Esse mundo está chegando a um ponto de ruptura: o planeta como um todo enfrenta crises sem precedentes de urbanização, esgotamento de recursos, pobreza, mudança climática, bem como a desagregação de sistemas políticos. Muitos ainda acham que esses problemas serão resolvidos "mantendo-se o rumo" e contanto com a "concorrência do mercado".
Os poderes estabelecidos e a ampla maioria da população continuam a aceitar falsas premissas e a defender comportamentos cotidianos que estão comprovadamente destruindo a Terra como habitat viável para os seres humanos e demais espécies. Um mundo mais quente e agressivo pode se tornar realidade mais cedo do que se prevê atualmente. Quando isso acontecer, setores básicos, como agronegócio, petróleo, automóveis provavelmente vão se contrair subitamente. Em seu lugar precisam surgir alternativas locais, específicas, secundárias e ecologicamente sãs: hortas comunitárias; combustíveis alternativos; arquitetura solar; ciclismo.
Empurrar as consequências de uma exploração rápida dos recursos naturais para um futuro indefinido tem sido fácil porque só se registra a lucratividade. O envenenamento pesado dos cursos de água, a erosão generalizada e o desmatamento que leva à desertificação deixam de ser registrados como sinais de alerta pelos entes responsáveis, sejam eles corporações, governos ou indivíduos.
Muitos moradores da cidade jamais pensam sobre a nossa dependência de longo prazo da camada relativamente fina de solo de onde vem toda nossa comida. Os alimentos que encontramos nos supermercados dependem de um aporte enorme de energia: de quem planta e colhe; de quem industrializa; de quem transporta e até de quem produz o petróleo necessário para que tudo isso aconteça. Esses alimentos ainda dependem do solo agriculturável, dos aquíferos, dos defensivos agrícolas.
Os automóveis também dependem de custos ocultos que subsidiam as indústrias globais de petróleo e montadoras, bem como dos gastos públicos em estradas e pontes e incalculáveis custos médicos decorrentes, via de regra, da imprudência de motoristas afoitos e psicologicamente despreparados.
A sociedade do espetáculo foi potencializada com a televisão, o sistema de propaganda mais poderoso já concebido. As novelas e as mensagens comerciais que jorram da televisão desde seus primórdios foram redefinindo aos poucos a forma como as pessoas passaram a entender suas vidas. Como a "verdade" representada nas novelas não corresponde às expectativas reais no trabalho e na escola, a culpa pela insatisfação com a vida passa a ser sinônimo de fracasso pessoal. Se a TV diz que aquele é o melhor de todos os mundos possíveis e Você não acha que sua vida é tão bacana, bom, deve haver alguma coisa errada com Você e não um problema sistêmico, já que todas as outras pessoas estão, aparentemente, felizes e prosperando.
Assim, o sistema sob o qual vivemos dá continuidade a seu impulso inexorável para encurralar todo e qualquer centímetro do planeta dentro de sua lógica, ao mesmo tempo em que busca colonizar nossos pensamentos, controlar nosso comportamento e aguçar nossos desejos por bens de consumo. Nosso emprego é a manifestação social de nosso valor pessoal e do sentido de nossa vida. Nosso emprego permite inferir sobre onde vivemos, o que temos condição de comprar, quais são nossas preferências e assim por diante.
Esse sistema continua se expandindo, continua usando nossa energia e nossa boa vontade para fazer um mundo bem diferente daquele que qualquer um de nós escolheria livremente. Em um mundo de instituições decadentes que variam de governos a sistemas jurídicos que, muitas vezes, se engasgam com coisas irrelevantes, passando por religiões que vendem uma espiritualidade oca, estamos por nossa conta.
O autor é professor aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp ? Bauru