Os processos eleitorais dominam noticiários, incentivam paixões, provocam debates, geram inimizades, esparramam ódios, dividem famílias, revelam talentos, exibem traições e, até e também, permitem apostas. Enfim, criam quadro tenso e prolongado de aflições e expectativas que remetem quase tudo para discreto segundo plano até que entre os participantes surge aquele que se entristece com a derrota e aquele que se glorifica com a vitória. Nesse palco de situações tão conflituosas quanto complexas que praticamente domina a nação as preocupações estão enfocadas na vitória e na derrota e muito pouco tempo se perde para imaginar os desdobramentos represados que, depois de tudo, afloram fortes e rijos para enfretamento já no primeiro dia após as eleições.
O palco que por enquanto nos domina é tanto ilusório como fantasioso com diminuto espaço para a verdade, porque a experiência humana já cansou de vivenciar o triste destino reservado para aqueles que ao modo e exemplo de Winston Churchill insistem na franqueza e na honestidade para revelar que a ponte de passagem obrigatória que costuma levar a um sonhado paraíso está carregada de obstáculos difíceis de transposição e apenas superáveis com muito sangue, suor e lágrimas, como sempre ocorre na vida real. Por estes dias as surpresas do amanhã já estão armadas. À margem do palco dominante e fantasioso do processo eleitoral fervem em fogo brando e quase em silêncio alguns caldeirões investigativos compulsoriamente tampados por exigência legal em cujo interior apuram-se nutrientes de alto teor explosivo que, quando afastado o sigilo e retomada naturalmente a publicidade processual dominarão a cena nacional. A pequena fumaça que escapa desses caldeirões ferventes antes de ser branca como aquela que anuncia novo papa aponta para escuridão que, por delações legais, indica e relaciona centenas de transgressões corruptas envolvendo empresas públicas, empresas privadas que a elas prestam serviços, partidos políticos, agentes públicos e particulares em procedimentos desonestos muito simples: obras contratadas acima do preço de mercado e desvio dos valores indevidamente acrescidos para fins partidários e pessoais. São noticiadas via delação legal rotinas implantadas de fácil comprovação que expõem as duas pontas da torpeza e apontam nomes, valores, favorecidos e prejudicados com detalhamento de mecanismos utilizados para depósitos, branqueamento e repatriação de valores desviados. Tudo indica que desta vez investigadas as trilhas das delações e destampados os caldeirões não haverá forma justa e honesta para perdoar corruptos e isentar corruptores, mesmo que se invoque o risco de paralisação das atividades econômicas caso reconhecida a inidoneidade das empresas corruptoras.
Pelo contrário suspeita-se que caldeirões destampados despertarão comoção e indignação coletiva, restando mínimas as chances de mais uma apressada varredura para esconder fatos nojentos debaixo dos tapetes da impunidade. E existem boas expectativas de que finalmente as situações concretas de corrupção governamental serão apontadas, investigadas e julgadas acarretando justas punições. A fase dos inquéritos rigorosos que pouco investigavam e da vazia ameaça do doa a quem doer que a nada conduzia parece que deixará de ser mera justificação retórica e serão mãos firmes e justas que brandirão o açoite na direção certa de lombos transgressores, superados, enfim, séculos de revoltante impunidade. Esse tipo de sucesso se finalmente alcançado exigirá, à moda baiana, carnaval nacional que poderá durar bons e justos dias de muita festança porque tamponados os propinodutos a recuperação econômica será mais simples, mais rápida e bem mais ampla e expressiva.
O autor é advogado e articulista do JC