do verdadeiro salto qualitativo de nossa educação”, define Pimentel, que também é responsável pelo site simplificandoaortografia.com.

 

A polêmica repercutiu na mídia e muito se falou sobre a proposta estar inserida em um Projeto de Lei a ser votado no Senado, o que, por enquanto, não procede. A discussão será sobre a reforma ortográfica, que deveria entrar em vigor em 2012, mas foi prorrogada por quatro anos para que fosse feita uma adequação após críticas do que já havia sido firmado pela Academia Brasileira de Letras (ABL). 

 

Na época, a presidente Dilma Rousseff (PT) emitiu um decreto para formalizar o adiamento - o último acordo ortográfico proposto foi discutido na década de 1970, assinado em 1990 e aplicado a partir de 2008. 

 

Foi então que o senador Cyro Miranda (PSDB-GO), presidente da Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado, criou um Grupo de Trabalho com os professores Ernani Pimentel e Pasquale Cipro Neto, propondo uma simplificação do sistema ortográfico brasileiro.

 

O objetivo, segundo declarou Miranda, é justamente criar um acordo (texto único) a ser votado e aprovado por todos os países que falam a língua portuguesa. “A unificação em questão terá que ser feita em comum entendimento com os demais países. Portanto, não há nada que senadores, a Comissão de Educação e até mesmo o Brasil possam fazer unilateralmente”, disse o senador, por assessoria de comunicação. 

 

Ao unificar as bases da ortografia desses países, o acordo visava fortalecer o português nos organismos internacionais, facilitar o intercâmbio cultural e a circulação de obras científicas e literárias, eliminando os custos de sua reedição.

 

Vale lembrar que, em 2009, o acordo ortográfico entrou em vigor no Brasil e em Portugal, com um período de transição de três e seis anos, respectivamente. 

 

Pontos negativos

 

Membro do Grupo de Trabalho da Comissão de Educação (CE), Ernani Pimentel cita o acordo de 1990 (AO90) como passo diplomático importante de aproximação das populações. Porém, enxerga pontos negativos ao citar uma lista com 75 palavras com “H” inicial, 72 com “g/j”, 1.754 com “c”, “ç”, “s”, “sc”, “ss”, “x”, “xc”,“z”, “ch”, e 88 com “x”, “cc” e“cç”.

 

“Para saber usá-los (letras e dígrafos), o redator deverá sempre consultar uma lista de quase duas mil palavras (exatamente 1.989). Significa, portanto, que cada aluno ou cidadão de Angola, Brasil, Cabo Verde, Moçambique, Portugal, e outros locais do mundo onde se fala português, para escrever uma palavra em nossa língua, precisa adquirir um dicionário ou um vocabulário ortográfico”, resume, defendendo a proposta de tornar a escrita mais próxima da fala. 

 

Em texto publicado no Observatório da Imprensa, professor Pasquale Cipro Neto (também membro do Grupo de Trabalho da Comissão de Educação) se mostrou a favor da reforma ortográfica como meio de simplificação do sistema ortográfico brasileiro, mas não entrou no mérito das propostas de Pimentel.

 

“No meu depoimento na Comissão de Educação, deixei clara a minha posição: é preciso reformar a reforma, limpar o texto de suas incoerências e arbitrariedades, dar rumo inconteste a certos casos e deixar tudo isso claro num texto só, sem emendas, adendos, notas explicativas, entre outros”, declarou ao órgão da mídia. 

 

Pasquale acrescentou também que “qualquer cidadão poderá apresentar propostas” e que os trabalhos de reforma ortográfica “devem começar ainda neste mês ou em outubro”. As audiências (públicas) devem ser transmitidas pela TV Senado. 

 

Acordo de 2008

 

O último acordo acabou com o trema, alterou 0,5% das palavras utilizadas no Brasil (1,6% da grafia usada em Portugal) e incorporou as letras “k”, “w” e “y” ao alfabeto. O acento agudo desapareceu nos ditongos abertos “ei” e “oi”, em palavras como ideia e jiboia, e nas palavras paroxítonas com “i” e “u” tônicos, quando precedidos de ditongo em palavras como feiura. 

 

O acento circunflexo deixou de ser usado em palavras com duplo “o”, como enjoo, e na conjugação verbal com duplo “e”, como veem e leem. O temido hífen desapareceu em palavras em que o segundo elemento comece com “r” e “s”, como antirrábico e antissemita. O hífen foi mantido quando o prefixo termina em “r”, como inter-racial.

 

‘É querer mascarar a nossa realidade’

 

Dos especialistas e moradores de Bauru consultados pelo Jornal da Cidade, a grande parte é contrária à nova proposta. A maioria dos entrevistados foi unânime ao opinar sobre o assunto: “absurdo”. Para o professor doutor em redação e autor de diversos livros Roberto Magalhães, a proposta vai contra o incentivo à Educação no País.

 

“É querer mascarar a nossa realidade da falta de investimento no ensino brasileiro, além de reforçar a questão da desvalorização do professor. Não consigo enxergar quem poderia defender e aprovar essa norma”, opinou. 

Enquanto o autor da proposta avalia as mudanças como forma de simplificar a língua portuguesa, Magalhães vai mais além. “Isso significa apagar a etimologia das palavras, o que, em minha opinião, é inaceitável”, conclui. 

 

‘Mudanças iriam desconfigurar a linguagem’, avalia professor Darvino

 

“É mais complexo do que se pensa”, avalia o professor Darvino Concer, ao discutir a proposta que pretende abolir o “ç”, “ch” e “ss” da língua portuguesa. Ele explica que toda palavra tem seu radical (elemento que contém o significado da palavra, indivisível em unidades menores). 

 

“Seria desconfigurar a linguagem, desde a parte fonética à ortográfica. Absurdo tirar o radical e a raiz das palavras”, diz, referindo-se às palavras de origem latina e grega, entre outras. “Considero que, na verdade, é um pouco de modismo”, opina. 

 

Ainda de acordo com o professor Concer, a língua portuguesa é a sexta mais falada no mundo e a proposta radical contribuiria para que ela caísse no ranking. “Poderia sofrer um descrédito no âmbito mundial, por não conter mais a base histórica”, observa. 

 

 

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