Em quem você vai votar? Desde o começo do período eleitoral, amigos, colegas de trabalho e alunos me fazem essa mesma pergunta. Alguns por curiosidade, outros porque imaginam que eu possa dar algum conselho ou opinião. E alguns apenas para ver se me irritam ao debochar da minha resposta. Longe de mim achar que sou formador de opinião, porque não sou. Não sou cientista político e muito menos professor da área. Aliás, isso é importante: minha opiniões políticas seguem a mesma lógica que aplicamos na área de tecnologia da informação (TI): dada uma informação, passo ela por testes pré-determinados para tentar resolver um problema específico. Um algoritmo. Simples.
Um algoritmo é, antes de tudo, uma maneira estruturada de organizar pensamentos. Em tempos em que somos bombardeados constantemente com notícias sobre o assunto, vale a pena repensar a maneira como escolhemos nossos representantes... Você se guia pelos candidatos que estão mais bem cotados em pesquisas? Vota de acordo com o o que sua família/cônjuge/amigos acham correto? Recebe indicações de seu patrão ou superior hierárquico? Vota porque acha que o candidato "fez um bom mandato", mesmo sem ter certeza? Ou, pior, vota ou não vota de acordo com o que dizem um ou outro jornal ou colunista?
E como esse algoritmo funciona? Vou tentar explicar... Todo meu cabedal aponta que são três os bens mais importantes para a humanidade: liberdade, igualdade e fraternidade. Ora, esse discurso não é novo, mas está longe de estar ultrapassado. Então, para escolher meus candidatos, eu aplico um algoritmo simples: Qual candidato para o cargo X (eu não vivo sem variáveis) atende melhor meus anseios por uma sociedade mais livre, igualitária e fraterna?
Por exemplo: não tenho nenhum problema em votar em padres, pastores ou pais de santo, desde que, é claro, eles não façam uso de tal título para defender uma moralidade pré-atestada. Ninguém é ético ou imoral por crer no Deus X ou no Messias Y. Também não aceito que o candidato use uma convicção pessoal como programa de governo. Em uma democracia, assuntos como interrupção da gravidez, política de combate a drogas, prostituição e políticas de combate ao racismo e à homofobia podem despertar opiniões conflitantes, no entanto, tem que ser discutidas como política de estado, sim. Se o candidato não tem relação com pessoas do mesmo sexo e não usa drogas, tudo bem. Acreditar que proibir, repreender e criminalizar esses comportamentos vai impedir que eles aconteçam é pior que inocência. É má-fé. Não respeitar convicções, necessidades e comportamentos daqueles que pensam diferente de você fere o princípio da fraternidade.
Outro exemplo: políticas sociais. Lutar por uma sociedade igualitária é algo que todos deveriam levar como meta de vida. Acreditar que hoje, no Brasil, somos todos iguais perante a lei, o governo e as instituições é ser deslumbrado. Há menos de 130 anos nós importávamos negros da áfrica. O Brasil é um país de democracia jovem e com sérios problemas de igualdade de oportunidade. Só seremos um país realmente igualitário no dia em que, a exemplo do que acontece na Escandinávia, o saldo da sua conta bancária não mudar a importância do cidadão perante as instituições. Ricos e pobres, com direitos iguais de estudar, trabalhar, morar e ser feliz, como manda a Constituição. Não dá para generalizar, mas candidatos de famílias ricas e tradicionais ou por elas apoiados raramente (nunca) colocarão o fim da desigualdade como prioridade, ferindo, assim, o princípio da igualdade.
Por fim, a liberdade. O sistema político brasileiro é ultrapassado e formulado para servir ao próprio Estado e não ao cidadão. Somos escravos de um dinossáurico e complexo conjunto de regras ruins para nós e que permite que os mesmos deputados e senadores se reelejam sempre. Votar em parlamentares e governantes novos (no sentido de recém-chegados), inteligentes, competentes e, de preferência, que rompam com o tradicional, propondo reformas de base na política, no sistema tributário e na distribuição de renda garantirá oxigênio novo nos debates nas câmaras e assembleias nos próximos anos. A democracia não é um presente, é uma conquista... E a liberdade é o prêmio da democracia plena.
Pense bem: as pessoas mentem o tempo todo, mas as ações de alguém dificilmente o fazem. Ao escolher seu representante no domingo, use princípios lógicos e quantificáveis para analisar a vida pregressa, as convicções e as ações concretas daquele que concorre pelo seu voto. Afinal... A política não é uma ciência exata, mas a matemática sim. Para votar, esqueça a empatia. Use a lógica. Ao contrário de alguns políticos, ela nunca mente.
José Eugênio de Mira - analista de TI e professor