Ela tem quase uma centena de “nomes”, bastismos ancorados na fé, na devoção de quem crê sem nunca ter visto. Aliás, boa parte dos múltiplos chamados da mãe de Jesus surgiu de aparições, manifestações, em diferentes cantos do mundo. Mas o fato é que uma multidão de católicos participa, com carinho e fervor, do domingo santo de descanso e adoração, hoje, para celebrar o Dia da Padroeira do Brasil.
A celebração oficial é hoje, mas a devoção perene, incansável, mantém grupos de orações diários, há anos. São correntes de fé. Para o pároco do Santuário de Nossa Senhora Aparecida, Gilberto Gonçalves Pinto, da paróquia localizada na praça Washington Luiz, na Vila Antárctica, a mensagem essencial para a data, neste ano, é a palavra “unidade”.
“Vivemos em uma sociedade extremamente individualista. A mãe de Jesus sempre se coloca ao lado dos fracos e não por acaso, no caso do Brasil, ela veio negra, resgatada no rio por pescadores. A mensagem principal de Nossa Senhora para os tempos modernos é a unidade”, defende.
Para ele, o elemento mais forte e que merece reflexão nas orações é a união. “Outra simbologia de fé muito forte e presente no histórico de Nossa Senhora Aparecida no Brasil é o trabalho minucioso realizado para a recuperação integral da imagem, que se fragmentou. Diante dos desafios da sociedade moderna a união é a essência, unidade que precisa ser reconstruída passo a passo, fragmento a fragmento, em todas as frentes e diferenças, tal qual as relações sociais”, complementa.
Para fazer o elo litúrgico com a mensagem de unidade, padre Gilberto retoma o caminho de provação a que foi submetido Maria, assim como seu marido José na história, conforme o Evangelho. “A vida de Maria foi repleta de provações e sacrifícios. Pelo conceito judaico a ordem era que os casais tivessem muitos filhos. Para o judeu era muito importante essa questão. E a prova em relação á concepção de Jesus de Nazaré foi tão dura para Maria quanto para José”, recorda.
O padre conceitua que, pela “ordem da sociedade judaica, de então, José tinha duas opções. “Ele poderia denunciar Maria, que seria apedrejada em razão da gravidez nas circunstâncias da época, ou abandoná-la em segredo. Ele pensou na segunda hipótese e, então, teve encontro com Deus e assumiu Maria e se assumiu. Esse foi seu maior ato de fé, o que exigiu enfrentar tradições”, situa.
Aliás, o pároco não perde nenhum elemento dessa correlação. “O resgate da imagem no rio Paraíba, no Vale Paraíba, também guarda uma simbologia de fé que, para mim, também não aconteceu ao acaso. Um rio que não dava peixes e os pescadores resgatam, ao jogar a rede, primeiro o corpo da imagem negra e, depois, em outras tentativas a cabeça separada. Também aqui há forte apelo para a unidade. Esta é a simbologia mais forte, de que no plano de Deus não há divisão”, avalia.
Pela família
Gilberto Gonçalves Pinto critica a parcela majoritária da grande mídia no papel de reconstrução da célula familiar. “Os grandes meios de comunicação têm se esforçado muito em destruir a família, como já o fizeram para destruir a educação e o conceito de cidadania e política em suas programações. A família tradicional, onde convivem em harmonia pai, mãe e filhos, resiste à força dos meios”, opina.
Festa litúrgica
Nossa Senhora Aparecida é representada por uma pequena imagem na Basílica de Nossa Senhora Aparecida, localizada no Vale Paraíba (SP). Centenas de milhares de imagens existem em réplicas, pelos lares brasileiros.
A festa litúrgica é celebrada em 12 de outubro, feriado nacional no Brasil desde 1980 quando o então Papa João Paulo II consagrou o quarto santuário mariano mais visitado do mundo, na Basílica de Aparecida.
Há duas fontes sobre o achado da imagem, uma que se encontra no Arquivo da Cúria Metropolitana de Aparecida, de antes de 1743), e outra no Arquivo da Companhia de Jesus, em Roma. Os relatos históricos foram registrados pelos padres José Alves Vilela e João de Morais e Aguiar, respectivamente em 1743 e 1757, e estão no Primeiro Livro de Tombo da Paróquia de Santo Antônio de Guaratinguetá.
