Articulistas

Esta hora exige seriedade

Maria da Glória De Rosa
| Tempo de leitura: 3 min

Sentei-me defronte a este teclado menos de 24 horas após a abertura das urnas do primeiro turno das eleições. Relendo Chesterton, concluo com ele sobre a inexatidão do mundo. A vida não é um ilogismo, contudo, é uma cilada para os lógicos. Sua inexatidão está escondida, sua loucura está à espreita. A maioria dos eleitores, pouco antes da apuração dos votos, supunha um embate entre PT e PSB, mas como as pesquisas não são iniludíveis, eis que cai o PSB e entra o PSDB na roda-viva. Isso quer dizer pouco e quer dizer muito. Para os que não gostam de dar trabalho aos neurônios, não significa nada, mas para os que realmente pensam, ponderam, analisam, quer dizer muito.

Temos mais alguns dias para raciocinar, para concluir. É hora de fazer como o pensador de Rodin: sentar-se no isolamento e, na posição de quem medita, revisitar o Brasil. Tentarei mostrar que quando sentimos a existência de algo estranho na política, geralmente descobrimos que existe algo de estranho na verdade. É claro, como Chesterton diz, pode-se acreditar em qualquer coisa em qualquer época. E a pessoa fica, então, realmente convencida quando descobre que tudo prova essa teoria. E é aí que mora o perigo. Se a maioria pensa assim, então tem-se a impressão de que aquilo que a maioria pensa é verdade, entretanto, qualquer convicção completa está envolta em desamparo. Em outras palavras, quanto mais numerosas forem as razões apontando para essa convicção, tanto mais confusa a pessoa ficará se, por exemplo, for solicitada a resumi-las. Defender fanaticamente um partido, uma facção nem sempre é o ideal. Alguém pode ser louco comendo demais ou comendo de menos. O verdadeiro equilíbrio está na sensatez. Eis porque é oportuno rememorar grandes pensadores. Isso nos remete à questão da modéstia. Tenho pavor dessa modéstia orgulhosa que se expressa em coroas raiadas como o sol e leques com plumagens de pavão. Como estamos nos aproximando do segundo turno e a hora exige seriedade, nossa obrigação é buscar aquele ser humano que, com as rédeas na mão, não tenha dificuldade em dominar esses furiosos opostos. Quer dizer, modéstia nunca se deu bem com orgulho.

A caridade, também, como a modéstia, é um paradoxo. Como diz Chesterton, mal formulada, a caridade ou significa perdoar atos imperdoáveis ou amar pessoas que não são amáveis. Há algumas pessoas que se podem perdoar e outras não. Um empregado que roubasse uma latinha de cerveja poderia até ser risível, mas se traísse o patrão seria caso de polícia, como seria caso de polícia estuprar, assassinar, sequestrar. É preciso separar o crime do criminoso. Separar o corrupto da corrupção. Ao criminoso e ao corrupto devemos perdoar até setenta vezes sete. Aos crimes hediondos e ao crime de corrupção não deveremos perdoar de maneira alguma.

Nosso país está precisando de um pulso firme, precisando de equilíbrio, de muita seriedade. Não podemos dar-nos ao luxo de oscilar um milímetro em determinados pontos, se quisermos que os bons propósitos ganhem força, pois ao permitir que uma ideia perca um pouco de seu ímpeto outra ideia ganhará ímpeto demais. As doutrinas têm de ser definidas dentro de limites rigorosos para que possamos desfrutar de liberdades humanas. Esta é a sensatez, o equilíbrio de quem, ameaçado por cavalos em louca disparada, consegue abaixar-se ora de um lado, ora de outro, mantendo a graça de uma escultura. A situação atual abre clara oportunidade para cada um atestar sua dignidade. Não fosse uma releitura de Chesterton, jamais teria tido azo para escrever este artigo. Espero que o leitor tenha me compreendido neste momento tão conturbado do país. E mais: os céus não estão lá em cima no infinito, mas sob nossos próprios pés. Só quando você descobrir seus próprios pés, saberá disso.

A autora é professora doutora aposentada da Unesp

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