Bairros

O melhor é prevenir e ser exemplo

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 6 min

Funcionária pública do setor de saúde há 15 anos, Lydiane Moura é o tipo de mulher que não se acomoda. Aos 38 anos, com um filho de 6, o Francisco Netto, Lydiane morava no Bela Vista (mudou-se recentemente, mas o carinho pelo bairro continua) quando, passeando com o pequeno na região próxima à praça Paradesportiva,  viu que a rua Alto Acre acaba bem em frente à praça. O motorista é obrigado a fazer a conversão. E é uma descida, bem íngreme.

“Se alguém, um carro perder o freio, pode parar no meio da quadra e passar por cima de muita gente, foi o que pensei. E tinha muita criança usando o local na hora, escolinha funcionando”, conta.

Não deu outra. Enquanto a Emdurb não instalou o guard rail para impedir que um acidente atingisse a quadra,  ela não sossegou. Uma reivindicação justa, justíssima. Dessas que as assessorias gostam de receber. Muita gente poderia até desistir de fazer a sugestão e achar que a burocracia seria grande. As assessorias garantem que não, e Lydiane é o exemplo de que não é assim. “Havendo necessidade, a Emdurb vai lá e faz”, comemora.

Emdurb é o gargalo

A Emdurb é a Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru. Nela estão concentrados serviços principalmente os serviços de trânsito, limpeza pública e o de transportes. Funciona como um gargalo das principais reclamações, afinal, lida com os setores que  mais afligem a população diretamente. Ao lado de problemas de abastecimento de água (principalmente este ano em que a falta do líquido impera por condições climáticas) e os de telefonia, são esses setores os que mais geram reclamação pública no município.

E embora a Emdurb tenha como missão “obter a excelência no seu ramo de atuação, através da implantação de sistemas de gestão de qualidade com foco no resultado, destacando-se pela agilidade, pontualidade, qualidade dos serviços prestados à população”, todo mundo sabe que na prática não funciona assim. Mas a demora no atendimento não deve ser motivo para desânimo. Pelo menos não foi para Lydiane. Três anos depois, ela posa orgulhosa na frente do gradil que protege o local.

Outras reivindicações

E mais: Lydiane também mostra próximo dali a placa de mão única (para subir) na rua Alto Purus. Também uma antiga reivindicação sua. O trânsito com mão dupla era muito complicado na região e frequentemente as crianças que passam pelo local ficavam à mercê de veículos vindos dos dois lados. Com uma mão só, além de não haver engavetamento, a segurança para quem usa a quadra melhorou muito.

Uma coisa é certa: ela não pode ver algo errado e não falar, não reivindicar. E trabalha, tem filho, marido e ainda arruma tempo para ajudar em assistência social. Arrecada o que for possível para os necessitados e vai levar a grupos que se encarregam de doar.

Ah! voltando para o trânsito, para a mesma rua,  a Alto Purus, a funcionária pública pediu redutor de velocidade. “Pedi o quebra molas mesmo. Reivindico o que é de direito sem medo”, fala, satisfeita. E o trânsito do Bela Vista agradece.

Agora que ela mudou de endereço, que se preparem os moradores da Vila Universitária, porque já, já, Lydiane estará reivindicando uma benfeitoria. Alguém tem dúvida disso?


‘Tem gente muito mais pobre’

Maria Inês Faneco, 54 anos, estudou até o segundo grau e vive de vender pipoca, cachorro-quente, churros e maçãs do amor em festas infantis. Lutadora, a vendedora ambulante tira o pão de cada dia com muito trabalho e vive modestamente na Vila Falcão, num dos redutos mais tradicionais da cidade.

Sua vida espartana, com poucos recursos, não a impede de ajudar quem precisa. “Aprendi isso com minha mãe, em vida ela não deixava de estender a mão para quem precisava”, conta Faneco. Confidencia que isso foi em uma época em que “conseguíamos ser mais pobres do que somos hoje e lutávamos com muito mais dificuldade, era muito mais difícil, mas nunca deixávamos de ajudar”.

