A partir de 2003, graças à contribuição da demografia, de um lado, e à expansão do comércio exterior do outro, juntamente com a ampliação do crédito, a economia brasileira reencontrou o crescimento econômico e pode melhorar substancialmente os índices da distribuição da renda entre os cidadãos. Muitas pessoas se ressentem da atual contração da oferta de crédito, mas é preciso observar que o volume do crédito passou de 25% em relação ao PIB à época para 55% em relação ao PIB, hoje.
A inclusão dos novos extratos da classe média no sistema de crédito bancário privado foi instrumento importante para manter a expansão da demanda nesses últimos anos. Mas obviamente isso tem o seu limite. Não é que tenha sido a oferta de crédito apenas que tenha caído. A demanda por crédito também está caindo: as duas coisas estão ligadas, não são independentes. Do ponto de vista do tomador do empréstimo, ele está mais endividado do que estava; as taxas de juro têm subido, o cidadão começa a ter dúvida sobre a continuidade dos atuais níveis de emprego - bastante satisfatórios se comparados com a situação no resto do mundo - e ele se obriga a ser muito mais cauteloso. Ele não quer tomar mais responsabilidades sobre o seu futuro. Do ponto de vista do banqueiro, ele avalia que o risco de crédito está aumentando, porque todas essas coisas que o trabalhador pensa de si, o banqueiro também pensa na hora de analisar o pedido de crédito, antes de conceder um novo. A demanda de crédito não tem estímulo e a oferta de crédito encolhe, de forma que se forma a situação que estamos vivendo: um encolhimento do crédito e um aumento da taxa de juros. Isso não é passível de solução somente através de alguma intervenção do Banco Central. É preciso restabelecer a confiança na economia para que os mecanismos voltem a funcionar. É sempre o mesmo problema em economia. As expectativas são mais importantes que os fatos, pois elas se formam antes e numa larga medida são decisivas para produzi-los mais adiante.
Em meio à toda a excitação produzida pelo embate eleitoral, ninguém pode garantir ventos melhores para a economia em 2015. Vai depender muito do programa apresentado por quem ganhar a eleição, para corrigir alguns desequilíbrios que são muito evidentes. Todos falaram na necessidade de Ajuste Fiscal, em diferentes gradações ou níveis de constrangimento de despesas, mas sem que o público seja esclarecido. Não acredito que sejam necessárias "mudanças fundamentais" que produzirão "alterações profundas". A economia funciona com expectativas: se alguém apresentar de maneira crível um programa que obtenha a confiança da sociedade, vamos ter o ajuste com custo muito menor do que se teria em outras circunstâncias. Do jeito que estamos caminhando, não acredito que no ano que vem a economia brasileira possa crescer muito mais do que 2% ou coisa parecida como esta; e não é por problema de demanda, não: temos um problema de constrangimento de oferta muito sério que precisamos superar e se tentarmos forçar a situação só vamos piorá-lo.
O autor é economista e articulista do JC