Malavolta Jr. |
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Fila em frente à agência bancária é muito comum; falta de alternativas |
Que a fila é uma instituição nacional todo mundo já sabe. Que todo mundo detesta fila também. Mas há algo que chama a atenção e não é de hoje: ela é o retrato da psicologia humana. E não há como fugir dela. Há fila grandona, de horas, há as pequeninas de minutos, mas mesmo assim suficientemente chatas. E quer coisa mais chata do que fila de banco, e as de caixa de supermercado? Há também a fila dos apressados e impacientes. A fila dos desocupados.
Mas há também as filas gostosas. Como assim, gostosas? Sim, sim, aquelas que permitem a gente comer um prato completo, do gostoso arroz, feijão, carne e com direito até a um suco por R$ 1,00. Não não é propaganda do governo estadual, nem esta matéria tem a pretensão de ser um estudo sociológico. Mas a ideia é tentar responder a pergunta que não cala há décadas: por que ainda somos o pais da fila?
Numa rápida passada pelo centrão comercial da cidade, praça Rui Barbosa, avenida Rodrigues Alves e ruas Batista e Primeiro de Agosto, além de suas transversais, encontramos uma bela radiografia do que é o mundo das filas. E do quanto pode ser curioso. E mais: como o mundo mudou, hoje as filas dividem-se em duas: fila em pé e fila sentada. A segunda opção é hoje em dia a mais viável.
Prato cheio e medo
Todos os dias, após as 10h30 uma extensa fila se forma à frente do programa Bom Prato na rua primeiro de agosto. Homens e mulheres, muitas delas, com crianças ficam à espera da abertura do portão que vai permitir uma refeição por apenas R$ 1,00.
Esta semana acompanhamos a população e notamos uma característica: coincidência ou não, ninguém quis dar entrevista ou aparecer na foto.
Parece que há uma espécie de “fobia social”, ou seja, tem-se a impressão de que comer a preço tão barato, demonstra que se está na pior e, por isso é preciso economizar até na comida. A ideia que as pessoas nos passaram é de que não gostariam de mostrar estar usufruindo desse benefício. Como se fosse vergonhoso. E todos os abordados concordaram: a comida é boa. Vale a pena os 20 minutos de sacrifício. Essa é a média em que se fica na espera para adentrar ao local. Lá dentro lá se vão outros 10 a 15 minutos. “Na verdade para gente jovem como eu não há problema “, diz um jovem na fila, ele próprio na casa dos 30 anos de idade. “O problema é com os velhinhos, há muitos, deficientes até, - de fato havia um senhor com muletas naquele dia – esses deveriam ter uma prioridade”. Mas ali é por ordem de chegada mesmo.
“Sem maiores problemas porque aqui é a fila dos desocupados”, mas a gente deveria esperar sentado lembra uma aposentada sem querer aparecer. E notamos também que há fila familiar. Por que havia uma senhora com a filha, a tia, duas sobrinhas e ainda um bebê no carrinho à espera da comida “boa e barata”. Quis se identificar? Também, não!
Filas de banco
E também por ordem de chegada são as filas de banco. Vários deles agora driblam a lei que obriga o atendimento dentro de 15 minutos, colocando o cliente sentadinho e com ar condicionado. Isso, no entanto, não elimina a fila do lado de fora. Principalmente nos primeiros dias dez dias úteis do mês.
Numa delas encontramos Bárbara Bianchi, 19 anos, com celular de última geração a ouvir música pela internet. “É um jeito de passar o tempo”. Mas se ela domina a tecnologia, por que razão Bárbara está na fila de espera para ser atendida e chegou uma hora antes da porta da casa bancária abrir? “Primeiro porque tenho que sacar o seguro desemprego. Segundo porque não confio. Mesmo que eu pudesse sacar pela internet não faria isso. Tenho medo de golpes”.
De fato essa é uma das razões que leva a pessoa ainda a ir ao banco. Caso da aposentada Lúcia Conti que, prefere fazer seus saques e verificar tudo pessoalmente. E ela que já foi comerciante lembra que há coisas que só falando com o gerente mesmo. Ou seja, acredita no relacionamento pessoal que gera fidelidade. Mas não fica satisfeita com uma hora de espera, não. “É um abuso!”.
E o que dizer do casal Valdeci Aparecido de Camargo e Enir Fidêncio Martins? Eram os primeiros da fila no quinto dia útil. Estavam esperando a abertura da agência do lado de fora, sob o sol, desde as 8h da manhã, uma espera de 2h30. Valia a pena porque ele iria sacar o FTGS e vieram em dois, por medida de segurança. Porque o centro da cidade está cheio de bandidinho. “E para ele não parar em nenhum boteco, já viu né?” brincou Enir.
