O mais perto que Telma da Silva, 36 anos, pode chamar de casa própria é o barraco erguido na Pousada da Esperança. É lá que ela, grávida, vive com o marido e outros quatro filhos. A família é uma das 20 em situação de vulnerabilidade social que ocuparam uma área verde bairro, nas proximidades da quadra 4 da rua Maurício Pereira Lima, ao lado do Ecoponto. Trata-se do embrião de uma favela em uma área que deveria ser de lazer.
“Eu percebi a situação e também fui procurado por alguns moradores, que não tinham para onde ir”, relata o vereador Natalino da Pousada (PV), que trouxe o assunto à Câmara na semana passada. Depois de discutir a questão com os colegas, ele convocou uma reunião com representantes da Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes), da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma), do Grupo Multissetorial do Minha Casa Minha Vida (MCMV), da Secretaria Municipal de Adminstrações Regionais (Sear) e moradores.
“Eu sou favorável à inclusão das famílias na demanda dirigida do MCMV, desde que seja constatado que não tenham, de fato, para onde ir”, opina o vereador. Contudo, uma solução a curto prazo seria que a Sebes proporcionasse uma moradia provisória a eles e que a área verde seja urbanizada para evitar ocupações.
Soluções?
Darlene Tendolo, titular da Sebes, afirma que a área que as famílias ocuparam não é considerada de risco, mas elas estão em situação de vulnerabilidade social extrema. Para atendê-las, uma equipe do órgão seria enviada até o endereço ainda nesta semana. “Nós faremos uma avaliação social de todos os moradores e, dependendo do resultado, ofereceremos opções, como o aluguel ou o hotel social”, explica a secretária.
Em relação à área verde, o titular da Semma, Valcirlei Silva, concorda sobre a necessidade de urbanizar. Porém, revela não ter nem mesmo um projeto para o local. “Nós estamos esperando a saída das famílias da região. Não temos um projeto pronto ainda, mas pretendemos transformá-la em uma área destinada ao lazer da população, como uma praça ou um parque”, defende Silva.
Demanda dirigida
Livre da exigência de sorteios, a demanda dirigida do MCMV foi criada para acolher pessoas que moram em áreas de risco ou atender aqueles que se encontram em vulnerabilidade social extrema. Contudo, a coordenadora do Grupo Multissetorial do programa, Estela Almagro, salienta que os moradores têm de preencher requisitos, como ter renda familiar igual ou menor a R$ 1,6 mil, morar na cidade há, pelo menos, três anos, e nunca ter tido casa financiada pelo poder público.
“Mesmo no caso de ocupações irregulares, existem pessoas que não atendem a todos os requisitos exigidos pela demanda dirigida”, justifica Estela. Em relação àqueles que ocuparam a área verde da Pousada da Esperança, a coordenadora do MCMV em Bauru diz que, caso eles tenham se cadastrado no programa, será feito um diagnóstico preciso para verificar se preenchem os critérios necessários. Vale ressaltar que, segundo a legislação, até 50% das unidades do programa podem ser destinadas à demanda dirigida.
‘Fomos despejados e não queríamos que nossos filhos morassem na rua’
Telma Ventura da Silva, 36 anos, está grávida de seis meses e, há um mês, passou a morar em um barraco na área verde do Pousada da Esperança com quatro filhos, o marido Anderson Rosetti, 20 anos, além do vira-lata Scooby. “Fomos despejados de uma casa pelo atraso no aluguel e viemos para cá, porque não queríamos que nossos filhos morassem na rua”, desabafa a mulher.
De uma família simples, Telma nasceu em Lins, onde se casou por duas vezes e, dos relacionamentos anteriores, vieram Ana Carolina, 14 anos, Karen Rafaela, 11, e Regimauro, 8. Há três anos, se apaixonou pelo atual companheiro, que mora em Bauru, e mudou-se para cá com dois dos três filhos. “Nós morávamos em uma casa no Jardim Ivone, mas meu marido perdeu o emprego, não tínhamos como pagar as contas e fomos despejados”, conta a mãe.
Com o companheiro, Telma teve mais três crianças, Enzo Gabriel, 3 anos, Wenderson Bryan, 1 ano e 7 meses, além de Yasmin Gabrielle, que deverá nascer em janeiro. Eles sobrevivem com pouco mais de R$ 300,00 do Bolsa Família e um dinheirinho extra que o pai consegue fazendo bicos. Mesmo em condições precárias, os filhos frequentam a escola e projetos sociais. “Queríamos dar a eles um lugar melhor, mas agora não temos condições”, lamenta.