Segundo essas informações, a aparição da imagem ocorreu na segunda quinzena de outubro de 1717. O governante da então Capitania de São Paulo e Minas, Dom Pedro de Almeida, durante passagem por Guaratinguetá, levou pescadores a lançarem seus barcos no Rio Paraíba para homenagea-lo em festa.
Sem sucesso na pesca, Domingos Garcia, João Alves e Filipe Pedroso rezaram para a Virgem Maria e pediram a ajuda de Deus. Eis que, em uma dessas tentativas, o corpo de uma imagem da Virgem Maria, sem a cabeça, ficou enroscado na rede, envolvida em um lenço. Depois, a cabeça também foi “pescada”.
A partir daquele momento, os três pescadores teriam apanhado tantos peixes que se viram forçados a retornar ao porto. A localização seguida da bonança na pescaria é tida como a primeira interceção atribuída à santa. A coroa de ouro, cravejada de diamantes e rubis, e o manto azul foram ofertados pela princesa Isabel. Nossa Senhora da Conceição Aparecida foi proclamada Rainha do Brasil e sua Padroeira Principal em 16 de julho de 1930, por decreto do Papa Pio XI.
‘Minha fé e devoção são inabaláveis’, diz fiel
Ela já ultrapassou oito décadas muito bem vividas e, coincidentemente, também coleciona mais de 80 imagens de Nossa Senhora, de todas as matizes e homenagens. “Minha fé e devoção a Nossa Senhora são inabaláveis”, lança com um sorriso aberto e contínuo, Orminda Machado de Camargo.
De família originária e fervorosamente católica, Orminda conta que “aprendeu a rezar” desde criança, na fazenda Irara preta, então distrito de Itaju (SP). “A devoção a Nossa Senhora começou na roça. Em volta da fazenda também havia moradores de muitas raças, sendo libaneses, sírios, portugueses, espanhóis, enfim, grupos de várias origens. Isso formou uma variedade de manifestações. Com o catolicismo sendo majoritário, toda sexta uma residência recebia a reza e sempre com muita comilança. Era uma festa mesmo para a situação da época”, conta.
De lá, ela se recorda dos rosários com quatro mistérios, mas bem mais longos que os terços e, ao final, depois de muita reza, a mesa farta com doces, bolos e broa de mandioca assada em folha de bananeira. “Minha fé sempre foi fervorosa. Minha mãe já tinha uma imagem antiga de Nossa Senhora, que, claro, ficou comigo. Eu sempre pedia graça e, ajoelhada, nunca deixei de ser atendida”, acrescenta.
“Eu levanto às 5h30 para rezar. Para completar o rosário, todo dia, também rezo às 12 horas e às 18 horas e, depois, quando vou dormir. E tenho o sono que é uma beleza”, relata.
Amante do hábito de viajar, Orminda conta que já foi visitar as imagens da santa de Fátima em Portugal, Lourdes na França, Guadalupe no México, Carmo em Santiago (Chile) e, claro, Aparecida. “Maria significa para mim a mãe intercessora e medianeira de todas as graças. Jesus disse: Se você quer uma graça, peça à minha mãe”, finaliza.
Programação do dia
O tema deste ano é “Com a Mãe Aparecida, ser solidário na dor”. A programação no Dia da Padroeira prevê atividades religiosas e sociais e começa logo cedo, às 6h, com missa no Santuário. Às 8h, mais uma celebração e, às 11h, a liturgia será presidida pelo bispo dom Caetano Ferrari. A programação segue às 11h, com carreata saindo da Paróquia Nossa Senhora das Graças em direção ao Santuário. Mais duas missas ainda serão celebradas, uma às 12h e outra às 15h. No final da tarde, a partir das 18h, haverá a missa de coroação de Nossa Senhora, seguida da procissão luminosa (com velas) em torno do Santuário. Barracas com variedade de comidas, lazer e música serão ofertados aos fiéis.
Intercessora
Enquanto acompanhava os preparativos para as festividades do Dia da Padroeira, Gilberto Gonçalves comentou outra faceta de Maria, uma das virtudes mais prestigiadas pelos devotos, a de intercessora. “Deus é quem concede as graças, o milagre, mas a mãe é quem intercede. Todos necessitamos da mãe, do pai. Mas o filho deve saber que quem sempre intercede por ele é a mãe. A negação de Maria deixa o cristão órfão, ele fica sem o carinho e a proteção da mãe”, posiciona o pároco ao comentar sobre as religiões que não consideram Maria a mãe de Jesus.