Sorte de vendedor
Se para os integrantes da fila é um exercício de paciência. Agora é comum celulares que inibem aquela conversinha amistosa, uma coisa é certa: as filas de banco são passagem obrigatória de vendedores que fazem a “féria da semana”. O vendedora de atemóia, Bruno de Oliveira Rodrigues, chegou em Bauru há pouco tempo. E acha que é uma praça boa para vender as frutas da época. “Não é todo dia, mas duas vezes por semana fico por aqui e vendo todo o estoque”, garante ele. Aliás, na porta dos bancos, tem vendedor de sorvete, de água de coco e, mesmo na barraquinha da água não falta fila.
Filas de farmácia
É o que acontece na esquina da Virgílio Malta com o calçadão. Ali duas filas se encontram. A do vendedor de água de coco, com a da farmácia. O estabelecimento que vende medicamentos dentro do programa da farmácia popular até que tentou organizar as filas. Aumentou o número de caixas e implantou sistema de banco, com cadeiras destinadas especialmente a idosos e senha. Não o suficiente para que a fila vá para o lado de fora do estabelecimento. E ali, claro, a conversa afiada é sobre a doença de cada um. Um jeito de passar o tempo. Nela as pessoas têm que se armar de muita paciência porque até cada o vendedor conseguir aviar a receita médica, lá se vão uns bons 10 minutos por cliente.
Fila dos apressadinhos
Se na farmácia já se sabe que o tempo de espera é grande, nas lotéricas o que há é “fila dos apressadinhos”. Em geral quem vai a lotérica quer ganhar tempo e evitar fila dos bancos. E quem foi pagar conta no sábado, dia 6, véspera do feriado da Independência se espantou: as filas estavam mais do que duplicadas. Afinal, com a Lotofácil distribuindo 80 milhões, o povo não se queixava para fazer a fezinha. Com certeza, pelo Brasil afora, os 43 ganhadores, cada um levando quase dois milhões de reais para casa, (R$ 1.821.021,77 para ser mais preciso) não estão se importando nem um pouco de terem enfrentado fila.
“Mas há muitos que não querem esperar, nem para pagar conta, nem para jogar.”, conta a gerente de uma lotérica.
Nova profissão: mídia indoor. Para aproveitar o tempo dos clientes nas filas
Administrar filas de caixas, ajudar o cliente a passar de forma prazerosa e eficiente o tempo (sem ficar só mandando mensagens e olhando para o celular) é há alguns anos tarefa de profissionais de mídia indoor. O que vem a ser o mídia indoor? É o profissional que trabalha com a programação dessa área que, você já deve conhecer. Um novo conceito em publicidade instalado em locais de grande circulação de pessoas ou de espera forçada. Ou seja, aquelas televisões de LCD instaladas em grandes redes, que vão entretendo você e, entre uma notícia e outra, a exibição de um filminho ou de o gol de um craque, traz, uma publicidade. O comercial é exibido em formato digital, animado, com alto impacto visual. Claro que, para a pessoa consumir mais.
A visão empresarial
Se você espera que tudo na sua vida seja muito mais rápido, saiba que o autosserviço, tipo faça você mesmo é um dos poucos jeitos modernos para que se evite filas e cada pessoa consiga administrar melhor o próprio tempo.
Afora isso, vai ter que se acostumar com a fila naquele seu restaurante preferido, no supermercado mais próximo da sua casa, no posto de combustível onde há promoção, ou mesmo no drive thru. Fazer você mesmo ou pela internet é hoje uma boa opção de ter agilidade. Caso dos pagamentos bancários online. Uma tendência mundial. Afora isso, não há garantia de que haverá nos serviços uma redução do tempo de espera. Isso porque a maneira mais simples de resolver o problema é também a mais cara: acrescentar funcionários. E daí claro, o serviço ficaria mais caro. E isso é para poucos e bons bolsos. Hoje a tendência é procurar serviços mais baratos. Fazer cada centavo valer mais.
Até por isso varejistas e restaurantes de fast food (comida rápida) se mobilizaram há alguns anos e, estão encaminhando clientes para uma fila única no caixa. Estão experimentando avanços tecnológicos para dar aos clientes informações mais atualizadas sobre o tempo de espera previsto, ou até distrações agradáveis.
Senso de justiça
Com maior eficiência no atendimento, melhorando a qualidade da espera, com senhas, caixas específicos para deficientes e priorizando idosos e pessoas com crianças de colo, as filas estão eliminando aquela figura nefasta do “fura-fila”. Isso porque há hoje em dia maior garantia de que ninguém vai ser atendido após outra pessoa ter chegado mais tarde. Isso mostra que, o senso de justiça está mais aprimorado. É bom, fideliza as pessoas, dá uma satisfação íntima muito grande.
FALA POVO:
Por que ficar na fila se existem novas tecnologias para pagamentos?
“Sei mexer com a Internet, mas não confio” - Bárbara Bianch, Dona de casa
“Sou o terceiro da fila e acho um absurdo a gente ter que chegar tão cedo” - Alfredo Ramos de Oliveira
“Duas vezes por semana, especialmente nos horários de pico dou uma parada aqui. As vendas são boas” - Bruno de Oliveira Rodrigues, Vendedor
“É uma relação de fidelidade com a gerência” - Luci Conti, Aposentada