Hoje Maria Inês deixa claro que fica feliz em poder ajudar a população carente de rua da cidade. Tão feliz que a missão que abraçou, a da solidariedade, já é exemplo para o sobrinho de 8 anos, Diogo Bernardes Braga.

“Ele fica feliz em ajudar, em ir com a gente até as favelas”, conta Faneco. Tanto que recentemente o menino se “desapegou de um brinquedo para doar a quem precisava mais”.

Mais de uma década

O serviço social de Maria Inês existe há mais de uma década. Mas depois do uso da internet, do Facebook e as redes sociais é que “bombou” mesmo, confidencia ela. Nos últimos três anos, graças ao Facebook ela conseguiu movimentar o grupo Esquadrão do Bem.

E vem gente doando de todos os cantos da cidade. De tudo. Desde alimento até roupas, calçados, brinquedos. Que ela leva sempre que tem alguém disponível para fazer o transporte às comunidades carentes. Vai do Ferradura Mirim à Vila São Manuel, favela do Jardim Europa e Parque das Nações à região do Santa Edwirges com trânsito livre.

“Não há porque temer, são pessoas carentes, não são bandidos, precisam de ajuda, de promoção, todos nos conhecem”, lembra ela.

Recentemente esteve empenhada em atender pessoas que perderam seus poucos pertences em um incêndio.


Um prato de comida

Quis o destino que sua casa fosse bem próxima ao viaduto da Falcão. Embaixo da estrutura, no meio de obras, vivem drogados, os dependentes químicos. Maria Inês é muitas vezes a única opção para essas pessoas comerem. “Você precisa ver com que volúpia, velocidade devoram esse prato de comida, vão comendo com as mãos mesmo”, diz, preparando uma macarronada apetitosa para logo mais à noite.

Anoitece e eles saem dos esconderijos. O ritual se repete até meia-noite. Conhecem o ritual da moradora e sabem que depois desse horário ela precisa descansar. Pedem o prato, devoram tudo e vão novamente em busca de drogas. Muitas vezes são farrapos humanos.

A pipoqueira ajuda como pode, cozinhando o que vários colaboradores deixam na sua porta. E já deixa agasalhos à mostra porque, com certeza, muitos não terão o que vestir nas noites frias e chuvosas.


Sempre engajada

Maria Inês, vez ou outra se depara com problemas de saúde, gente que perdeu tudo em enxurradas, ou incêndios. Lá vai ela pedindo ajuda pela internet. Rapidinho as doações chegam à sua porta. Mas como é engajada, também faz sua parte em outro tipo de campanha. De um ano para cá conseguiu que a Emdurb consertasse a calçada do viaduto sobre a linha férrea que fazia as pessoas correrem o risco de cair. Não sem muito protesto e sem brigar muito. Ela e companheiras ameaçaram até mesmo tirar a roupa para chamar a atenção para o problema. Assim, de forma veemente, vai conseguindo o que quer.

Também no ano passado, participou da campanha “Limpa Geral” contra a dengue e fez pichação na própria parede de casa, ao lado da porta de entrada. “Quantas pessoas terão que morrer para que você limpe o seu quintal?”, perguntava.

A ação virou matéria do JC. E a matéria serviu de inspiração para o último vestibular da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Mérito dela.

Reconhecimento

Também há dois anos a vendedora obteve da Câmara Municipal uma Moção de Aplauso reconhecida pelo seu trabalho árduo como ambulante. “Nada melhor do que homenagear Faneco, que convive com esta dura realidade (a do ambulante) há mais de 30 anos”, dizia a moção. Ela se envaidece. Mas não é disso que vive. Quer mais ajuda para continuar ajudando os outros.

E só fica brava se falam que ela quer tirar proveito da questão social. “Dizem que é vaidade, que eu quero aparecer ou quero ser política. Aí fico muito brava mesmo.”

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